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sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

João José Reis, Flávio dos Santos Gomes e Marcus J. M. de Carvalho - O Alufá Rufino: tráfico, escravidão e liberdade no Atlântico Negro (c. 1822 - c.1853)

Foto: Maiara Alves



O Alufá Rufino: Tráfico, Escravidão e Liberdade no Atlântico Negro (c. 1822 - c.1853)
ISBN: 9788535917369
Autor(es): João José Reis, Flávio dos Santos Gomes e Marcus J. M. de Carvalho
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 520
Gênero: História do Brasil/Escravidão e Liberdade


Sobre: Nascido no antigo reino africano de Oyó, escravizado na adolescência por um grupo étnico rival, adquirido por traficantes brasileiros e levado para Salvador da Bahia, o protagonista destas fascinantes páginas da história do Brasil teve sua biografia dividida pelo oceano. A vida de Rufino José Maria foi plena de aventuras e desventuras. Após conseguir sua alforria, foi cozinheiro assalariado de navios negreiros e, na maturidade, tornou-se alufá, espécie de guia espiritual da comunidade de negros muçulmanos no Recife. O livro demonstra como o tráfico e a escravidão moldaram de modo decisivo este personagem e o mundo em que ele viveu.

Opinião: Um dos livros de Escravidão e Liberdade e História do Brasil mais fascinantes da nossa historiografia e uma das poucas produções bibliográficas que conseguem enaltecer de uma forma brilhante seu conteúdo. Tráfico e escravidão não são meu forte, na verdade não tenho condições emocionais alguma de estudar qualquer tipo de escravidão, principalmente a moderna, mas devido ao nosso ilustre historiador baiano, João José Reis, ainda lerei muitos livros sobre o tema - mesmo porque é necessário compreender essa passagem da nossa história. A forma como os autores contam o tráfico e a escravidão na primeira metade do XIX é incrível: a partir de resquícios de documentos que mostram os itinerários de um ex-escravo nagô que integra o comércio transatlântico de escravos, os autores investigam como se dava o tráfico no XIX, quando o governo inglês reprimia de todas as formas o tráfico e, consequentemente, a escravidão. Vemos também o relato incrível de uma empresa de tráfico ilegal de escravos, que burlava a vigilância e leis dos governos do Brasil e Inglaterra. A micro-história é uma das abordagens mais fascinantes e bem elaborada para se escrever história: é uma linguagem cinematográfica da escrita.

Publicado em 2010 pela Companhia das Letras, a biografia de Rufino e os relatos do tráfico, escravidão e liberdade na primeira metade do séc. XIX, foi escrita por três pesquisadores especialistas no assunto: João José Reis, Flávio dos Santos Gomes e Marcus J. M. de Carvalho que pesquisam o tema, especificamente, na Bahia, Rio de Janeiro e Recife, respectivamente - locais no qual Rufino deixou sua marca. O livro foi escrito sob a perspectiva da micro-história, uma abordagem que, a partir de um personagem ou um objeto específico, relata-se além de sua particularidade, o contexto sócio-histórico em que está incluso. É como se, a partir de uma garrafa/lata de coca-cola, além de contar a história de sua criação e "evolução", pode-se relatar também o imperialismo estadunidense, a crise de 1929, primeira e segunda guerras mundiais, guerra fria e parte da história econômica e ideológica do séc. XX, na qual a marca de refrigerante está inserida. O livro é dividido em três partes, onde a partir da saída de Rufino do Benim, na África (entre 1822-23), até sua estadia no Recife (1853), ou seja, aproximadamente 31 (trinta e um) anos dos itinerários de Rufino e do comércio transatlântico de escravos. 

Na primeira parte do livro, os autores relatam a saída de Rufino do Benim, no continente africano, sua chegada à Bahia durante as lutas pela Independência em 1822-23, sua ida para Porto Alegre onde é alforriado, assim como sua tentativa falha de estabelecer-se no Rio de Janeiro, onde se vê obrigado a integrar o tráfico negreiro como alternativa de fugir da repressão na província do Rio de Janeiro à escravos e ex-escravos nagôs. A segunda parte é a mais interessante e fascinante do livro, pois a partir dos itinerários de Rufino, os autores encontram peças de um enorme quebra-cabeça onde está registrada a existência de verdadeiras empresas de tráfico de escravos em plena luta jurídica e "bélica" inglesa pelo fim da escravidão. Após chegar ao Brasil como escravo, ser alforriado, trabalhar no tráfico de escravos entre o Brasil e a costa leste da África como comerciante e cozinheiro nas embarcações, Rufino retorna ao Brasil passando a atuar como Alufá, um guia espiritual do "afro-islamismo-brasileiro" em Recife, na terceira parte do livro. Fiz um resumo bem medíocre, obviamente o livro é muito mais grandioso no qual, a partir da minuciosa investigação dos historiadores, descobrimos o subterrâneo das relações sócio-econômicas que envolvia o Brasil, os países da costa leste africana e o tráfico transatlântico de escravos e comércio de especiarias. 

A obra é a ilustração do quão importante e fascinante é o trabalho do historiador. A partir dos relatos do interrogatório do apresamento da embarcação Ermelinda e das duas prisões de Rufino, os autores têm suas primeiras peças da vida de Rufino após sua chegada no Brasil e o comércio de escravos e especiarias dentro destes trinta e um anos. É um trabalho de investigação, uma peça aqui e ali, na qual com muita dedicação tenta-se reconstruir o mais fidedignamente possível uma das mais importantes páginas da história do Brasil e da África. O quebra-cabeças ainda tem muitos vácuos, mais vácuos do que peças completas, porém este trabalho é uma forma de incitar novos pesquisadores de tráfico negreiro, assim como mais abordagens utilizando a micro-história. Gostei mais que tudo desta última parte, da estrutura que os autores utilizaram para relatar suas investigações, me inspirou, na verdade a buscar sempre mais e mais fontes, mais leituras, etc. Sublinhei poucas passagens, pois o li para apresentar um seminário e não como costumo ler. 

Quotes

A década de 1820, sobretudo sua segunda metade, foi o momento de mais alto pico do tráfico para a Bahia no século XIX. (p. 35)
Como podes negar um amor quando dão testemunho dele contra ti provas irrefutáveis de lágrimas e esgotamento? O amor apaixonado lavrou duas linhas com pranto e moléstia. Sim, visitou-me à noite o fantasma daquela que amo e me deixou insone. O amor mescla prazeres com dor. (p. 58-59)  
O cozinheiro de um navio negreiro, em suma, era um dos principais responsáveis - talvez mais do que o cirurgião, quando existia um abordo - pela manutenção da taxa de sobrevivência dos cativos dentro de margens aceitáveis de lucro. (p. 102) 

Eu Vou Ler...

Foto: Maiara Alves

  1. Eric J. Hobsbawn - A Era do Capital (1848 - 1875) 
  2. Eric J. Hobsbawn - A Era dos Impérios (1875 - 1914)
  3. Luís Henrique Dias Tavares - História da Bahia 
Mais leitura para as férias. Era do Capital e Era dos Impérios, e pra completar a coleção só falta agora Era das Revoluções que, provavelmente, estarei lendo em pdf por causa de Hist. Contemporânea - uma das minhas próximas disciplinas. Ganhei do meu namorado História da Bahia, um resumão, na verdade, que abarca desde a conquista dos europeus até os dias atuais. Bom, muita coisa nessas férias. Nessas duas últimas semanas de dezembro vou tentar escrever sobre os livros que li e transcrever algumas avaliações que acho importante registrar aqui no blog.

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Eu Vou Ler...

Foto: Maiara Alves
  1. Carlos Drummond de Andrade - Sentimentos do Mundo
  2. Mary Del Priore - Histórias Íntimas: sexualidade e erotismo na história do Brasil
  3. Caio Prado Jr - Formação do Brasil Contemporâneo
Presentes do meu namorado para ler nas férias  (ou não, pretendo devorar o primeiro e o segundo ainda essa semana rs), todos os três já estava de olho há algum tempo. Sentimento do Mundo, da Companhia de Bolso, tem uma diagramação linda e tenho certeza que seu conteúdo é tao lindo quanto - e ainda uma foto linda do Drummond na capa. Histórias Íntimas é a história do jeito que eu gosto: a verdade nua e crua da vida privada demostrando que as coisas e o mundo sempre foram horríveis; mas nesse caso, o livro, é uma boa distração e uma forma de aprender histórias para contar para meus futuros alunos. Formação do Brasil Contemporâneo, assim como Raízes do Brasil e Casa-Grande e Senzala, são livros essenciais na estante de um historiador, mas além disso o quis por ser, antes de tudo, uma análise do Brasil sob a perspectiva marxista - da qual simpatizo muito.

sábado, 3 de novembro de 2012

Eu Vou Ler...

Foto: Maiara Alves
  1. Friedrich Nietzsche - Ecce Homo
  2. Erasmo de Roterdã - Elogio da Loucura
Saraiva de Bolso: a melhor forma de estudantes poderem adquirir clássicos! O primeiro, a autobiografia do filósofo mais pop atualmente; o segundo, um best-seller da literatura do século XVI. Li uma pequena biografia feita por um jornalista e sempre quis ler um livro de Nietzsche pra entender porque ele é tão cultuado, Assim Falou Zaratustra já passou diversas vezes pela minha mão e chegou a ir até a fila do caixa, mas desisti duas vezes e acabou ficando por lá mesmo. Sou apaixonada pela Idade Moderna, pelo Renascimento desde a 6ª série, acho o Humanismo inspirador e todas as produções literárias da época incríveis, Elogio da Loucura foi muito citado nos meus textos das aulas de Moderna e, como sempre, fiquei curiosíssima pra lê-lo.

domingo, 21 de outubro de 2012

Eu Vou Ler...

Foto: Maiara Alves
  1. Kátia Lorena Novais Almeida - Alforrias em Rio de Contas - Bahia - Século XIX
  2. Enoque Oliveira - Sarandita e outros contos históricos sobre a beleza e a luta na Guerra de Canudos
Livros novos, mas tempo pra lê-los não tenho. No último dia 10, a profª Ma. Kátia Almeida esteve lá na faculdade palestrando e divulgando sua dissertação de mestrado "Alforrias em Rio de Contas - Bahia - Século XIX", que foi transformada em livro pela Edufba, no ciclo de palestras Problematizando a História: debate com mestres e doutores realizado pela Coordenação do Curso de História da Unijorge; apesar de ter Escravidão, tema que não sou muito fã, tem Sertão e tô ansiosa pra ler (nas férias, provavelmente). Sou suspeita pra falar de "Sarandita", comecei a folhear e tive contato (e uma dedicatória linda) com o profº Enoque no Sertão de Canudos no Movimento Histórico e Popular de Canudos deste ano e fiquei mais maravilhada e mais segura quanto ao tema da minha pesquisa.
 
Bom, agora falta tempo...

domingo, 7 de outubro de 2012

Eu Vou Ler...

Foto: Maiara Alves
  1. E. L. James - Cinquenta Tons de Cinza
  2. Eric Hobsbawn - Era dos Extremos
Primeiros dois livros da minha biblioteca em conjunto com meu namorado, Matheus B. Na semana em que Hobsbawn parte pra pensar no mundo espiritual, meu professor preferido nos diz que está vendendo a quadrilogia mais famosa da historiografia universal e decidimos comprá-la, porém dois dias depois ele descobre que a ex-empregada roubou alguns de seus livros e entre eles estava os três primeiros da série: "Era das Revoluções", "Era do Capital" e "Era dos Impérios"; então, o que nos restou foi "Era dos Extremos". Bom, quanto ao famigerado "Cinquenta tons de cinza" estamos com sérias dificuldades de concentração e ainda não passamos da primeira página, mas a expectativa é grande.

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Eu Vou Ler...

Foto: Maiara Alves
  1. Erivaldo Fagundes Neves (org) e Antonieta Miguel (org) - Caminhos do Sertão: Ocupação territorial, sistema viário e intercâmbios coloniais dos Sertões da Bahia
  2.  João José Reis, Flávio dos Santos Gomes e Marcus J. M de Carvalho - O Alufá Rufino: Tráfico, escravidão e liberdade no Atlântico Negro (c.1822 - c.1823)
  3. Erivaldo Fagundes Neves (org) - Sertões da Bahia: Formação social, desenvolvimento econômico, evolução política e diversidade cultural
A carga de leitura do curso aumenta a cada semestre e a cada semestre sinto que todo o tempo do mundo não é suficiente pra ler tudo que necessito. Inicialmente, meu tema de pesquisa seria alguma coisa relacionada com o Cinema Novo, mas o Sertão em si me emociona muito mais que os baianos e cariocas que apenas mostraram para nossa sociedade, na metade do século passado, o verdadeiro Brasil e os verdadeiros brasileiros. Bom, como ainda não decidi especificamente meu tema, resolvi começar com Sertões da Bahia, livro organizado pelo sertanista Erivaldo Fagundes Neves que aborda o tema desde a colônia até os dias atuais. Acabei encontrando, também do autor, Caminhos do Sertão e acabei comprando também. O Alufá Rufino, de João José Reis, Marcus J.M. de Carvalho e Flávio dos Santos Gomes  tenho que ler, resenhar e apresentar para um seminário da disciplina de Historiografia.

O irônico é que no início do curso reclamava que não tinha tempo para os meus livros (J. R. Ward, Rick Riordan, Scott Westerfeld...) e hoje só freqüento, quase que exclusivamente, as prateleiras de História das livrarias e bibliotecas.                 

domingo, 12 de agosto de 2012

Euclides da Cunha - Os Sertões

Foto: Maiara Alves
Os Sertões
ISBN: 9788520925966
Autor: Euclides da Cunha
Editora: Nova Fronteira/Saraiva de Bolso
Páginas: 598
Gênero: História/Geografia

Sobre: Em estilo épico, Euclides da Cunha criou uma das obras-primas da literatura brasileira, descrevendo as batalhas entre os homens liderados pelo beato Antônio Conselheiro e as tropas do governo. Euclides, testemunha ocular da chamada Campanha de Canudos, narra a luta, observa a terra e analisa o homem num belo relato que destaca a determinação do sertanejo e busca compreender o fenômeno da liderança exercida por Conselheiro sobre milhares de pessoas.

Opinião: O ano é 1987. O carioca Euclides da Cunha é enviado pelo jornal paulista, O Estado de São Paulo, para acompanhar o conflito de Canudos, aqui na Bahia. O engenheiro, jornalista, professor, ensaísta, historiador, sociólogo e poeta talvez não soubesse que esse trabalho resultaria em um dos melhores livros da literatura brasileira e que marcaria seu nome para sempre na História do Brasil. Este fato ilustra a noção que defendo com vigor: nada é por acaso. Mas acima de tudo, Os Sertões apresentou ao Brasil o sertanejo, o homem que foi guardado pela condição de seu meio, pela natureza, e que representa a verdadeira nacionalidade brasileira.

Dividido em oito capítulos ("A terra"; "O homem"; "A luta"; "Travessia do Cambaio"; "Expedição de Moreira César"; "Quarta expedição"; "Nova fase da luta"; "Últimos dias"), Cunha descreve não só a Campanha de Canudos, como também a terra e o homem que o centro político-econômico do Brasil recém inaugurada República ignorava até então. É um registro das consequências que o golpe republicano causou nos grupos sociais, onde a nova situação do país apenas agravaram-lhe o sofrimento causado pela situação climática. Entre outras coisas, é também uma aula de português: a escrita de Euclides da Cunha é impecável e, para o leitor atual, rende uma quantidade vergonhosa de consultas ao dicionário. Há inúmeras discussões e análises ao longo dos cento e doze anos em que o livro foi para as prateleiras de livrarias e bibliotecas (e para as nossas), cada qual de acordo com o assunto em pauta do momento, a política vigente e a orientação e interesse político-ideológico de quem o analisa. Destaco, obviamente, o segundo capítulo, "o Homem", no qual Cunha descreve as interferências do clima, da terra, da situação política, da colonização e povoamento e do sertão em si, no homem que habita esta terra inóspita.

O sertanejo é, antes de tudo, um forte (p. 118). É uma das citações mais famosas e tem sido muito utilizada este ano por conta do centenário de nascimento de Luiz Gonzaga. Mas há cento e dez anos, Euclides da Cunha, a partir da observação do genocídio ocorrido em Canudos, assim descreveu o homem que sobrevivia [nos] dias claros e quentes, dos firmamentos fulgurantes, do vivo ondular dos ares em fogo sobre a terra nua (p. 139) esquecido desde o início por seus governantes e pelo resto do mundo. Esquecido pois, desde seu povoamento ainda no século XVI, o local que atualmente denominamos de sertão, foi utilizado e "povoado" com o objetivo de expandir a criação de gado que alimentaria a população do litoral e que tinha grande serventia no cultivo da cana-de-açúcar. Sabemos que nosso país não foi descoberto e que haviam povos em todo o continente com cultura e modo de vida próprios, e para a criação de gado, assim como no litoral para o cultivo da cana-de-açúcar no século XVI e XVII, milhões desses povos foram cruelmente assassinados por causa da acumulação de capital que enriqueceu a metrópole e seus aliados e que nos empobreceu e resultou nessa vida miserável. Dois séculos depois, Euclides da Cunha documenta em Os Sertões o modo de vida do homem resultado da miscigenação entre os povos originários (os "índios), o africano que criou o gado e cultivou a cana e o colonizador: o sertanejo é consequência da mistura entre o algoz, a vítima e fruto da natureza cruel.

Assim como os povos originários (os "índios") foram assassinados nos séc. XVI e XVII no povoamento do interior do país, do sertão, os sertanejos que sofriam com a seca e com o esquecimento das instituições governamentais, e decidiram seguir aquele que lhes profetizava um país melhor, Antônio Conselheiro, também foram dizimados no fim do séc. XIX em prol dos interesses daqueles que deveriam lhe proteger, em prol do Estado. As coisas realmente não mudam, permanecem de fato com pouca diferença. Além de descrever a miscigenação do sertanejo, ainda nos moldes do darwinismo social, Cunha observou que esse povo é antes de tudo, forte, pois em meio ao abandono, a agressividade do meio ele resiste e luta bravamente até seu limite. A descrição do homem e da terra é apaixonante, não tem nada de pomposo - e se assim parece, considero que o esmero é por afeição específica à este trabalho.

É um clássico, nem se eu passasse o resto da vida lendo e escrevendo sobre essa obra de Cunha e sobre o próprio autor não conseguiria fazer uma análise satisfatória de ambos, mas o recomendaria sobretudo àqueles que tem curiosidade sobre a formação da nacionalidade brasileira e pra desconstruir a colonização cultural da qual somos vítimas. O sertão é apaixonante, os sertanejos são a essência do nosso povo e espero que um dia todos percebam a importância e dêem o merecido valor à eles.

Quotes
Delinearam-nos os que se afoitaram primeiro com as vicissitudes de uma entrada naquelas bandas. E persistem indestrutíveis, porque o sertanejo, por mais escoteiro que siga, jamais deixa de levar uma pedra que calce as suas junturas vacilantes. (p. 29)
Nem um verme - o mais vulgar dos trágicos analistas da matéria - lhe maculara os tecidos. (p. 43)
Ao passo que a caatinga o afoga; abrevia-lhe o olhar; agride-o e estoneia-o; enlaça-o na trama espinescente e não o trai; repulsa-o com as folhas urticantes, com o espinho, com os gravetos estalados em lanças; e desdobrase-lhe na frente léguas e léguas, imutável no aspecto isolado: árvores sem folhas, de galhos estorcidos e secos, revoltos, entrecruzados, apontando rijamente no espaço ou estirando-se flexuosos pelo solo, lembrando um bracejar imenso, de tortura, da flora agonizante... (p. 50)
É a árvore sagrada do sertão. Sócia fiel das rápidas horas felizes e longos dias amargos dos vaqueiros. Representa o mais frisante exemplo de adaptação da flora sertaneja. (p. 57-58)
E o sertão é um paraíso... (p. 59)
E o sertão é um vale fértil. É um pomar vastíssimo, sem dono. (p.62)
Vinham esparsas, parceladas em pequenas levas de degregados ou colonos contrafeitos, sem o desempenho viril dos conquistadores. (p. 95)
O meio atraía-os e guardava-os. (p. 105)
O sertanejo é, antes de tudo, um forte. Não tem o raquitismo exaustivo dos mestiços neurastênicos do litoral. (p. 118)
A luta pela vida não lhe assume o caráter selvagem da dos sertões do Norte. Não conhece os horrores da seca e os combates cruentos com a terra árida e exsicada. Não o entristecem as cenas periódicas da devastação e da miséria, o quadro assombrador da absoluta pobreza do solo calcinado, exaurido pela adustão dos sóis bravios do equador. Não tem, no meio das horas tranquilas da felicidade, a preocupação do futuro, que é sempre uma ameaça, tornando aquela instável e fugitiva. Desperta para a vida amando a natureza deslumbrante que o aviventa; e passa pela vida, aventureiro, jovial, diserto, valente e fanfarrão, despreocupado, tendo o trabalho como uma diversão que lhe permite as disparadas, domando distâncias, nas pastagens planas, tendo aos ombros, palpitando aos ventos, o pala inseparável, como uma flâmula festivamente desdobrada. (p. 121)
Atravessou a mocidade numa intercadência de catástrofes. Fez-se homem, quase sem ter sido criança. Salteou-o, logo, intercalando-lhe agruras nas horas festivas da infância, o espantalho das secas do sertão. Cedo encarou a existência pela sua face tormentosa. É um condenado à vida. Compreendeu-se envolvido em combate sem tréguas, exigindo-lhe imperiosamente a convergência de todas as energias. Fez-se forte, esperto, resignado e prático. Aprestou-se, cedo, para a luta.  (p. 122)
A terra é o exílio insuportável, o morto um bem-aventurado sempre. (p. 145)
Espécie de grande homem pelo avesso, Antônio Conselheiro reunia no misticismo doentio todos os erros e superstições que formam o coeficiente de redução da nossa nacionalidade. (p. 177-178)
Ao passo que as caatingas são um aliado incorruptível do sertanejo em revolta. Entram também de certo modo na luta. Armam-se para o combate; agridem. Trançam-se, impenetráveis, ante o forasteiro, mas abrem-se em trilhas multívias, para o matuto que ali nasceu e cresceu. E o jagunço faz-se o guerrilheiro-tugue, intangível... As caatingas não o escondem apenas, amparam-no. (p. 234)
O exército sente na própria força a própria fraqueza. (p. 238)
Cercam-lhe relações antigas. Todas aquelas árvores são para ele velhas companheiras. Conhece-as todas. Nasceram juntos; cresceram irmãmente; cresceram através das mesmas dificuldades, lutando com as mesmas agruras, sócios dos mesmos dias remansados. (p. 239)
Quase sempre, depois de expugnar a casa, o soldado faminto não se forrava à ânsia de almoçar, afinal, em Canudos. Esquadrinhava os jiraus suspensos. Ali estavam carnes secas ao Sol; cuias cheias de paçoca, a farinha de guerra do sertanejo; aiós repletos de ouricuris saborosos. (p. 322)
A correria do sertão entrava arrebatadamente pela civilização adentro. E a guerra de Canudos era, por bem dizer, sintomática apenas. O mal era maior. Não se confinara num recanto da Bahia. Alastrara-se. Rompia nas capitais do litoral. O homem do sertão, encourado e bruto, tinha parceiros por ventura mais perigosos. (p. 346)
E os infelizes baleados, mutilados, estropiados, abatidos de febres, começaram a viver da esmola incerta dos próprios companheiros...  (p. 417)
E sobre tudo aquilo uma monotonia acabrunhadora... A sucessão invariável das mesmas cenas no mesmo cenário pobre, despontando às mesmas horas com a mesma forma, davam aos lutadores exaustos a impressão indefinível de uma imobilidade no tempo. (p. 423)
Há nas sociedades retrocessos atávicos notáveis; e entre nós os dias revoltos da República tinham imprimido , sobretudo na mocidade militar, um lirismo patriótico que lhe desequilibrara todo o estado emocional, desvairando-a e arrebatando-a em idealizações de iluminados. A luta pela República, e contra seus imaginários inimigos, era uma cruzada. Os modernos templários se não envergavam a armadura debaixo do hábito e não levavam a cruz aberta nos copos da espada, combatiam com a mesma fé inamolgável. (p. 446)
Torturavam-nos alucinações cruéis. A deiscência das vagens das caatingueiras, abrindo-se com estalidos secos e fortes, soava-lhes feito percussão de gatilhos ou estalhos de espoleta, dando a ilusão de súbitas descargas de alguma algara noturna repentina (...). (p. 460)

domingo, 29 de julho de 2012

Leandro Narloch e Duda Teixeira - Guia Politicamente Incorreto da América Latina

Foto: Maiara Alves
Guia Politicamente Incorreto da América Latina
ISBN: 9788580441055
Autor: Leandro Narloch e Duda Teixeira
Editora: LeYa
Páginas: 320
Gênero: História

Sobre: Tudo neste livro é contra as regras batidas com as quais se conta a história da América Latina. Não nos sentimos representados por guerrilheiros ou por indignados líderes andinos e suas roupas coloridas. Não há aqui destaque para veias abertas do continente, mas para feridas devidamente tratadas e curadas com a ajuda de grandes potências. Conhecemos bem as tragédias que nossos antepassados índios e negros sofreram - mas, honestamente, estamos cansados de falar sobre elas. E acreditamos que todos os povos passaram por desgraças semelhantes, inclusive aqueles que muitos de nós adoramos acusar.

Opinião: Sabe quando você espera algo de um livro e ele te desaponta totalmente? Guia Politicamente Incorreto da América Latina apesar de ter uma boa capa, um título interessante e ser bonito esteticamente é uma grande porcaria por caluniar alguns dos principais personagens históricos da América Latina. Senti nojo, na verdade, por ter sido escrito por dois brasileiros, e o pior é que não posso culpá-los de serem jornalistas - uma vez que estes são péssimos escrevendo história -, pois o livro que eles criticam constantemente, As Veias Abertas da América Latina, foi escrito por um grande jornalista, Eduardo Galeano. 

Os autores escolheram os principais personagens históricos desde a América pré-Colombiana, com os nativos Astecas, Incas e Maias, e seguiram até os dias atuais, com o ex-presidente do Chile, Salvador Allende (e as inúmeras referências tendenciosas à Hugo Chávez). Ao todo, as vítimas são: os Astecas, Incas, Maias, Simón Bolívar, os Revolucionários Haitianos, Perón, Evita, Pancho Villa, Salvador Allende e Che Guevara - este último é o foco dos autores que prepararam um verdadeiro dossiê com todos os supostos comportamentos que contradizem tudo aquilo pelo que o argentino lutou e o que sua imagem hoje representa. Mas o que esses personagens têm em comum que incomodaram tanto esses dois jornalistas a ponto de escreverem um livro caluniando-os? Bom, além de todos eles terem lutado em favor do território político no qual estamos incluídos - a América Latina - em prol de uma sociedade igualitária, ambos são jornalistas da Veja. Pois é. 

Analisando superficialmente, todas estas figuras históricas buscaram defender bélica, política e ideologicamente a América Latina da colonização espanhola, do imperialismo britânico e estadunidense, e dos demais países que, ao longo de cinco séculos, sugam e sugaram nossas riquezas materias, mão-de-obra e nossa gente no sentido ideológico. Estes personagens não foram santos, mas os autores, baseando-se em biografias tendenciosas, enaltecem os erros e qualquer brecha em seus intinerários que permitem tais afirmações. Como disse, ambos os autores trabalham/trabalharam ou possuem vínculos com a Veja: fato que pode ser considerado como metade da resposta. A outra metade está nas fontes. Para escrever história é necessário analisar todas as fontes sobre determinado evento/processo/pessoa, todas as fontes documentais mesmo. Por isso, os livros sérios de história retratam apenas um "curto" período, geralmente 20/30 anos ou até 100. Se a análise de todas as fontes do período relatado não acontecer, entre outras coisas, corremos o risco de sermos imparciais e conseqüentemente de escondermos determinadas informações. O Guia Politicamente Incorreto da América Latina além de ser extremamente tendencioso, é muito simplório e ridículo ao utilizar biografias também tendenciosas para escrever sobre os homens e mulheres que tentaram defender a América Latina, território tão marginalizado e explorado.

Ao escrever história, além de termos de nos preocupar em ler todas as fontes, buscar a imparcialidade e reconstituí-la o mais fidedignamente possível ainda temos de lidar com a problemática da manipulação da memória. Em História e Memória, o historiador medievalista francês Jacques Le Goff relata que os documentos que usamos como fontes, suas informações, não são inocentes: são manipulados em favor dos grupos sociais dominantes. Acho que já me fiz entender. O Guia Politicamente Incorreto da América Latina foi escrito para exaltar o imperialismo e a exploração do território no qual estamos inclusos, com o objetivo de escancaradamente caluniar os homens e mulheres que pelo menos tentaram defender esta terra da inescrupulosidade do capitalismo, dos homens "liberais" a fim de atender aos interesses dos grupos dominantes, como sempre!

Deste aglomerado de palavras que não dizem coisa com coisa, aprendemos que é preciso buscar o máximo de informação possível  e não nos contentarmos com aquilo que está escrito. Precisamos questionar e desconfiar de tudo! De tudo meeesmo. Quanto a América Latina, ou qualquer livro sobre a história de qualquer continente/território/político, ou qualquer outra coisa relacionada à história, recomendo livros de historiadores, e mesmo assim de historiadores de diversas orientações políticas/ideológicas, por favor desconfiem do que nós dizemos também.


As pérolas/piadas Quotes
Che Guevara, ídolo dos jovens rebeldes e pacifistas, não só considerava o ódio um sentimento nobre como agiu para que houvesse uma guerra nuclear na América. (p.48)
No bom, velho e tão criticado capitalismo democrático, as pessoas estão livres para fazer da vida o que acharem melhor, inclusive errar. (p. 72)
Que democracia? Que liberdade? E a escravidão ideológica? Que mer#@!
Ainda hoje, a narrativa dos cruéis conquistadores alimenta discursos indignados, emociona e revolta o público no cinema. E elege presidentes. (p. 84)
A julgar pela ditadura que a Venezuela se tornou nos últimos dez anos, é razoável acreditar que, sim, Simón Bolívar, senta ali todos os dias. Mais vivo do que nunca, dá seguidos conselhos catastróficos a Hugo Chávez. (p. 150)
Preocupado em moldar a mente da população, o peronismo também alterou os livros didáticos. (p. 215)
E vocês alterando a história kkkkk.
 

quinta-feira, 26 de julho de 2012

George Orwell - 1984

Foto: Maiara Alves
1984
ISBN: 9788535914849
Autor: George Orwell
Tradução: Alexandre Hubner e Heloisa Jahn
Editora (Br): Companhia das Letras
Páginas: 414
Gênero: Literatura Estrangeira/Romance

Sobre: 1984 é uma das obras mais influentes do século XX, um inquestionável clássico moderno. Publicado em 1949, quando o ano de 1984 pertencia a um futuro relativamente distante, tem como herói o angustiado Winston Smith, refém de um mundo feito de opressão absoluta. Em Oceânia, ter uma mente livre é considerado crime gravíssimo, pois o Grande Irmão (Big Brother), líder simbólico do Partido que controla a tudo e todos, "está de olho em você." No íntimo, porém, Winston se rebela contra a sociedade totalitária na qual vive: em seu anseio por verdade e liberdade, ele arrisca a vida ao se envolver amorosamente com uma colega de trabalho, Júlia, e com uma organização revolucionária secreta.

Opinião: Foi um dos livros mais incríveis que já li até hoje e sabia que me marcaria mesmo antes de lê-lo. Por ser publicado originalmente em 1949, 1984, do britânico Eric Arthur Blair (nome original de Orwell), parecia um futuro distante, ficção de fato. Mas poucos livros retrataram tão bem e tão fidedignamente a nossa sociedade. 1984 é os anos 1920, 1930, 1940, 1950, 1960, 1970, 1980, 1990, 2000 e, infelizmente, ainda, os anos 2010 no sentido político-ideológico. Orwell pensou, especificamente, o pós-guerra e o início da Guerra Fria, ainda não cheguei lá (acabei de sair da Idade Média), mas no geral podemos dizer que o livro retrata todo o século XX e início do XXI (ou não).

A década de 1940 foi um momento de grande turbulência na Europa, África e América - na Ásia também, é claro - e para expressar, com todas as limitações em que os grandes pensadores são submetidos, George Orwell criou um mundo para ilustrar esse mundo de conflitos bélicos, políticos e ideológicos que vivenciou. Como disse, ainda não cheguei em Contemporânea, muito menos Hist. do Tempo Presente, por isso não posso comentar com propriedade sobre o que Orwell ou Goldstein escreveu sobre a I e II Guerras Mundiais e todos os outros eventos que as antecederam e sucederam, mas pelo meu limitadíssimo conhecimento deu pra perceber alguns pontos interessantes.

O livro é dividido em três partes. Na primeira, Winston nos é apresentado e é encarregado de mostrar ao leitor como o mundo funciona em 1984; na Segunda Parte Winston, à seu modo, se rebela contra o Partido (a instituição governamental de 1984) e, não obstante, conhecemos Julia que há tempos, também à seu modo, se rebelava contra o Partido (ou achava que o fazia). E na Terceira Parte é repreendido é moldado ideologicamente aos interesses do Partido. Entre outras coisas, Orwell critica o positivismo no que concerne a negação e reconstrução do passado. Fala também da manipulação de fontes, quando em 1984 a história é constantemente reescrita de acordo com os interesses do Partido (assim como o ensino de História). Orwell também utiliza o conceito de classe, mostrando sua influência marxista comum aos grandes pensadores até a primeira metade do século XX. Outro ponto interessantíssimo é a Novafala que, genialmente, Orwell percebeu que começava a ocorrer no século XX, pois é notável que a cada ano usamos menos adjetivos e destituímos a gramática e a cada ano as gírias e abreviações (principalmente na internet) contribuem para limitar nossa capacidade de raciocínio... mas quando eu falo em alguma teoria da conspiração sou taxada de doida, pois é.

Na Segunda Parte destaco o livro de Goldstein, no qual tem o mesmo papel que o próprio 1984 possui na nossa sociedade: o de mostrar como as coisas "realmente funcionam", na verdade foi um choque saber que o livro foi escrito pelos próprios integrantes do Partido (ou não, O'Brien pode ter dito isso pra confundir Winston, vai saber, até o leitor fica confuso hehe). As passagens mais interessantes estão na Terceira Parte, nos diálogos entre Winston e O'Brien e, principalmente quando Winston, após semanas/meses de tortura vê seu reflexo no espelho. Daqui a um ano ou dois, após estudar Contemporânea/Tempo Presente, notarei pontos mais relevantes do objetivo de Orwell com o livro. Por ora, é recomendável por retratar a nossa sociedade tal como ela é no sentido político/ideológico: não que o leitor tenha de escolher entre os dois blocos econômicos dominantes que começavam a se delinear no período em que o livro foi escrito e publicado, não.

 O leitor deve observar como somos constantemente manipulados, em como a Memória coletiva e individual é manipulada, em como a História é constantemente reescrita e como as fontes, como disse Le Goff em História e Memória, não são ingênuas atendendo assim aos interesses políticos vigentes.


Quotes
Goldstein bradava seu discurso envenenado de sempre sobre as doutrinas do Partido - um discurso tão exagerado e perverso que não servia nem para enganar uma criança, e ao mesmo tempo suficientemente plausível para fazer com que o ouvinte fosse tomado pela sensação alarmada de que outras pessoas menos equilibradas do que ele próprio poderiam ser iludidas pelo que estava sendo afirmado. (p. 23)
Ninguém ouvia o que o Grande Irmão estava dizendo. Eram apenas algumas palavras de estímulo, o tipo de palavras pronunciadas no fragor da batalha, impossíveis de distinguir isoladamente, mas que restauram a confiança pelo mero fato de serem ditas. (p. 26)
Era um desses sonhos que, mesmo mantendo o cenário onírico característico, são uma continuação da vida intelectual da pessoa, e em que tomamos consciência de fatos e idéias que continuamos achando novos e valiosos depois que acordamos. (p. 42)
Se o Partido era capaz de meter a mão no passado e afirmar que esta ou aquela ocorrência jamais acontecera - sem dúvida isso era mais aterrorizante do que a mera tortura ou a morte. (p. 47)
E se todos os outros aceitassem a mentira imposta pelo Partido - se todos os registros contassem a mesma história -, a mentira tornava-se história e virava verdade. "Quem controla o passado controla o futuro; quem controla o presente controla o passado", rezava o lema do Partido. E com tudo isso o passado, mesmo com sua natureza alterável, jamais fora alterado. Tudo o que fosse verdade agora fora verdade desde sempre, a vida toda. Muito simples. O indivíduo só precisava obter uma série interminável de vitórias sobre a própria memória. "Controle da realidade", era a designação adotada. (p. 47)
Você não vê que a verdadeira finalidade da Novafala é estreitar o âmbito do pensamento? No fim teremos tornado o pensamento-crime literalmente impossível, já que não haverá palavras para expressá-lo. (p. 68 e 69)
Os capitalistas eram donos de tudo o que havia no mundo e todos os outros homens eram escravos. (p. 92)
Ocorreu-lhe que em momentos de crise o embate da pessoa nunca era com um inimigo externo, mas sempre com seu próprio corpo. (p. 124)
 A visão das palavras amo você fizera transbordar nele o desejo de continuar vivo, e a idéia de correr riscos menores pareceu-lhe de repente uma burrice. (p. 133)
Talvez sob a superfície o Partido estivesse podre, talvez seu culto ao zelo e à abnegação não passasse de um biombo ocultando o mais completo desregramento. (p. 152)
Havia uma conexão íntima e direta entre castidade e ortodoxia política. Porque, de que maneira manter no diapasão certo o medo, o ódio e a credulidade imbecil que o Partido necessitava encontrar em seus membros se algum instinto poderoso não fosse represado e depois usado como força motriz? A pulsão sexual era perigosa para o Partido, e o Partido a utilizava em interesse próprio. (p. 161)
Quando você ama alguém, ama essa pessoa e mesmo não tendo mais nada a oferecer, continua oferecendo-lhe o seu amor. (p. 197)
Porque se lazer e segurança fossem desfrutados por todos igualmente, a grande massa de seres humanos que costuma ser embrutecida pela pobreza se alfabetizaria e aprenderia a pensar por si; e depois que isso acontecesse, mais cedo ou mais tarde essa massa se daria conta de que a minoria privilegiada não tinha função nenhuma e acabaria com ela. (p.226)
Na verdade, as três filosofias não têm quase nenhuma diferença entre si, e os sistemas sociais que elas justificam são idênticos. Em toda parte existe a mesma estrutura piramidal, a mesma adoração a um líder semidivino, a mesma economia justificada única e exclusivamente por uma atividade contínua de guerra. (p. 233)
A guerra devora o excedente de bens e contribui para preservar a atmosfera mental que convém a uma sociedade hierárquica. (p. 235)
Todas as novas teorias políticas, seja lá como se autodenominassem, reeditavam as idéias de hierarquia e regimentação. (p. 241)
Não estamos preocupados com aqueles crimes idiotas que você cometeu. O Partido não se interessa pelo ato em si: é só o pensamento que nos preocupa. Não nos limitamos a destruir nossos inimigos; nós os transformamos. (p.297)
A Novafala foi concebida não para ampliar, e sim restringir os limites do pensamento, e a redução a um mínimo do estoque de palavras disponíveis era uma maneira indireta de atingir esse propósito. (p.349)

Eu Vou Ler...

Foto: Maiara Alves
  1. Eduardo Galeano - As Veias Abertas da América Latina
  2. Leandro Narloch e Duda Teixeira - Guia Politicamente Incorreto da América Latina
 Já li e tô lendo, na verdade. Há tempos tô de olho tanto no Guia da América Latina, quanto no do Brasil, e coincidentemente seus autores criticam As Veias Abertas da América Latina, livro que me foi indicado como introdução para a disciplina que aborda as revoluções e ditaduras na América Latina. Bom, já li o Guia Politicamente Incorreto da América Latina, só me falta tempo pra escrever aqui no blog. Registrando porque tenho mania de registrar, de documentar e datar tudo haha, devia ser arquivista.

domingo, 22 de julho de 2012

Nicolau Maquiavel - O Príncipe

Foto: Maiara Alves
De Principatibus
ISBN: 9788563560032
Autor: Nicolau Maquiavel (Niccolò Machiavelli)
Tradução: Maurício Santana Dias
Editora (Br): Companhia das Letras/Penguin
Páginas: 172
Gênero: Ciência Política/Política

Sobre: Ao longo de cinco séculos, o trabalho mais conhecido de Nicolau Maquiavel (1469-1527) deixou de ser apenas uma leitura de interesse político, para se transformar também em literatura obrigatória no currículo de historiadores, economistas, sociólogos, advogados e executivos. Na Florença do século XVI, Maquiavel escreveu, com texto límpido e elegante, não só um manual para a conduta de um mandatário, mas uma obra clássica da filosofia moderna, fundadora da ciência política, que é ainda uma esplêndida meditação sobre a conduta do governante e sobre o funcionamento do Estado. Mais do que um tratado sobre as condições concretas do jogo político, O príncipe é um estudo sobre as oportunidades oferecidas pela fortuna, sobre as virtudes e os vícios intrínsecos ao comportamento dos governantes. Suas observações sobre moralidade e ética permanecem espantosamente atuais.

Opinião: Ao contrário da descrição do livro, eu diria que a leitura de O Príncipe é obrigatória a todo e qualquer cidadão de qualquer Estado do mundo e não apenas à profissionais específicos, pois este manual descreve, talvez verità effettuale, o perfil político do homem - dominante e dominado - liberal capitalista. Machiavelli teve a oportunidade de acompanhar de perto alguns políticos e, a partir da observação de suas atitudes, descreveu como se dava efetivamente a ação política de seu tempo que se mantém "espantosamente atual" por dois motivos: porque ainda vivemos o modelo político que estava começando a se delinear na época e por ter descrito a postura que o governante deve ter nas relações políticas.

Acredito que o li no tempo certo: acabei de estudar História Medieval e, praticamente na semana que vem, começo a estudar História Moderna; muito superficialmente, é claro, não dá pra estudar tudo em um semestre (nem em quatro anos), mas dá pra ter uma noção mais ou menos ampla do que foram essas duas fases da história. Bom, o contexto do livro é a transição entre a Idade Média e a Idade Moderna na Itália - mais precisamente em Florença, cidade natal de Machiavelli, Dante, Michelangelo e outros grandes homens notáveis. Não temos como datar exatamente quando se deu a passagem da Idade Média para a Moderna,  isso varia de historiador para historiador e conseqüentemente de sua orientação. Braudel, em A Dinâmica do Capitalismo, já enxergava neste período (fim da Idade Média e início da Moderna) vestígios do sistema econômico capitalista, baseado nisso acredito que a principal obra de Machiavelli é "espantosamente atual" por descrever o perfil político do homem dominante e dominado dessa sociedade específica, fruto do modelo "liberal capitalista".

Na capa do livro desta versão temos o Retrato de Lourenço de Médici (a quem o livro foi dedicado), pintado por Rafael Sanzio em 1518 - e não o próprio Machiavelli como eu pensava. Machiavelli era ambicioso, segundo consta no prefácio de Fernando Henrique Cardoso, e pretendia seguir carreira política, mas por não possuir os recursos que eram necessários para tal, buscou o poder através da intelectualidade, e conseguiu. Grafton ressalta as considerações de Felix Gilbert, de que Machiavelli apenas pôs no papel a política que já era discutida na esfera privada, tornando-a então pública e descrevendo-a como realmente era, e não como deveria ser, sendo considerado por estes motivos um renovador e sua principal obra um clássico. O teórico italiano é popularmente mais conhecido pela expressão que leva seu nome, "maquiavélico" do que por sua obra em si, embora esta tenha surgido delas. Lendo O Príncipe podemos entender o significado da expressão, bem como se dá as complexas relações políticas que vigoram até os dias atuais.

O livro traz muitos pontos que merecem ser destacados: a conduta do governante para com o povo, com seu exército, com governantes de outros territórios; considerações sobre guerras, moral, a importância da história, etc. Como todos os homens de seu período, Machiavelli percebeu que as coisas dependiam mais do homem que do poder divino, que o objetivo da política é organizar cidades para que o instinto egoísta intrínseco ao ser humano não as destrua, que o objetivo da ação política é o poder e que a dominação é um bem "Porque em toda cidade se encontram essas duas tendências opostas: de uma parte, o povo não quer ser comandado nem oprimido pelos poderosos, de outra, os poderosos querem comandar e oprimir o povo; desses dois desejos antagônicos advém nas cidades uma das três consequências: principado, liberdade ou desordem. (p. 77) O livro é incrível, a tradução de Maurício Santana Dias é bem simples e totalmente acessível a qualquer tipo de leitor, o recomendo não apenas por ser um clássico ou por descrever e explicar as relações políticas, mas por mostrar de uma forma generalizada o comportamento do homem em sociedade e quando relacionado ao poder. Seu conteúdo é discutido há mais de meio século, escrever sobre todas as coisas importantes que Machiavelli traz com meu limitado conhecimento de dezenove anos de vida e quase um ano de história é impossível, mesmo porque é importantíssimo que cada um reflita por si, independente de ser ou não um historiador, sociólogo, filósofo, executivo, letrado, advogado ou o Presidente da República, esta ou qualquer outra obra.

Quotes
"(...) pois sabiam que guerra não se evita, mas se adia em favor de outrem." (p. 53)
"Tampouco jamais apreciaram o que hoje está na boca de todos os sábios, ou seja, que se desfrutem os benefícios do tempo, preferindo antes seguir seu valor e prudência: porque o tempo arrasta tudo consigo e pode trazer o bem como o mal, ou o mal como bem." (p.54)
"O desejo de conquista é algo realmente muito natural e comum, e aqueles que têm exito na empreitada serão sempre louvados, ou pelo menos não criticados; porém, quando não têm força para tanto e querem realizá-lo a qualquer custo, aí reside o erro, daí decorre a crítica." (p.55)
 "Pois, além do que já foi dito, a natureza dos povos é inconstante, sendo fácil persuadi-los de uma coisa, mas difícil mantê-los nessa persuasão; portanto convém estar preparado para convencê-los pela força, quando já não estiverem convencidos por si mesmos." (p. 64)
"A crueldade bem empregada - se é lícito falar bem do mal - é aquela que se faz de uma só vez, por necessidade de segurança; depois não se deve perseverar nela, mas convertê-la no máximo de benefício para os súditos. Mal usadas são aquelas maldades que, embora a principio sejam poucas, com o tempo aumentam em vez de se extinguirem." (p. 76)
"Por isso as injúrias devem ser cometidas de uma vez só, de modo que, por sua brevidade, ofendam menos ao paladar; ao passo que os benefícios devem ser feitos aos poucos, para que sejam mais bem saboreados." (p.77)

"(...) respondo que um príncipe prudente e corajoso sempre será capaz de superar todas essas dificuldades, ora dando aos súditos a esperança de que o mal não seja duradouro, ora incutindo-lhes o medo da crueldade do inimigo, ora precavendo-se com destreza contra aqueles que lhe parecem ousados demais." (p. 82)
"No que diz respeito ao exercício da mente, o príncipe deve ler obras de história e nelas atentar para as ações dos homens ilustres, ver como eles se conduziram nas guerras e examinar as causas de suas vitórias e derrotas, a fim de evitar estas e imitar aquelas." (p. 96)

"Um príncipe sábio deve observar tais exemplos e nunca manter-se ocioso nos tempos de paz, mas aproveitar-se deles com engenho para poder agir melhor na adversidade; de modo que, quando a fortuna mudar, ele esteja preparado para resistir a ela." (p. 97)
"Porque, de modo geral, pode-se dizer que os homens são ingratos, volúveis, fingidos e dissimulados, avessos ao perigo, ávidos de ganhos..." (p. 102)
"(...) os homens têm menos escrúpulos em ofender alguém que se faça amar a outro que se faça temer: porque o amor é mantido por um vínculo de reconhecimento, mas, como os homens são maus, se aproveitam da primeira ocasião para rompê-lo em benefício próprio, ao passo que o temor é mantido pelo medo da punição, o qual não esmorece nunca." (p. 102)
"Mas o mais importante é abster-se dos bens alheios, pois os homens se esquecem com maior rapidez da morte de um pai que da perda do patrimônio." (p. 103)
"Aquiles e tantos outros príncipes antigos foram deixados aos cuidados do centauro Quíron, que os manteve sob sua disciplina. Isso quer dizer que, tendo por preceptor um ser metade animal e metade homem, um príncipe deve saber usar de ambas as naturezas: e uma sem a outra não produz efeitos duradouros." (p. 105)
"Se todos os homens fossem bons, este preceito não seria bom; mas, como eles são maus e não mantêm a palavra dada ao príncipe, este também não deve mantê-la perante eles." (p. 105)
" Mas é necessário saber camuflar bem essa natureza, ser um grande fingidor e dissimulador; e os homens são tão simplórios e obedientes às necessidades imediatas que aquele que engana sempre encontrará quem se deixe enganar." (p. 105)
"Os homens em geral julgam mais com os olhos que com as mãos; porque todos são capazes de ver, mas poucos, de sentir; todos vêem aquilo que você parece, poucos tocam aquilo que você é." (p. 106)
"(...) pois nunca se deve cair acreditando que haverá quem o levante mais tarde." (p. 130)
"(...) apenas são boas e certas e duradouras as defesas que dependem exclusivamente de você e de sua virtude." (p. 131)
"As únicas guerras justas são as necessárias, e tais armas são piedosas onde não há nenhuma esperança além delas." (p. 135)
 

terça-feira, 26 de junho de 2012

José Rivair Macedo - A Mulher na Idade Média

Imagem: Google Imagens/Reprodução
A Mulher na Idade Média: A Mulher e a família, Realidades sociais e atividades profissionais, Exclusão, preconceito e marginalidade
ISBN: 85-134-61-5
Autor: José Rivair Macedo
Editora: Editora Contexto
Páginas: 108
Gênero: História/História Medieval

Sobre: Este livro utiliza vasto material de consulta, enfoca várias facetas da mulher - esposa, mãe, artesã, comerciante, aristocrata, virgem, dama, bruxa, prostituta, herege, santa e guerreira - e mostra que nem os homens eram tão ativos, nem as mulheres eram tão passivas, como a imagem construída desse período nos faz pensar.

Opinião: O li no fim de Abril para uma atividade da disciplina de História Medieval e gostei apenas por causa do tema, pois Idade Média não é meu forte. Gosto um pouquinho de História Antiga, bastante de Moderna e Brasil, e adoro todo o conjunto de Contemporânea, mas Medieval, pessoalmente, acho um porre haha. Bom, foi minha primeira tentativa de resenha acadêmica e não me saí muito bem, mas valeu muito a experiência e com certeza me sairei melhor nas próximas.

Foto: Maiara Alves

Em A Mulher na Idade Média o historiador José Rivair Macedo desmitifica a noção comum que se tem das mulheres do Ocidente Europeu na Era Medieval. Utilizando vertentes da História Cultural, através das escassas fontes primárias disponíveis, assim como iconografias, o autor descreve os costumes e crenças não apenas das várias mulheres de diferentes grupos sociais da época, mas também dos homens, religiosos e da sociedade em si, baseando-se em aspectos culturais como o cotidiano, representações e imaginário no período da Idade Média (séc. V ao XV).

Com o objetivo de destacar pontos importantes e direcionar linhas de pesquisas atuais sobre as mulheres na Idade Média, esta obra do historiador das sociedades medievais descreve, entre outras coisas, o que a própria sociedade medieval pensava a respeito das mulheres, o quê elas próprias pensavam, como agiam e como foram representadas. Organizado em cinco capítulos divididos por elementos culturais, o livro é satisfatório quanto às argumentações, mostrando a importância da Nova História Cultural ao abordar temas até recentemente pouco explorados; é satisfatório também ao preocupar-se em estratificar a variada gama de mulheres, tentando assim não generalizá-las.

O primeiro capítulo, "Casamento e família", relata a discrepância das várias mulheres no casamento, a partir da posição social e região a qual pertenciam, bem como estruturava-se esse casamento, sua função e posição na família. Algumas mulheres podiam, entre outras coisas, obter o divórcio, porém outras ao mesmo tempo estavam sujeitas ao pai, marido ou "parente homem mais próximo" (p.17). Serviam como mercadorias nas relações familiares e foram usadas como meio de ascensão social dos homens. A Igreja sacramentou o casamento, beneficiando no contexto algumas mulheres para que se evitasse o repúdio dos homens para com elas, porém eram proibidas de sequer demonstrar prazer nas relações sexuais. O autor demonstra como os aspectos considerados negativos - na sociedade atual - sobressaíam-se dos positivos, porém ressaltando que a posição da mulher na família e sua função no casamento não se originaram no período, e que a "desigualdade entre os sexos" (p.14) não foram invenções da Idade Média.

Em "Realidades sociais e atividades profissionais", o segundo capítulo, o autor relata que as mulheres exerceram, hierarquicamente, poder sobre outras mulheres e suas funções laborais de acordo com os grupos sociais  e as localidades que pertenciam. A maioria das mulheres trabalhavam no campo, submissas e ao lado dos maridos. Porém outras, quando necessário, cumpriam decidida e autoritariamente atividades convenientemente reservadas aos homens, pois "precisavam demonstrar autoridade suficiente para evitar a rebeldia dos vassalos e impedir ataques de vizinhos ambiciosos" (p.37), desmitificando então que não foram tão passivas como veicula-se na História Tradicional e nas representações elaboradas pelos homens e pela Igreja. Camponesas, senhoras, domésticas, artesãs, e negociantes são apenas algumas das variadas mulheres que trabalhavam na sociedade medieval, o autor de forma exemplar salienta também que cada mulher tinha suas especificidades em si, e que esses grupos são apenas uma descrição ampla do campo laboral do período.

Além de trabalharem e servirem como mercadoria, houve na Europa Ocidental da Idade Média um grupo de mulheres que, por não seguirem os princípios cristãos, ficaram à margem da sociedade e foram relativamente excluídas, segundo Rivair Macedo, no terceiro capítulo do livro: "As mulheres marginais e excluídas". Neste capítulo, se destaca a coexistência dos princípios cristãos e a "tolerância" nas relações dos "homens de bem" com as mulheres que se prostituíam, o autor desmitifica também a "Caça às Bruxas" que não teria ocorrido na Idade Média, e sim na Idade Moderna, mas que tiveram origem nesse período. Além de atuarem como prostitutas, contraditoriamente existiam [as] mulheres hereges que, nas doutrinas heterodoxas, pregavam a abolição da sexualidade demonstrando o quão complexa, dentro do próprio grupo das mulheres, a sociedade medieval foi.

No quarto capítulo do livro, "Representações e modelos femininos", salienta-se que a forma como as mulheres eram representadas se tratava de idealizações, de como o grupo social masculino dominante desejavam que fossem incutidas a imagem da mulher na sociedade medieval. O autor percebeu quatro modelos: "Eva", "Maria", "A Dama" e a "Mulher ardilosa". Entende-se que para os medievos, "Eva" seria a prova da inferioridade feminina, "Maria" nos poemas, sermões e louvores influenciava ideologicamente no comportamento, na moral; a "Dama" seria a representação de um grupo muito específico de mulheres no imaginário masculino, onde eram usadas para o aperfeiçoamento da oratória dos homens em "disputas" de melhor erudição. Alguns séculos depois, especificamente XIV e XV, a sociedade passa por transformações e a aversão ao feminino torna-se explícita: as mulheres são representadas pejorativamente em resposta à renúncia masculina do casamento sacramental, sendo denominadas de "Mulher ardilosa". Essas representações surtiram efeito e foram perpassadas nos séculos posteriores.

No quinto e último capítulo: "A palavra e a voz das mulheres", mostra-se um lado tradicionalmente pouco conhecido, ou explorado, das mulheres na sociedade medieval: o autor afirma que algumas mulheres tiveram acesso às letras e contribuíram inclusive para os poemas - predominantemente masculinos - trovadorescos, conseguindo até sobreviver de literatura. As mulheres religiosas foram responsáveis pela cristianização dos povos bárbaros e muitas foram canonizadas. Algumas mulheres demonstraram que o sexo feminino podia escrever e "alcançar um lugar de destaque na literatura vernácula de seu tempo" (p.89). Não obstante, outras patrocinavam os escritores, "apadrinhava-os" contribuindo para a cultura cavalheiresca, além de conseguirem "dominar a escrita e penetrar no mundo da criação literária" (p.92) onde seus poemas diferenciavam-se dos poemas trovadores masculinos com maior altivez, por assim dizer, das protagonistas. Poucas mulheres tiveram acesso às letras, obviamente as aristocratas, porém foi importante o autor realçar o singular caso da poetisa italiana Cristina, que não apenas conseguiu sustentar a si e os filhos com a literatura, como também sobressair-se na sociedade denunciando homens e clérigos e de certa forma atuando no campo político. Outro caso singular é o de Joana d'Arc que não só participou de combates e conflitos, como os liderou e foi reconhecida na sociedade medieval em uma atividade, na época, reservada aos homens.

O livro de José Rivair Macedo mostra-se interessante ao utilizar uma abordagem influenciada pela Nova História Cultural na escolha do tema - uma vez que a mulher até então fez parte de um grupo que era minoria na História Tradicional, e a importância em buscar conhecer e explorar as sociabilidades, costumes, crenças e representações dos grupos minoritários. O autor cita outros historiadores com estudos na área como Georges Duby (p.29), Jacques Heers (p.38), Jacques Le Goff (p.47), Danielle Régnier-Bohler (p.89), entre outros, porém seu livro, "A Mulher na Idade Média", contribui apenas como um manual, pois trata-se de uma visão ampla da mulher na Idade Média. Seus argumentos, sustentados pelos documentos e iconografias, de que algumas poucas mulheres atuaram na política, em guerras, obtiveram divórcio, foram alfabetizadas e realizaram atividades consideradas exclusivas do sexo masculino servem como base para uma análise histórica contra teorias misóginas e machistas, assim como as agressões físicas sofrida pelas mulheres de famílias germânicas podem ser utilizadas também para uma análise histórica da violência contra a mulher.

A descrição no livro do cotidiano das mulheres no trabalho, no casamento, na família e na sociedade, pode ser utilizado também como uma análise histórica à outros crimes defendidos pelo Direito das Mulheres da cartilha da ONU, bem como análise histórica das suas representações.


sábado, 16 de junho de 2012

Laurentino Gomes - 1822

Foto: Maiara Alves
1822
ISBN: 9788520924099
Autor: Laurentino Gomes
Editora: Nova Fronteira
Páginas: 351
Gênero: História do Brasil

Sobre: Nesta nova obra, o escritor Laurentino Gomes, autor do best-seller 1808, sobre a fuga da família real portuguesa para o Rio de Janeiro, mostra como o Brasil, um país que tinha tudo para dar errado, deu certo em 1822 por uma notável combinação de sorte, improvisação, acasos e também de sabedoria das lideranças responsáveis pela condução dos destinos do novo país, naquele momento de grandes sonhos e muitos perigos.

Opinião: Comprei o livro em Abril do ano passado, quando ainda não estudava História e só o li este ano - acredito que no momento certo -, quase no fim da disciplina que aborda a transição no Brasil de Colônia para Império. Não tiro seu valor: foram milhares de cópias vendidas entre o 1808 e este, 1822; é importante também que o livro tenha não apenas sido bastante vendido, como também lido, porém o jornalista deixa brechas para interpretações inocentemente tendenciosas de leigos. E isto é grave.

Divido em 22 capítulos, com um recorte de 45 anos (1789-1834: desde a decapitação dos monarcas franceses, à morte de D. Pedro I) e utilizando fontes impressas o autor relata os fatos que culminaram no cultuado 1822. Gomes neste livro foi orientado por Alberto da Costa e Silva, renomado historiador, e também diplomata, brasileiro. Mas, talvez por esta condição e com o objetivo de valorizar possíveis laços entre Brasil e Portugal (como foi o objetivo de 1808) relata que o Processo de Independência do Brasil "resultou menos da vontade de brasileiros do que das divergências entre os próprios portugueses" (p.21). Os portugueses contribuíram sim, mas a Independência política do Brasil de Portugal foi muito além disto, como disse na minha prova.

Sobre este assunto, uma das principais questões de debate para historiadores é: como a América portuguesa permanceu unida enquanto que a América espanhola se fragmentava em territórios independentes? Para Gomes, baseado em Sérgio Buarque de Holanda e Maria Odila Leite da Silva Dias, a elite colonial de todas as províncias temiam uma rebelião escrava (como a do Haiti, por exemplo), já que estes constituiam a maior parte da população. Outro ponto interessante é sobre o "mito" do grito da Independência e sobre o famoso quadro de Pedro Américo veiculados nos livros didáticos: para alguns não ouve o grito e o quadro de Américo teria sido inspirado em "Napoleão Friedland" do francês Jean-Louis Ernest.

Imagem: Google Imagens/Reprodução
Gomes ressalta que a obra de Américo tinha o objetivo de fortalecer o ocorrido bem como o imaginário às vésperas da proclamação oficial da República. Além desse mito, Gomes desconstrói (ou mostra apenas determinadas versões) outros como o grito no Rio Ipiranga ou D. Pedro ter composto o atual Hino da Independência. Além de enaltecer a relação histórica entre Portugal e Brasil, o autor elege José Bonifácio à patriarca da Independência e afirma que "sem ele, o Brasil de hoje provavelmente não existiria" (p.146). Um leitor leigo interpretaria isto de forma errônea, pois da mesma forma que os historiadores não sabem o que manteve o Brasil unido no século XIX não se pode creditar apenas uma pessoa à isto, Bonifácio contribuiu sim para o Processo de Independência, bem como nas medidas que mantiveram o território unido, mas creditá-lo somente surtiria o mesmo efeito que os positivistas objetivam com a história tradicional e todo o trabalho do autor (e de historiadores com outras obras) em desconstruir os mitos e interpretações tendenciosas a respeito do que ocorreu em 1822 seria em vão. 

Uma das brechas está na página 220, quando sobre o Poder Moderador o autor afirma:
"Lido ao pé da letra, poderia dar a entender que D. Pedro I mantinha a condição de monarca absoluto, tanto quanto haviam sido seu pai, D. João VI, sua avó, D. Maria I, e seu bisavô, D. José I. Mas era só aparência. O simples fato de haver uma constituição, ainda que outorgada, significava que o poder do imperador, doravante, tinha limites."
Na teoria o Poder Moderador tinha limites sim, mas assim como a nossa constituição atual, nem sempre as leis se fazem na prática e isso ocorreu com o Poder Moderador; da forma como o autor colocou subentende-se que não. Outra colocação "perigosa" é a de que o inglês Cochrane teria decidido a Independência aqui na Bahia, e, assim como não devemos creditar as medidas de Bonifácio, como conselheiro do Imperador, à respeito da união do território na época, responsabilizar Cochrane pela vitória dos brasileiros sob os portugueses pela Independência aqui na Bahia é um erro.

Estou no fim do segundo semestre e pude ver algumas colocações equivocadas no livro, provavelmente daqui a alguns anos verei mais e mais, e só as percebi porque tive acesso à outras fontes, outros pontos de vista e esta é a mesma postura que todos que lêem livros de História (e de qualquer outra área de conhecimento) devem ter. Utilizei o livro, bem como outras fontes, para a prova sobre o processo de independência e o considero uma análise quase ampla da discussão historiográfica sobre a Independência.

Foto: Maiara Alves
Foto: Maiara Alves
Foto: Maiara Alves
Quotes
"A Independência do Brasil ocorreu no meio de uma transformação importante na economia brasileira. A produção de açúcar e a mineração de ouro e diamantes estavam em decadência. Eram as duas grandes riquezas que haviam sustentado a prosperidade da colônia e sua metrópole nos séculos anteriores. Muito dependente da mão de obra escrava, a produção açucareira entrara em declínio devido ao crescente combate ao tráfico negreiro pela Iglaterra e à mudança de tecnologia nos mercados competidores." p.59
"Pouco mais adiante, ao passar pela cidade de Paranaguá e a vizinha vila de Guaratuba, Saint-Hilaire encontrou pessoas em estado de desnutrição tão profunda que adquiriram o hábito de comer terra na tentativa de repor vitaminas e sais minerais." p.71
"Um segundo enigma tem a ver com a sua vida privada. Bonito, famoso, solteiro e sem filhos, Neukomm tem seu nome numa lista de quatro homossexuais não assumidos da corte de D. João, elaborada pelo antropólogo Luiz Mott, presidente do Grupo Gay da Bahia. Os outros três seriam D. João de Almeida de Melo ne Castro, o conde de Galvêas; Francisco Rufino de Sousa Lobato, visconde de Vila Nova Rainha; e o próprio D. João.". P. 78
"A Bahia decidiu o futuro do Brasil na sua forma atual, mas a festa do Dois de Julho é hoje praticamente desconhecida pelos brasileiros das outras regiões. Ao contrário do Carnaval, e apesar de também reunir milhares de pessoas, raramente é notícia nos jornais e emissoras de rádio e televisão fora da própria Bahia. Porém, um visitante desavisado que chegar à capital baiana nessa data perceberá logo ao desembarcar uma nota dissonante: o aeroporto de Salvador, que até alguns anos atrás se chamava Dois de Julho, mudou de nome. Agora, chama-se Luís Eduardo Magalhães, em homenagem ao político baiano falecido em 1998. É uma prova de que o coronel da atualidade será sempre mais lembrado do que todas as lutas gloriosas do passado." p.206
 Laurentino Gomes esteve no Programa do Jô, em 2010, falando sobre o livro.






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