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sexta-feira, 26 de julho de 2013

A Escravidão na África pré-Colonial

Jinga (1582-1663), a grande guerreira africana, segue com seu séquito de músicos, favoritas e oficiais, portando arco e a machadinha dos jagas. (ALENCASTRO, p. 233) 
A escravidão na África pré-Colonial, a comercialização de escravos, a influência muçulmana e as modificações quanto à escravidão no continente com o tráfico atlântico

A África estava, desde há muito tempo, ligada a escravidão tanto como fonte principal de escravos "quanto como uma das principais regiões onde a escravidão era comum", afirma Paul Lovejoy, que diz também que a escravidão no continente africano durou até o século XX.

A escravidão no continente africano antes da comercialização com os muçulmanos e a colonização europeia era marginalizada. A sociedade se estruturava de acordo com as relações de parentesco, através da gerontocracia (autoridade por membros mais velhos), mas a escravidão não alterava a formação social. A escravidão era apenas mais um dos meios dependência (haviam também o casamento e o concubinato), estava essencialmente ligada ao mundo do trabalho e também uma forma de exploração. Os escravos eram as pessoas que não tinham laço de parentesco, os estrangeiros, porém nem todo estrangeiro era escravo. Servia também, a escravidão, como uma forma de dominação nos lugares onde as relações de parentesco era dominante.

A existência de escravos na sociedade africana não fazia dela uma sociedade escravocrata, pois a sociedade não dependia diretamente deles, a escravidão no continente africano antes da comercialização com os muçulmanos e antes da chegada dos europeus, era, ressaltando mais uma vez, marginal. A comercialização de escravos com os muçulmanos se deu a partir do século VIII. No início, os escravos utilizados pelos muçulmanos eram os prisioneiros de guerra oriundos das expansões islâmicas. Eram utilizados no serviço militar, administrativo e doméstico. A escravidão muçulmana teve influência ideológica e tinha como base a religião, quem não se convertia ao islamismo tornava-se escravo como uma forma de aprendizagem. O escravo que se convertia não se emancipava de sua condição, mas a assimilação era considerada importante para uma possível emancipação.

Na escravidão islâmica as mulheres e crianças eram preferidas, as mulheres principalmente por causa da poligamia e serviços domésticos; eram tão importantes que custavam mais que os homens, nas relações comerciais com os muçulmanos. Os homens eram treinados para o serviço militar e doméstico, os mais promissores eram promovidos. O comércio de exportação na escravidão islâmica foi consideravelmente menor se comparada com a escravidão europeia. "As exportações chegavam a uns poucos milhares de escravos por ano na maioria das vezes, e como as áreas afetadas eram quase sempre muito extensas o impacto local era geralmente minimizado" (LOVEJOY, Paul). Em suma, a escravidão e influência islâmica se deu de uma forma ideológica, justificada pela religião e em números menores se comparada com a escravização pelos europeus.

O crescimento e a expansão do tráfico europeu de escravos mudou a história do continente africano e mudou também a escravidão no continente africano. A abertura do mercado atlântico foi um dos principais motivos que sistematizou a escravidão na África. Antes da abertura dos mercado atlântico, as costas atlânticas da África estavam isoladas do mundo exterior. A escravização pelos europeus no continente africano continuou a ser concebida em termos de parentesco. Os europeus queria trabalhadores para o campo e para as minas, preferindo assim escravos do sexo masculino. Com a intensa exploração dos europeus, a escravidão tornou-se uma sociedade agrícola baseada em grandes concentrações de escravos.

A exportação além do objetivo específico de mercado, de relações comerciais, foi também um elemento utilizado no controle de cativos. A exportação nesse caso funcionava como um processo ideológico que mantinha os escravos cumprindo com seus deveres e sem possíveis conflitos. Em suma, a principal influência da escravidão pelos europeus foi econômica, mudando radicalmente a escravidão no território africano deixando apenas de ser uma das relações de dependência, de estar à margem da sociedade e se transformar em uma instituição, em sistema, em sociedade escravocrata.


Referências Bibliográficas

ALENCASTRO, Luiz Felipe de. O Trato dos Viventes: Formação do Brasil no Atlântico Sul. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.

LOVEJOY, Paul. A Escravidão na África: uma história de suas transformações. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2002.

domingo, 14 de julho de 2013

A Expansão Banta no Continente Africano

Google Imagens/Reprodução

A Expansão Banta no Continente Africano: possíveis origens antes da expansão, o protobanto, as características econômicas, o processo de expansão (bantos ocidentais e orientais), o impacto de influências asiáticas como a banana e o ferro

Banto não é uma cultura, povo ou território e sim um tronco linguístico. A palavra banto quer dizer "povo" ou "homens" e foi utilizada para designar os povos que falavam línguas aparentadas no continente africano há milhares de anos.

As línguas bantas modernas teriam se originado do protobanto. O protobanto é uma criação dos linguistas que defendem duas teorias distintas de que o protobanto teria se originado no noroeste ou no sul do continente africano. O linguista Joseph Greenberg defende a teoria de que os protobantos teriam se originado no noroeste: no rio Benué, na fronteira da Nigérias com Camarões. Um outro linguista, Malcom Guthrie defende a teoria de que teriam surgido no sul, na floresta equatorial ao norte do Chaba. Mas Jan Vansina não destitui nenhuma das duas hipóteses, alegando que ambas se complementam. Alberto da Costal e Silva fala de um banto noroeste ou primitivo, e de um banto sul ou secundário.

Como a história da África foi construída a partir, principalmente, de fontes arqueológicas e história oral, o estudo dos vocábulos protobanto foi o que permitiu a reconstrução hipotética dos modos de vida desse povo. Os protobantos eram grandes produtores de alimentos, tecidos de ráfia, cestos, agricultura nas bordas da mata, pescadores e se organizavam em extensas famílias.

Esses povos moravam a distâncias umas das outras e seus números aumentavam constantemente em um espaço geográfico e propício e, embora conhecessem a agricultura e criassem animais, viviam em grande parte da pesca, da coleta e da caça; para isto, necessitavam de vasto espaço para exercer essas funções sem entrar em choque com os vizinhos. Então, o aumento da densidade demográfica e o ressecamento do Saara foram os fatores que motivaram esses povos a se deslocarem lentamente para o sul (a medida que aumentavam em números, os protobantos foram avançando para leste e para oeste). Esse deslocamento irá segmentar, dividir os protobantos: os grupos que se expandiram para o leste deram origem às línguas bantas orientais e os que se expandiram para o poente e sul, deram origem às línguas bantas ocidentais. Jan Vansina propõe uma outra teoria para a expansão dos bantos, eles diz que há milhares de anos nas pradarias do Camarões falava-se o idioma Bin e que o banto, então, deixou de ser um item à parte na chave das línguas africanas e os bantos oriental e ocidental faziam parte de algo muito mais aberto e antigo.

Os bantos ocidentais se desenvolveram entre o rio Cross, no Atlântico e nas montanhas no sul do camarões, chegaram ao rio Zaire e à Namíbia. Os bantos orientais se desenvolveram na região dos Grandes Lagos e foi entre eles que o ferro passou a ser difundido. A influência asiática se dá quando os indonésios fundam colônias e entrepostos na África Índica e os habitantes do continente se apropriam da bananeira, coqueiro, dos inhames asiáticos e de outras sementes e raízes que foram trazidas nos barcos indonésios. Jan Vansina sugere que o impacto da banana foi maior que o ferro, pois a banana é de fácil cultivo, requer pouco trabalho e dá frutos; o que tornou, então, a vida mais fácil e permitiu a migração para o interior.

A economia é sustentada com a mineração e a metalurgia, principalmente com esta última. Em alguns lugares, a presença de jazidas de ferro irá estimular a produção de artefatos que facilitará a caça e a pesca, além da troca desses produtos que tem como consequência o desenvolvimento dos primeiros vínculos de sujeição. A expansão dos povos bantos não se deu com exércitos (embora usassem a força quando necessário), mas pra suprir necessidades, por colonos que ocupavam territórios que pareciam estar vazios.


Referências Bibliográficas

ALTUNA, Raul Ruiz de Asúa. Cultura tradicional banto. Luanda: Secretariado Arquidiocesano de Pastoral, 1985.
SILVA, Alberto da Costa e. A Enxada e a Lança: a África antes dos portugueses. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, São Paulo, EDUSP, 1992.


quinta-feira, 26 de julho de 2012

George Orwell - 1984

Foto: Maiara Alves
1984
ISBN: 9788535914849
Autor: George Orwell
Tradução: Alexandre Hubner e Heloisa Jahn
Editora (Br): Companhia das Letras
Páginas: 414
Gênero: Literatura Estrangeira/Romance

Sobre: 1984 é uma das obras mais influentes do século XX, um inquestionável clássico moderno. Publicado em 1949, quando o ano de 1984 pertencia a um futuro relativamente distante, tem como herói o angustiado Winston Smith, refém de um mundo feito de opressão absoluta. Em Oceânia, ter uma mente livre é considerado crime gravíssimo, pois o Grande Irmão (Big Brother), líder simbólico do Partido que controla a tudo e todos, "está de olho em você." No íntimo, porém, Winston se rebela contra a sociedade totalitária na qual vive: em seu anseio por verdade e liberdade, ele arrisca a vida ao se envolver amorosamente com uma colega de trabalho, Júlia, e com uma organização revolucionária secreta.

Opinião: Foi um dos livros mais incríveis que já li até hoje e sabia que me marcaria mesmo antes de lê-lo. Por ser publicado originalmente em 1949, 1984, do britânico Eric Arthur Blair (nome original de Orwell), parecia um futuro distante, ficção de fato. Mas poucos livros retrataram tão bem e tão fidedignamente a nossa sociedade. 1984 é os anos 1920, 1930, 1940, 1950, 1960, 1970, 1980, 1990, 2000 e, infelizmente, ainda, os anos 2010 no sentido político-ideológico. Orwell pensou, especificamente, o pós-guerra e o início da Guerra Fria, ainda não cheguei lá (acabei de sair da Idade Média), mas no geral podemos dizer que o livro retrata todo o século XX e início do XXI (ou não).

A década de 1940 foi um momento de grande turbulência na Europa, África e América - na Ásia também, é claro - e para expressar, com todas as limitações em que os grandes pensadores são submetidos, George Orwell criou um mundo para ilustrar esse mundo de conflitos bélicos, políticos e ideológicos que vivenciou. Como disse, ainda não cheguei em Contemporânea, muito menos Hist. do Tempo Presente, por isso não posso comentar com propriedade sobre o que Orwell ou Goldstein escreveu sobre a I e II Guerras Mundiais e todos os outros eventos que as antecederam e sucederam, mas pelo meu limitadíssimo conhecimento deu pra perceber alguns pontos interessantes.

O livro é dividido em três partes. Na primeira, Winston nos é apresentado e é encarregado de mostrar ao leitor como o mundo funciona em 1984; na Segunda Parte Winston, à seu modo, se rebela contra o Partido (a instituição governamental de 1984) e, não obstante, conhecemos Julia que há tempos, também à seu modo, se rebelava contra o Partido (ou achava que o fazia). E na Terceira Parte é repreendido é moldado ideologicamente aos interesses do Partido. Entre outras coisas, Orwell critica o positivismo no que concerne a negação e reconstrução do passado. Fala também da manipulação de fontes, quando em 1984 a história é constantemente reescrita de acordo com os interesses do Partido (assim como o ensino de História). Orwell também utiliza o conceito de classe, mostrando sua influência marxista comum aos grandes pensadores até a primeira metade do século XX. Outro ponto interessantíssimo é a Novafala que, genialmente, Orwell percebeu que começava a ocorrer no século XX, pois é notável que a cada ano usamos menos adjetivos e destituímos a gramática e a cada ano as gírias e abreviações (principalmente na internet) contribuem para limitar nossa capacidade de raciocínio... mas quando eu falo em alguma teoria da conspiração sou taxada de doida, pois é.

Na Segunda Parte destaco o livro de Goldstein, no qual tem o mesmo papel que o próprio 1984 possui na nossa sociedade: o de mostrar como as coisas "realmente funcionam", na verdade foi um choque saber que o livro foi escrito pelos próprios integrantes do Partido (ou não, O'Brien pode ter dito isso pra confundir Winston, vai saber, até o leitor fica confuso hehe). As passagens mais interessantes estão na Terceira Parte, nos diálogos entre Winston e O'Brien e, principalmente quando Winston, após semanas/meses de tortura vê seu reflexo no espelho. Daqui a um ano ou dois, após estudar Contemporânea/Tempo Presente, notarei pontos mais relevantes do objetivo de Orwell com o livro. Por ora, é recomendável por retratar a nossa sociedade tal como ela é no sentido político/ideológico: não que o leitor tenha de escolher entre os dois blocos econômicos dominantes que começavam a se delinear no período em que o livro foi escrito e publicado, não.

 O leitor deve observar como somos constantemente manipulados, em como a Memória coletiva e individual é manipulada, em como a História é constantemente reescrita e como as fontes, como disse Le Goff em História e Memória, não são ingênuas atendendo assim aos interesses políticos vigentes.


Quotes
Goldstein bradava seu discurso envenenado de sempre sobre as doutrinas do Partido - um discurso tão exagerado e perverso que não servia nem para enganar uma criança, e ao mesmo tempo suficientemente plausível para fazer com que o ouvinte fosse tomado pela sensação alarmada de que outras pessoas menos equilibradas do que ele próprio poderiam ser iludidas pelo que estava sendo afirmado. (p. 23)
Ninguém ouvia o que o Grande Irmão estava dizendo. Eram apenas algumas palavras de estímulo, o tipo de palavras pronunciadas no fragor da batalha, impossíveis de distinguir isoladamente, mas que restauram a confiança pelo mero fato de serem ditas. (p. 26)
Era um desses sonhos que, mesmo mantendo o cenário onírico característico, são uma continuação da vida intelectual da pessoa, e em que tomamos consciência de fatos e idéias que continuamos achando novos e valiosos depois que acordamos. (p. 42)
Se o Partido era capaz de meter a mão no passado e afirmar que esta ou aquela ocorrência jamais acontecera - sem dúvida isso era mais aterrorizante do que a mera tortura ou a morte. (p. 47)
E se todos os outros aceitassem a mentira imposta pelo Partido - se todos os registros contassem a mesma história -, a mentira tornava-se história e virava verdade. "Quem controla o passado controla o futuro; quem controla o presente controla o passado", rezava o lema do Partido. E com tudo isso o passado, mesmo com sua natureza alterável, jamais fora alterado. Tudo o que fosse verdade agora fora verdade desde sempre, a vida toda. Muito simples. O indivíduo só precisava obter uma série interminável de vitórias sobre a própria memória. "Controle da realidade", era a designação adotada. (p. 47)
Você não vê que a verdadeira finalidade da Novafala é estreitar o âmbito do pensamento? No fim teremos tornado o pensamento-crime literalmente impossível, já que não haverá palavras para expressá-lo. (p. 68 e 69)
Os capitalistas eram donos de tudo o que havia no mundo e todos os outros homens eram escravos. (p. 92)
Ocorreu-lhe que em momentos de crise o embate da pessoa nunca era com um inimigo externo, mas sempre com seu próprio corpo. (p. 124)
 A visão das palavras amo você fizera transbordar nele o desejo de continuar vivo, e a idéia de correr riscos menores pareceu-lhe de repente uma burrice. (p. 133)
Talvez sob a superfície o Partido estivesse podre, talvez seu culto ao zelo e à abnegação não passasse de um biombo ocultando o mais completo desregramento. (p. 152)
Havia uma conexão íntima e direta entre castidade e ortodoxia política. Porque, de que maneira manter no diapasão certo o medo, o ódio e a credulidade imbecil que o Partido necessitava encontrar em seus membros se algum instinto poderoso não fosse represado e depois usado como força motriz? A pulsão sexual era perigosa para o Partido, e o Partido a utilizava em interesse próprio. (p. 161)
Quando você ama alguém, ama essa pessoa e mesmo não tendo mais nada a oferecer, continua oferecendo-lhe o seu amor. (p. 197)
Porque se lazer e segurança fossem desfrutados por todos igualmente, a grande massa de seres humanos que costuma ser embrutecida pela pobreza se alfabetizaria e aprenderia a pensar por si; e depois que isso acontecesse, mais cedo ou mais tarde essa massa se daria conta de que a minoria privilegiada não tinha função nenhuma e acabaria com ela. (p.226)
Na verdade, as três filosofias não têm quase nenhuma diferença entre si, e os sistemas sociais que elas justificam são idênticos. Em toda parte existe a mesma estrutura piramidal, a mesma adoração a um líder semidivino, a mesma economia justificada única e exclusivamente por uma atividade contínua de guerra. (p. 233)
A guerra devora o excedente de bens e contribui para preservar a atmosfera mental que convém a uma sociedade hierárquica. (p. 235)
Todas as novas teorias políticas, seja lá como se autodenominassem, reeditavam as idéias de hierarquia e regimentação. (p. 241)
Não estamos preocupados com aqueles crimes idiotas que você cometeu. O Partido não se interessa pelo ato em si: é só o pensamento que nos preocupa. Não nos limitamos a destruir nossos inimigos; nós os transformamos. (p.297)
A Novafala foi concebida não para ampliar, e sim restringir os limites do pensamento, e a redução a um mínimo do estoque de palavras disponíveis era uma maneira indireta de atingir esse propósito. (p.349)

domingo, 22 de julho de 2012

Nicolau Maquiavel - O Príncipe

Foto: Maiara Alves
De Principatibus
ISBN: 9788563560032
Autor: Nicolau Maquiavel (Niccolò Machiavelli)
Tradução: Maurício Santana Dias
Editora (Br): Companhia das Letras/Penguin
Páginas: 172
Gênero: Ciência Política/Política

Sobre: Ao longo de cinco séculos, o trabalho mais conhecido de Nicolau Maquiavel (1469-1527) deixou de ser apenas uma leitura de interesse político, para se transformar também em literatura obrigatória no currículo de historiadores, economistas, sociólogos, advogados e executivos. Na Florença do século XVI, Maquiavel escreveu, com texto límpido e elegante, não só um manual para a conduta de um mandatário, mas uma obra clássica da filosofia moderna, fundadora da ciência política, que é ainda uma esplêndida meditação sobre a conduta do governante e sobre o funcionamento do Estado. Mais do que um tratado sobre as condições concretas do jogo político, O príncipe é um estudo sobre as oportunidades oferecidas pela fortuna, sobre as virtudes e os vícios intrínsecos ao comportamento dos governantes. Suas observações sobre moralidade e ética permanecem espantosamente atuais.

Opinião: Ao contrário da descrição do livro, eu diria que a leitura de O Príncipe é obrigatória a todo e qualquer cidadão de qualquer Estado do mundo e não apenas à profissionais específicos, pois este manual descreve, talvez verità effettuale, o perfil político do homem - dominante e dominado - liberal capitalista. Machiavelli teve a oportunidade de acompanhar de perto alguns políticos e, a partir da observação de suas atitudes, descreveu como se dava efetivamente a ação política de seu tempo que se mantém "espantosamente atual" por dois motivos: porque ainda vivemos o modelo político que estava começando a se delinear na época e por ter descrito a postura que o governante deve ter nas relações políticas.

Acredito que o li no tempo certo: acabei de estudar História Medieval e, praticamente na semana que vem, começo a estudar História Moderna; muito superficialmente, é claro, não dá pra estudar tudo em um semestre (nem em quatro anos), mas dá pra ter uma noção mais ou menos ampla do que foram essas duas fases da história. Bom, o contexto do livro é a transição entre a Idade Média e a Idade Moderna na Itália - mais precisamente em Florença, cidade natal de Machiavelli, Dante, Michelangelo e outros grandes homens notáveis. Não temos como datar exatamente quando se deu a passagem da Idade Média para a Moderna,  isso varia de historiador para historiador e conseqüentemente de sua orientação. Braudel, em A Dinâmica do Capitalismo, já enxergava neste período (fim da Idade Média e início da Moderna) vestígios do sistema econômico capitalista, baseado nisso acredito que a principal obra de Machiavelli é "espantosamente atual" por descrever o perfil político do homem dominante e dominado dessa sociedade específica, fruto do modelo "liberal capitalista".

Na capa do livro desta versão temos o Retrato de Lourenço de Médici (a quem o livro foi dedicado), pintado por Rafael Sanzio em 1518 - e não o próprio Machiavelli como eu pensava. Machiavelli era ambicioso, segundo consta no prefácio de Fernando Henrique Cardoso, e pretendia seguir carreira política, mas por não possuir os recursos que eram necessários para tal, buscou o poder através da intelectualidade, e conseguiu. Grafton ressalta as considerações de Felix Gilbert, de que Machiavelli apenas pôs no papel a política que já era discutida na esfera privada, tornando-a então pública e descrevendo-a como realmente era, e não como deveria ser, sendo considerado por estes motivos um renovador e sua principal obra um clássico. O teórico italiano é popularmente mais conhecido pela expressão que leva seu nome, "maquiavélico" do que por sua obra em si, embora esta tenha surgido delas. Lendo O Príncipe podemos entender o significado da expressão, bem como se dá as complexas relações políticas que vigoram até os dias atuais.

O livro traz muitos pontos que merecem ser destacados: a conduta do governante para com o povo, com seu exército, com governantes de outros territórios; considerações sobre guerras, moral, a importância da história, etc. Como todos os homens de seu período, Machiavelli percebeu que as coisas dependiam mais do homem que do poder divino, que o objetivo da política é organizar cidades para que o instinto egoísta intrínseco ao ser humano não as destrua, que o objetivo da ação política é o poder e que a dominação é um bem "Porque em toda cidade se encontram essas duas tendências opostas: de uma parte, o povo não quer ser comandado nem oprimido pelos poderosos, de outra, os poderosos querem comandar e oprimir o povo; desses dois desejos antagônicos advém nas cidades uma das três consequências: principado, liberdade ou desordem. (p. 77) O livro é incrível, a tradução de Maurício Santana Dias é bem simples e totalmente acessível a qualquer tipo de leitor, o recomendo não apenas por ser um clássico ou por descrever e explicar as relações políticas, mas por mostrar de uma forma generalizada o comportamento do homem em sociedade e quando relacionado ao poder. Seu conteúdo é discutido há mais de meio século, escrever sobre todas as coisas importantes que Machiavelli traz com meu limitado conhecimento de dezenove anos de vida e quase um ano de história é impossível, mesmo porque é importantíssimo que cada um reflita por si, independente de ser ou não um historiador, sociólogo, filósofo, executivo, letrado, advogado ou o Presidente da República, esta ou qualquer outra obra.

Quotes
"(...) pois sabiam que guerra não se evita, mas se adia em favor de outrem." (p. 53)
"Tampouco jamais apreciaram o que hoje está na boca de todos os sábios, ou seja, que se desfrutem os benefícios do tempo, preferindo antes seguir seu valor e prudência: porque o tempo arrasta tudo consigo e pode trazer o bem como o mal, ou o mal como bem." (p.54)
"O desejo de conquista é algo realmente muito natural e comum, e aqueles que têm exito na empreitada serão sempre louvados, ou pelo menos não criticados; porém, quando não têm força para tanto e querem realizá-lo a qualquer custo, aí reside o erro, daí decorre a crítica." (p.55)
 "Pois, além do que já foi dito, a natureza dos povos é inconstante, sendo fácil persuadi-los de uma coisa, mas difícil mantê-los nessa persuasão; portanto convém estar preparado para convencê-los pela força, quando já não estiverem convencidos por si mesmos." (p. 64)
"A crueldade bem empregada - se é lícito falar bem do mal - é aquela que se faz de uma só vez, por necessidade de segurança; depois não se deve perseverar nela, mas convertê-la no máximo de benefício para os súditos. Mal usadas são aquelas maldades que, embora a principio sejam poucas, com o tempo aumentam em vez de se extinguirem." (p. 76)
"Por isso as injúrias devem ser cometidas de uma vez só, de modo que, por sua brevidade, ofendam menos ao paladar; ao passo que os benefícios devem ser feitos aos poucos, para que sejam mais bem saboreados." (p.77)

"(...) respondo que um príncipe prudente e corajoso sempre será capaz de superar todas essas dificuldades, ora dando aos súditos a esperança de que o mal não seja duradouro, ora incutindo-lhes o medo da crueldade do inimigo, ora precavendo-se com destreza contra aqueles que lhe parecem ousados demais." (p. 82)
"No que diz respeito ao exercício da mente, o príncipe deve ler obras de história e nelas atentar para as ações dos homens ilustres, ver como eles se conduziram nas guerras e examinar as causas de suas vitórias e derrotas, a fim de evitar estas e imitar aquelas." (p. 96)

"Um príncipe sábio deve observar tais exemplos e nunca manter-se ocioso nos tempos de paz, mas aproveitar-se deles com engenho para poder agir melhor na adversidade; de modo que, quando a fortuna mudar, ele esteja preparado para resistir a ela." (p. 97)
"Porque, de modo geral, pode-se dizer que os homens são ingratos, volúveis, fingidos e dissimulados, avessos ao perigo, ávidos de ganhos..." (p. 102)
"(...) os homens têm menos escrúpulos em ofender alguém que se faça amar a outro que se faça temer: porque o amor é mantido por um vínculo de reconhecimento, mas, como os homens são maus, se aproveitam da primeira ocasião para rompê-lo em benefício próprio, ao passo que o temor é mantido pelo medo da punição, o qual não esmorece nunca." (p. 102)
"Mas o mais importante é abster-se dos bens alheios, pois os homens se esquecem com maior rapidez da morte de um pai que da perda do patrimônio." (p. 103)
"Aquiles e tantos outros príncipes antigos foram deixados aos cuidados do centauro Quíron, que os manteve sob sua disciplina. Isso quer dizer que, tendo por preceptor um ser metade animal e metade homem, um príncipe deve saber usar de ambas as naturezas: e uma sem a outra não produz efeitos duradouros." (p. 105)
"Se todos os homens fossem bons, este preceito não seria bom; mas, como eles são maus e não mantêm a palavra dada ao príncipe, este também não deve mantê-la perante eles." (p. 105)
" Mas é necessário saber camuflar bem essa natureza, ser um grande fingidor e dissimulador; e os homens são tão simplórios e obedientes às necessidades imediatas que aquele que engana sempre encontrará quem se deixe enganar." (p. 105)
"Os homens em geral julgam mais com os olhos que com as mãos; porque todos são capazes de ver, mas poucos, de sentir; todos vêem aquilo que você parece, poucos tocam aquilo que você é." (p. 106)
"(...) pois nunca se deve cair acreditando que haverá quem o levante mais tarde." (p. 130)
"(...) apenas são boas e certas e duradouras as defesas que dependem exclusivamente de você e de sua virtude." (p. 131)
"As únicas guerras justas são as necessárias, e tais armas são piedosas onde não há nenhuma esperança além delas." (p. 135)
 

terça-feira, 26 de junho de 2012

José Rivair Macedo - A Mulher na Idade Média

Imagem: Google Imagens/Reprodução
A Mulher na Idade Média: A Mulher e a família, Realidades sociais e atividades profissionais, Exclusão, preconceito e marginalidade
ISBN: 85-134-61-5
Autor: José Rivair Macedo
Editora: Editora Contexto
Páginas: 108
Gênero: História/História Medieval

Sobre: Este livro utiliza vasto material de consulta, enfoca várias facetas da mulher - esposa, mãe, artesã, comerciante, aristocrata, virgem, dama, bruxa, prostituta, herege, santa e guerreira - e mostra que nem os homens eram tão ativos, nem as mulheres eram tão passivas, como a imagem construída desse período nos faz pensar.

Opinião: O li no fim de Abril para uma atividade da disciplina de História Medieval e gostei apenas por causa do tema, pois Idade Média não é meu forte. Gosto um pouquinho de História Antiga, bastante de Moderna e Brasil, e adoro todo o conjunto de Contemporânea, mas Medieval, pessoalmente, acho um porre haha. Bom, foi minha primeira tentativa de resenha acadêmica e não me saí muito bem, mas valeu muito a experiência e com certeza me sairei melhor nas próximas.

Foto: Maiara Alves

Em A Mulher na Idade Média o historiador José Rivair Macedo desmitifica a noção comum que se tem das mulheres do Ocidente Europeu na Era Medieval. Utilizando vertentes da História Cultural, através das escassas fontes primárias disponíveis, assim como iconografias, o autor descreve os costumes e crenças não apenas das várias mulheres de diferentes grupos sociais da época, mas também dos homens, religiosos e da sociedade em si, baseando-se em aspectos culturais como o cotidiano, representações e imaginário no período da Idade Média (séc. V ao XV).

Com o objetivo de destacar pontos importantes e direcionar linhas de pesquisas atuais sobre as mulheres na Idade Média, esta obra do historiador das sociedades medievais descreve, entre outras coisas, o que a própria sociedade medieval pensava a respeito das mulheres, o quê elas próprias pensavam, como agiam e como foram representadas. Organizado em cinco capítulos divididos por elementos culturais, o livro é satisfatório quanto às argumentações, mostrando a importância da Nova História Cultural ao abordar temas até recentemente pouco explorados; é satisfatório também ao preocupar-se em estratificar a variada gama de mulheres, tentando assim não generalizá-las.

O primeiro capítulo, "Casamento e família", relata a discrepância das várias mulheres no casamento, a partir da posição social e região a qual pertenciam, bem como estruturava-se esse casamento, sua função e posição na família. Algumas mulheres podiam, entre outras coisas, obter o divórcio, porém outras ao mesmo tempo estavam sujeitas ao pai, marido ou "parente homem mais próximo" (p.17). Serviam como mercadorias nas relações familiares e foram usadas como meio de ascensão social dos homens. A Igreja sacramentou o casamento, beneficiando no contexto algumas mulheres para que se evitasse o repúdio dos homens para com elas, porém eram proibidas de sequer demonstrar prazer nas relações sexuais. O autor demonstra como os aspectos considerados negativos - na sociedade atual - sobressaíam-se dos positivos, porém ressaltando que a posição da mulher na família e sua função no casamento não se originaram no período, e que a "desigualdade entre os sexos" (p.14) não foram invenções da Idade Média.

Em "Realidades sociais e atividades profissionais", o segundo capítulo, o autor relata que as mulheres exerceram, hierarquicamente, poder sobre outras mulheres e suas funções laborais de acordo com os grupos sociais  e as localidades que pertenciam. A maioria das mulheres trabalhavam no campo, submissas e ao lado dos maridos. Porém outras, quando necessário, cumpriam decidida e autoritariamente atividades convenientemente reservadas aos homens, pois "precisavam demonstrar autoridade suficiente para evitar a rebeldia dos vassalos e impedir ataques de vizinhos ambiciosos" (p.37), desmitificando então que não foram tão passivas como veicula-se na História Tradicional e nas representações elaboradas pelos homens e pela Igreja. Camponesas, senhoras, domésticas, artesãs, e negociantes são apenas algumas das variadas mulheres que trabalhavam na sociedade medieval, o autor de forma exemplar salienta também que cada mulher tinha suas especificidades em si, e que esses grupos são apenas uma descrição ampla do campo laboral do período.

Além de trabalharem e servirem como mercadoria, houve na Europa Ocidental da Idade Média um grupo de mulheres que, por não seguirem os princípios cristãos, ficaram à margem da sociedade e foram relativamente excluídas, segundo Rivair Macedo, no terceiro capítulo do livro: "As mulheres marginais e excluídas". Neste capítulo, se destaca a coexistência dos princípios cristãos e a "tolerância" nas relações dos "homens de bem" com as mulheres que se prostituíam, o autor desmitifica também a "Caça às Bruxas" que não teria ocorrido na Idade Média, e sim na Idade Moderna, mas que tiveram origem nesse período. Além de atuarem como prostitutas, contraditoriamente existiam [as] mulheres hereges que, nas doutrinas heterodoxas, pregavam a abolição da sexualidade demonstrando o quão complexa, dentro do próprio grupo das mulheres, a sociedade medieval foi.

No quarto capítulo do livro, "Representações e modelos femininos", salienta-se que a forma como as mulheres eram representadas se tratava de idealizações, de como o grupo social masculino dominante desejavam que fossem incutidas a imagem da mulher na sociedade medieval. O autor percebeu quatro modelos: "Eva", "Maria", "A Dama" e a "Mulher ardilosa". Entende-se que para os medievos, "Eva" seria a prova da inferioridade feminina, "Maria" nos poemas, sermões e louvores influenciava ideologicamente no comportamento, na moral; a "Dama" seria a representação de um grupo muito específico de mulheres no imaginário masculino, onde eram usadas para o aperfeiçoamento da oratória dos homens em "disputas" de melhor erudição. Alguns séculos depois, especificamente XIV e XV, a sociedade passa por transformações e a aversão ao feminino torna-se explícita: as mulheres são representadas pejorativamente em resposta à renúncia masculina do casamento sacramental, sendo denominadas de "Mulher ardilosa". Essas representações surtiram efeito e foram perpassadas nos séculos posteriores.

No quinto e último capítulo: "A palavra e a voz das mulheres", mostra-se um lado tradicionalmente pouco conhecido, ou explorado, das mulheres na sociedade medieval: o autor afirma que algumas mulheres tiveram acesso às letras e contribuíram inclusive para os poemas - predominantemente masculinos - trovadorescos, conseguindo até sobreviver de literatura. As mulheres religiosas foram responsáveis pela cristianização dos povos bárbaros e muitas foram canonizadas. Algumas mulheres demonstraram que o sexo feminino podia escrever e "alcançar um lugar de destaque na literatura vernácula de seu tempo" (p.89). Não obstante, outras patrocinavam os escritores, "apadrinhava-os" contribuindo para a cultura cavalheiresca, além de conseguirem "dominar a escrita e penetrar no mundo da criação literária" (p.92) onde seus poemas diferenciavam-se dos poemas trovadores masculinos com maior altivez, por assim dizer, das protagonistas. Poucas mulheres tiveram acesso às letras, obviamente as aristocratas, porém foi importante o autor realçar o singular caso da poetisa italiana Cristina, que não apenas conseguiu sustentar a si e os filhos com a literatura, como também sobressair-se na sociedade denunciando homens e clérigos e de certa forma atuando no campo político. Outro caso singular é o de Joana d'Arc que não só participou de combates e conflitos, como os liderou e foi reconhecida na sociedade medieval em uma atividade, na época, reservada aos homens.

O livro de José Rivair Macedo mostra-se interessante ao utilizar uma abordagem influenciada pela Nova História Cultural na escolha do tema - uma vez que a mulher até então fez parte de um grupo que era minoria na História Tradicional, e a importância em buscar conhecer e explorar as sociabilidades, costumes, crenças e representações dos grupos minoritários. O autor cita outros historiadores com estudos na área como Georges Duby (p.29), Jacques Heers (p.38), Jacques Le Goff (p.47), Danielle Régnier-Bohler (p.89), entre outros, porém seu livro, "A Mulher na Idade Média", contribui apenas como um manual, pois trata-se de uma visão ampla da mulher na Idade Média. Seus argumentos, sustentados pelos documentos e iconografias, de que algumas poucas mulheres atuaram na política, em guerras, obtiveram divórcio, foram alfabetizadas e realizaram atividades consideradas exclusivas do sexo masculino servem como base para uma análise histórica contra teorias misóginas e machistas, assim como as agressões físicas sofrida pelas mulheres de famílias germânicas podem ser utilizadas também para uma análise histórica da violência contra a mulher.

A descrição no livro do cotidiano das mulheres no trabalho, no casamento, na família e na sociedade, pode ser utilizado também como uma análise histórica à outros crimes defendidos pelo Direito das Mulheres da cartilha da ONU, bem como análise histórica das suas representações.


segunda-feira, 2 de abril de 2012

Jean-Jacques Annaud - La Guerre du Feu

Imagem: Google Imagens
La Guerre du Feu
Direção: Jean-Jacques Annaud
Roteiro: Gérard Brach
Ano: 1981/Canadá-França-EUA
Gênero: Aventura
Elenco: Everett McGill, Rae Dayn Chong, Ron Perlman, Nameer El-Kadi, Gary Schwartz, Kurt Schiegl, Frank Olivier Bonnet, Brian Gill

Sinopse: O filme se passa nos tempos pré-históricos, em torno da descoberta do fogo. A tribo Ulam vive em torno de uma fonte natural de fogo. Quando este fogo se extingue, três membros saem em busca de uma nova chama. Depois de vários dias andando e enfrentando animais pré-históricos, eles encontram a tribo Ivakas, que descobriu como fazer fogo. Para que o segredo seja revelado, eles seqüestram uma mulher Ivaka. A crueldade e o rude conhecimento de ambas as tribos vão sendo revelados. O filme foi elogiado por criar ambiente e personagens convincentes, por meio da maquiagem (premiada com Oscar) e da linguagem primitiva (criada por Desmond Morris e Anthony Burgess).

Opinião: Vi este filme pela primeira vez há quatro anos e pela segunda vez no último sábado (31) e continuo achando chato. O filme comete anacronismos e também cometo anacronismo ao achá-lo chato, mas basta vê-lo uma vez pra saber como eram as coisas, pois já que estamos num estágio um pouco melhor (ao menos fisicamente, os valores intrínsecos não mudaram muito não) basta rever coisas ruins uma vez. 

O filme se passa há 80.000 anos, na pré-história (é considerado pré-história todo o período antes da invenção da escrita) quando o homem descobre o fogo e é quase fiel aos fatos ao retratar esse período. As coisas acontecem muito rápido e analisando a História as coisas não aconteceram na seqüência em que foram mostradas. Não havia afeto entre homem e mulher, as relações sexuais eram meramente instintivas (assim como a do início do filme e não como a de Noah e a mulher do outro grupo), eles também não sabiam o que era gravidez e muito menos o amor, logo a relação de Noah e a "mulher" do outro grupo é falsa e não corresponde ao contexto. 

Haviam vários grupos, na época, singulares que desenvolviam hábitos, habilidades e conseqüentemente feições distintas. Eles acabam se encontrando e o primeiro contato com outro grupo não é acolhedor, o filme mostra bem isso  quando os grupos se encontram - principalmente os canibais. Quando o líder do primeiro grupo que nos é mostrado, Noah, é detido pelo grupo da "mulher" - um grupo com uma cultura mais desenvolvida aparentemente sedentária onde já havia rituais, dominação do fogo, preocupação com a reprodução, entre outras coisas - o chefe do grupo imediatamente o examina olhando sua gengiva, dentes e genitália, ou seja, para ver se tem saúde e serventia para reprodução. 

Há também a questão da linguagem que eram apenas grunhidos e o filme é bem verdadeiro nisso, no final o primeiro grupo, o mais "primitivo", depois do contato de alguns com o outro grupo, acaba desenvolvendo de certa forma sua própria linguagem. Bom, tem muito pontos interessantes e pra quem gosta de Humanas há várias questões pra reflexão. Eu gosto de Humanas, mas não gosto de sofrimento nem de reviver coisas ruins (tô no curso errado, eu sei) e não sei não ser anacrônica - principalmente com este filme. Enfim, o filme em si, apesar de alguns escorregões na veracidade dos fatos é ótimo - foi indicado ao Oscar de melhor maquiagem em 1983 -, os atores são ótimos e muito convincentes, o filme inteiro é convincente e dá pra viajar oitenta mil anos
fácil fácil. 

Trailer






* O blogspot tá bugado esses dias, não consigo tirar esse marcador branco que  por sinal apareceu do nada.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

George Orwell - A Revolução dos Bichos

Foto: Maiara Alves
Animal farm: a Fairy Story
Autor(a): George Orwell
Editora (Br): Companhia das Letras
Páginas: 152
Gênero: Literatura Estrangeira/Romance

Sobre: Cansados da exploração a que são submetidos pelos humanos, os animais da Granja do Solar rebelam-se contra seus donos e tomam posse da fazenda, com o objetivo de instituir um sistema cooperativo e igualitário, sob o slogan "Quatro pernas bom, duas pernas ruim". Mas não demora muito para que alguns bichos - em particular os mais inteligentes, os porcos - voltem a usufruir de privilégios, reinstituindo aos poucos um regime de opressão, agora inspirado no lema "Todos os bichos são iguais, mas alguns bichos são mais iguais que outros". A história da insurreição libertária dos animais é reescrita de modo a justificar a nova tirania, e os dissidentes desaparecem ou são licenciados à força. Instrumentalizada na época da Guerra Fria como arma anticomunista, A revolução dos bichos transcende os marcos históricos da ditadura stalinista que a inspirou e resplandece hoje, passados mais de sessenta anos de seu surgimento, como uma das mais extraordinárias fábulas sobre o poder que a literatura já produziu.

Opinião: ...mas já era impossível distinguir quem era homem, quem era porco é, sem dúvida, a frase mais marcante do livro e a que vai ficar pra sempre em minha memória. A Revolução dos Bichos é uma fábula estrategicamente maliciosa e bem escrita, que vai muito além de qualquer preferência política. O autor - talvez "sem querer querendo" - mostra como lidamos com o poder; também as conseqüências da falta de conhecimento e uma cutucada na metodologia positivista.

Trotsky e Stálin à parte, acredito que a obra deve ser analisada, e os leitores devem lê-la, observando o comportamento dos animais mediante as situações pré e pós "revolução", pois Orwell criou um "cosmo" onde há (perdoe-me a simplificação) uma representação quase que universal de uma sociedade de, pelo menos, uma metrópole - da época aos dias de hoje, talvez até atemporal ouso dizer. Napoleão sucumbe às sensações prazerosas que o poder proporciona e passa agir tal, ou pior, seu inimigo indo contra seus próprios ideais e princípios. Os animais são manipulados pela falta de interesse em conhecer seus direitos e assim, conseqüentemente, os porcos conseguem manipulá-los. Exatamente como acontece conosco...

Não sei se talvez pela "preferência política", por assim dizer, o autor critique veemente a metodologia positivista. Pelo menos A Revolução dos Bichos e 1984, as duas únicas obras que li do autor (ainda não terminei 1984) a "cutucada" está presente na manipulação dos documentos "achados" por Napoleão que comprovam a suposta e descabida traição e as armações de Bola-de-Neve. Em suma, é claro que o livro pode ser lido sob outra óticas diferentes, mas é interessante demais pra se restringir à política, mesmo porque até esse ponto de vista é tendencioso, já que a idéia do autor não era exatamente esta... enfim, muitas questões que podem gerar boas discussões e talvez até novas perspectivas.



Quotes

Então, camaradas, qual é a natureza desta nossa vida? Enfrentemos a realidade: nossa vida é miserável, trabalhosa e curta. Nascemos, recebemos o mínimo alimento necessário para continuar respirando, e os que podem trabalhar são exigidos até a última parcela de suas forças; no instante em que nossa utilidade acaba, trucidam-nos com hedionda crueldade. Nenhum animal na Inglaterra sabe o que é felicidade ou lazer após completar um ano de vida. Nenhum animal na Inglaterra é livre. A vida do animal é feita de miséria e escravidão: essa é a verdade nua e crua.
(pág 12)

Lembrai-vos também de que na luta contra o Homem não devemos ser como ele. Mesmo quando o tenhais derrotado, evitai-lhe os vícios...Todos os hábitos do Homem são maus. E principalmente, jamais um animal deverá tiranizar outros animais. Fortes ou fracos, espertos ou simplórios, somos todos irmãos. Todos os animais são iguais.
(pág 15)


"Camarada", explicou Bola-de-Neve, "essas fitas que você tanto estima são o distintivo da servidão. Não vê que a liberdade vale mais que laços de fita?"

(pág 20)

A asa de uma ave, camaradas, é órgão de propulsão, e não de manipulação. Deveria ser vista mais como uma perna. O que distingue o Homem é a mão, o instrumento com que ele perpetra toda a sua maldade.

(pág 32)

Não sabiam o que era mais chocante, se a traição dos animais que se haviam acumpliciado com Bola-deNeve ou a cruel repressão ali presenciada. Nos velhos tempos, eram frequentes as cenas de sangue, igualmente horripilantes, entretanto agora lhes pareciam ainda piores, uma vez que ocorriam entre eles mesmos. Desde que Jones deixara a fazenda até aquele dia, nenhum animal matara outro animal.

(pág 71)

As criaturas de fora olhavam de um porco para um homem, de um homem para um porco e de um porco para um homem outra vez; mas já era impossível distinguir quem era homem, quem era porco.

(pág 112)

domingo, 21 de agosto de 2011

A Biblioteca de Alexandria

Sou totalmente apaixonada pelo Egito, desde costumes aos mistérios das pirâmides. Foi uma das civilizações mais importantes do mundo que "deixou como legado a invenção da moeda, calendário agrícola, arado, escrita hieróglifica e a fabricação do papiro. Seu esplendor manifestou-se em gigantescos templos e pirâmides e revelou-se na filosofia, na arte e nas ciências ¹ ." O primeiro centro de pesquisas de que se tem notícia (nem a História possui uma verdade absoluta) localizava-se no Egito, na lendária cidade fundada pelo também lendário Alexandre Magno, the great.

Alexandria foi uma das cidades mais importantes da Antigüidade e do mundo, no meu ponto de vista, por seu importante acervo de papiros contendo pesquisas e preciosas informações sobre astronomia, física e medicina, pra um amante de livros essa cidade é o paraíso. Encontrei esse vídeo superinteressante no Youtube que fala um pouco da biblioteca mais importante do mundo.






Queria poder viajar no tempo *sniff*.

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