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sábado, 16 de junho de 2012

Laurentino Gomes - 1822

Foto: Maiara Alves
1822
ISBN: 9788520924099
Autor: Laurentino Gomes
Editora: Nova Fronteira
Páginas: 351
Gênero: História do Brasil

Sobre: Nesta nova obra, o escritor Laurentino Gomes, autor do best-seller 1808, sobre a fuga da família real portuguesa para o Rio de Janeiro, mostra como o Brasil, um país que tinha tudo para dar errado, deu certo em 1822 por uma notável combinação de sorte, improvisação, acasos e também de sabedoria das lideranças responsáveis pela condução dos destinos do novo país, naquele momento de grandes sonhos e muitos perigos.

Opinião: Comprei o livro em Abril do ano passado, quando ainda não estudava História e só o li este ano - acredito que no momento certo -, quase no fim da disciplina que aborda a transição no Brasil de Colônia para Império. Não tiro seu valor: foram milhares de cópias vendidas entre o 1808 e este, 1822; é importante também que o livro tenha não apenas sido bastante vendido, como também lido, porém o jornalista deixa brechas para interpretações inocentemente tendenciosas de leigos. E isto é grave.

Divido em 22 capítulos, com um recorte de 45 anos (1789-1834: desde a decapitação dos monarcas franceses, à morte de D. Pedro I) e utilizando fontes impressas o autor relata os fatos que culminaram no cultuado 1822. Gomes neste livro foi orientado por Alberto da Costa e Silva, renomado historiador, e também diplomata, brasileiro. Mas, talvez por esta condição e com o objetivo de valorizar possíveis laços entre Brasil e Portugal (como foi o objetivo de 1808) relata que o Processo de Independência do Brasil "resultou menos da vontade de brasileiros do que das divergências entre os próprios portugueses" (p.21). Os portugueses contribuíram sim, mas a Independência política do Brasil de Portugal foi muito além disto, como disse na minha prova.

Sobre este assunto, uma das principais questões de debate para historiadores é: como a América portuguesa permanceu unida enquanto que a América espanhola se fragmentava em territórios independentes? Para Gomes, baseado em Sérgio Buarque de Holanda e Maria Odila Leite da Silva Dias, a elite colonial de todas as províncias temiam uma rebelião escrava (como a do Haiti, por exemplo), já que estes constituiam a maior parte da população. Outro ponto interessante é sobre o "mito" do grito da Independência e sobre o famoso quadro de Pedro Américo veiculados nos livros didáticos: para alguns não ouve o grito e o quadro de Américo teria sido inspirado em "Napoleão Friedland" do francês Jean-Louis Ernest.

Imagem: Google Imagens/Reprodução
Gomes ressalta que a obra de Américo tinha o objetivo de fortalecer o ocorrido bem como o imaginário às vésperas da proclamação oficial da República. Além desse mito, Gomes desconstrói (ou mostra apenas determinadas versões) outros como o grito no Rio Ipiranga ou D. Pedro ter composto o atual Hino da Independência. Além de enaltecer a relação histórica entre Portugal e Brasil, o autor elege José Bonifácio à patriarca da Independência e afirma que "sem ele, o Brasil de hoje provavelmente não existiria" (p.146). Um leitor leigo interpretaria isto de forma errônea, pois da mesma forma que os historiadores não sabem o que manteve o Brasil unido no século XIX não se pode creditar apenas uma pessoa à isto, Bonifácio contribuiu sim para o Processo de Independência, bem como nas medidas que mantiveram o território unido, mas creditá-lo somente surtiria o mesmo efeito que os positivistas objetivam com a história tradicional e todo o trabalho do autor (e de historiadores com outras obras) em desconstruir os mitos e interpretações tendenciosas a respeito do que ocorreu em 1822 seria em vão. 

Uma das brechas está na página 220, quando sobre o Poder Moderador o autor afirma:
"Lido ao pé da letra, poderia dar a entender que D. Pedro I mantinha a condição de monarca absoluto, tanto quanto haviam sido seu pai, D. João VI, sua avó, D. Maria I, e seu bisavô, D. José I. Mas era só aparência. O simples fato de haver uma constituição, ainda que outorgada, significava que o poder do imperador, doravante, tinha limites."
Na teoria o Poder Moderador tinha limites sim, mas assim como a nossa constituição atual, nem sempre as leis se fazem na prática e isso ocorreu com o Poder Moderador; da forma como o autor colocou subentende-se que não. Outra colocação "perigosa" é a de que o inglês Cochrane teria decidido a Independência aqui na Bahia, e, assim como não devemos creditar as medidas de Bonifácio, como conselheiro do Imperador, à respeito da união do território na época, responsabilizar Cochrane pela vitória dos brasileiros sob os portugueses pela Independência aqui na Bahia é um erro.

Estou no fim do segundo semestre e pude ver algumas colocações equivocadas no livro, provavelmente daqui a alguns anos verei mais e mais, e só as percebi porque tive acesso à outras fontes, outros pontos de vista e esta é a mesma postura que todos que lêem livros de História (e de qualquer outra área de conhecimento) devem ter. Utilizei o livro, bem como outras fontes, para a prova sobre o processo de independência e o considero uma análise quase ampla da discussão historiográfica sobre a Independência.

Foto: Maiara Alves
Foto: Maiara Alves
Foto: Maiara Alves
Quotes
"A Independência do Brasil ocorreu no meio de uma transformação importante na economia brasileira. A produção de açúcar e a mineração de ouro e diamantes estavam em decadência. Eram as duas grandes riquezas que haviam sustentado a prosperidade da colônia e sua metrópole nos séculos anteriores. Muito dependente da mão de obra escrava, a produção açucareira entrara em declínio devido ao crescente combate ao tráfico negreiro pela Iglaterra e à mudança de tecnologia nos mercados competidores." p.59
"Pouco mais adiante, ao passar pela cidade de Paranaguá e a vizinha vila de Guaratuba, Saint-Hilaire encontrou pessoas em estado de desnutrição tão profunda que adquiriram o hábito de comer terra na tentativa de repor vitaminas e sais minerais." p.71
"Um segundo enigma tem a ver com a sua vida privada. Bonito, famoso, solteiro e sem filhos, Neukomm tem seu nome numa lista de quatro homossexuais não assumidos da corte de D. João, elaborada pelo antropólogo Luiz Mott, presidente do Grupo Gay da Bahia. Os outros três seriam D. João de Almeida de Melo ne Castro, o conde de Galvêas; Francisco Rufino de Sousa Lobato, visconde de Vila Nova Rainha; e o próprio D. João.". P. 78
"A Bahia decidiu o futuro do Brasil na sua forma atual, mas a festa do Dois de Julho é hoje praticamente desconhecida pelos brasileiros das outras regiões. Ao contrário do Carnaval, e apesar de também reunir milhares de pessoas, raramente é notícia nos jornais e emissoras de rádio e televisão fora da própria Bahia. Porém, um visitante desavisado que chegar à capital baiana nessa data perceberá logo ao desembarcar uma nota dissonante: o aeroporto de Salvador, que até alguns anos atrás se chamava Dois de Julho, mudou de nome. Agora, chama-se Luís Eduardo Magalhães, em homenagem ao político baiano falecido em 1998. É uma prova de que o coronel da atualidade será sempre mais lembrado do que todas as lutas gloriosas do passado." p.206
 Laurentino Gomes esteve no Programa do Jô, em 2010, falando sobre o livro.






A Transferência da Corte para o Brasil e o Processo de Independência (1808-1822)

Foto: Maiara Alves
 


 A Transferência da Corte para o Brasil e o Processo de Independência (1808-1822)

A Independência do Brasil é resultado de um processo intimamente relacionado aos ideais da Revolução Francesa no que concerne, entre outros fatores, à mudança da Família real portuguesa, às medidas de livre comércio e às manifestações nas províncias da América portuguesa e em Lisboa. Alguns historiadores atribuem à transferência da Família Real portuguesa para o Brasil como propulsora da Independência, onde a colônia foi consideravelmente transformada. O contexto em que seu deu o processo foi influenciado pelas idéias liberais oriundas da Revolução Francesa, contribuindo assim no processo de independência no que diz respeito às medidas da Coroa a partir do liberalismo no seu viés político-econômico.

Em 1807, após o imperador francês Napoleão Bonaparte decretar o bloqueio continental, que previa o fechamento dos portos europeus ao comércio de produtos britânicos, Portugal teve que escolher entre aderir o bloqueio continental ou aceitar a sugestão da Inglaterra, sua antiga aliada, de embarcar para o Brasil. O início do século XIX foram tempos difíceis na Europa para as monarquias, onde as guerras napoleônicas representavam o fim do Antigo regime, das monarquias absolutistas, que contribuiu para D. João VI decidir aceitar a oferta da Inglaterra. Há alguns anos, os conselheiros de D. João já cogitavam a mudança da Corte para o Brasil. D. Rodrigo de Souza Coutinho, em 1803, já aconselhava que em hipótese de invasão francesa, existiria "a certeza de ir em qualquer caso V.A.R. criar no Brasil um grande império, e segurar para o futuro a reintegração completa da monarquia em todas as suas partes" (CARVALHO, Marieta: Uma idéia de cidade ilustrada: as transformações urbanas da nova corte portuguesa (1808-1822). Porém, foi o acordo de 1807 com a Inglaterra - que consistia na troca de proteção naval durante a viagem para o Rio de Janeiro, pela abertura dos portos do Brasil ao comércio com as nações estrangeiras - que trouxe a Corte para o Brasil em 1808. Esta mudança da Corte para a Colônia resultou em medidas que aceleraram o processo de Independência.

Na primeira escala no Brasil, em Salvador, o príncipe regente põe em prática o acordo assinado com a Inglaterra, abrindo os principais Portos ao comércio com as nações amigas. José da Silva Lisboa, economista e jurista baiano, influenciado pelo liberalismo econômico de Adam Smith, aconselhou D. João abrir os principais Portos do Brasil - e não apenas o de Santa Catarina, como consistia no Tratado de 1807 -, apresentando-lhe a conveniência em liberar o comércio do Brasil como forma de estimular o desenvolvimento econômico da Colônia (GOMES, Laurentino: 1808), fortalecendo assim o Império contra os princípios revolucionários franceses e contra Napoleão (KIRSCHNER, Tereza Cristina: Visconde de Cairu, Itinerários de um Ilustrado Luso-Brasileiro). Essa medida régia consistia quase que no fim do pacto colonial, onde a América portuguesa praticamente deixava de ser colônia - no que concerne ao monopólio exercido pela metrópole -, influenciando consideravelmente o processo de emancipação política do Brasil de Portugal. 

Após 35 dias em Salvador, no dia 26 de Fevereiro, D. João VI embarca para o Rio de Janeiro onde toma a medida de concessão de liberdade de comércio e indústria manufatureira, permitindo assim a instalação de indústrias no Brasil. Ainda em Salvador, o príncipe regente autorizou a abertura de novas estradas e rompeu o isolamento que até então vigorava entre as províncias (DIAS, Maria Odila: A Interiorização da Metrópole). D. João tomou várias outras medidas com o objetivo de transformar a colônia para reconstruir nos trópicos o império americano de Portugal, porém sua atenção estava voltada para o Rio de Janeiro, onde foram implantadas diretamente as principais mudanças - e, obviamente, ao alcance apenas da elite. Essas transformações voltadas principalmente para o Rio de Janeiro e outras províncias da atual região Sudeste, não agradaram às outras províncias que não foram tão beneficiadas quanto estas, gerando assim revolta da população de outras províncias.

A abertura dos portos e outras medidas, em 1808, resultaram na oposição dos negociantes da Bahia à Coroa, segundo a historiadora Tereza Cristina Kirschner, pois beneficiavam muito mais os estrangeiros do que portugueses e brasileiros. O tratado de 1810, onde nem os portugueses conseguiam competir com os produtos oriundos da Inglaterra - visto que as taxas alfandegárias eram vantajosas aos ingleses -, e também contribuiu para fomentar idéias, não só na província da Bahia como nas demais da atual região Nordeste, contra o governo do Rio de Janeiro onde a Corte havia se instalado e, a partir de 1815, se tornado capital do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves. Em 1817, na província de Pernambuco, essas idéias resultam em um movimento que refletia o descontentamento das províncias quanto ao pagamento de impostos pesados, impostos esses que financiavam as despesas da corte portuguesa no Rio de Janeiro.

O movimento em Pernambuco é consequência da disseminação das i´deias liberais francesa e americana no sentido político-econômico, em que os revolucionários, a fim de combater a opressão colonial que sentiam ainda haver sobre eles, pretendiam criar uma república independente na atual região Nordeste. Pelo breve período em que obteve êxito o novo governo não conseguiu apoio das outras províncias e, dois meses depois, tropas portuguesas invadiram recife e derrotaram a revolta. Mesmo tendo sido derrotada, a revolta causou apreensão no governo e abalou a confiança da Coroa, pois, segundo o historiador estadunidense Roderick Barman, em Brazil: the forging of a nation, "a estrutura da autoridade entrou em colapso porque os elementos da sociedade mais identificados com a Coroa tinham colaborado ativamente com o movimento rebelde." O movimento em Pernambuco foi um dos fatores que contribuíram para acelerar o processo de Independência, uma vez que foi articulado por membros da elite que pretendiam a emancipação do governo português para negociar diretamente com as nações amigas sem ter que pagar os altos impostos ao governo português, e por de certa forma, indiretamente influenciar a população de outras províncias.

Porém alguns historiadores, como Sérgio Buarque de Holanda, acreditam que a Independência é resultado das divergências entre portugueses, desencadeada na Revolução do Porto em 1820, e não no processo de mobilização da colônia na defesa de interesses comuns contra a dominação da metrópole. Infestados pelas idéias liberais, os portugueses exigiam, entre outras coisas, uma nova constituição, a volta de D. João VI para Portugal e do Pacto Colonia. D. João então volta para Portugal após transformar o Brasil e dar-lhe subsídios para se tornar um país independente.

A vinda da Família Real portuguesa para o Brasil, em 1808, contribuiu para acelerar o processo de independência uma vez que, talvez, tenha sido inevitável devido aos movimentos emancipacionistas que já existiam antes mesmo da vinda da Corte. As medidas régias aconselhadas pelos vários funcionários luso-brasileiros da Coroa portuguesa e conselhos da Coroa britânica - influenciado pelas idéias liberais político-econômicas -, de certa forma prepararam o Brasil para a emancipação, pois, segundo o historiador Alan Manchester em sua obra Presença Inglesa no Brasil, "o contato com o mundo exterior despertou a colônia entorpecida: introduziram-se nova gente, novo capital e novas idéias. Como consequência, os brasileiros acharam que seu destino era maior e mais importante". O historiador Oliveira Lima acredita que D. João assegurou a integridade nacional e deu início à classe dirigente que se responsabilizaria pela construção do novo país. Conclue-se então que, as medidas civilizatórias tomadas por D. João VI ao transferir a Corte portuguesa para o Brasil deram subsídios  e geraram conflitos que resultaram na emancipação política do Brasil de Portugal. O monarca português não deixou o país pronto, obviamente, mas contribuiu efetivamente para torná-lo independente.

domingo, 20 de maio de 2012

LEV - Laboratório Reitor Eugênio Veiga

Foto: Maiara Alves

Estudando horrores e sem tempo como sempre, por isso o blog anda com teias de aranha e às moscas, mas as férias estão chegando e terei mais tempo pra escrever. Bom, acho que devia mudar o título do blog pra história-e-alguma-coisa porque definitivamente cinema e literatura não estão mais tão presentes na minha vida como antes haha. Além de estudar pra caramba, visitei uns museus recentemente e anteontem o laboratório onde estão alguns documentos e arquivos eclesiásticos das irmandades de Salvador e de algumas freguesias de outrora. Meu caderninho laranja, minhas canetas coloridas e minha câmera me acompanharam - como sempre -, e tô pensando seriamente em jornalismo por isso.

É muito difícil ser historiador num país que não valoriza sua História e onde a profissão oficialmente não existe, mas apesar dos obstáculos os  poucos que conseguem fazê-lo se saem muito bem. Um dos principais obstáculos é a falta de fonte escrita, os documentos, que são jogados fora por instituições devido a negligência dos órgãos governamentais; outra é a falta de investimento na restauração dos poucos documentos ainda existentes, o que contribui para a escassez de informações e possíveis esclarecimentos da misteriosa História do Brasil.

O LEV (Laboratório Reitor Eugênio Veiga) foi fundado em 2002 e possui a guarda temporária dos arquivos da Igreja Católica. Lá, os profissionais (arquivistas, historiadores e restauradores) resgatam documentos, os restauram, ficha-os e os estuda para que nós, historiadores, ou qualquer outro profissional interessado, possamos estudar e/ou consultar estes raros e poucos documentos. O documento mais antigo, até hoje, que o LEV possui data de 1588 e não lembro nem escrevi sobre o quê se trata haha; o LEV também possui os Livros de Devassa, o que o Brasil teve de mais próximo de uma Inquisição. 

Foto: Maiara Alves
Foto: Maiara Alves
Foto: Maiara Alves
Foto: Maiara Alves
Foto: Maiara Alves
Foto: Maiara Alves

Equipamentos, produtos químicos, paixão e muita força de vontade são usados na restauração de documentos. É preciso conscientizar essas instituições para a importância desses documentos, assim como os profissionais de arquivos, pois o que parece um monte de papel velho são nossas memórias e instrumentos importantíssimos para o trabalho de muitos profissionais bem como para a diminuta parcela da população que se interessa pela nossa história, nossas memórias. Bom, filmei alguma coisa que a profª Ana Maria nos explicou, ela é especialista em restauração não só de documentos, como também monumentos e objetos de arte.














terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Paulo Rezzutti - Titília e o Demonão

Foto: Maiara Alves
Títilia e o Demonão - Cartas Inéditas de D. Pedro I à Marquesa de Santos
Autor: Paulo Rezzutti
Editora: Geração Editorial
Páginas: 352
Gênero: História do Brasil

Sobre: Cartas do Imperador Dom Pedro I para a Marquesa de Santos que se imaginavam desaparecidas foram encontradas, quase dois séculos depois, pelo autor, num arquivo dos Estados Unidos, e revelam aspectos insuspeitados da vida sexual e política na corte imperial. Este livro vai ser um acontecimento na pesquisa histórica nacional. Transcritos e comentados com erudição ímpar, esses documentos profundamente humanos e de alto valor histórico nos mostram um jovem monarca impetuoso e apaixonado, bem humorado, que escreve coisas libidinosas à amante, tenta acalmar as crises de ciúme dela e tem também seus acessos emocionais. O livro revela um rico painel da vida cotidiana e política e dos costumes do Brasil durante o Primeiro Reinado.

Opinião: Em meio a instabilidade política que assolava o Brasil do início do séc. XIX, as negociações para validar o grito da Independência, a guerra da Cisplatina e as inúmeras revoltas que ameaçavam dividir o Brasil, D. Pedro vivia um dos seus romances extraconjugais mais conhecidos e comentados até hoje com Domitila de Castro Canto e Melo, a quem por capricho, amor e devoção, a nomeou camarista da Imperatriz (abril de 1825 após um vexame em público), Viscondessa de Santos (outubro de 1825) e finalmente - e como é mais conhecida - Marquesa de Santos (1826).

Domitila de Castro Canto e Melo nasceu em São Paulo, em 1797; aos quinze anos casou-se com o alferes Felício Pinto Coelho de Mendonça, então com vinte e quatro anos. O casal teve três filhos e um casamento tumultuado com diversos términos, conciliações e maus tratos. Domitila de Castro queixava-se à família que o marido a maltratava constantemente, seu bisneto José Tobias de Aguiar conta que “no afã de tirar seu ar aristocrático, obrigava-a a servir à mesa como uma serviçal qualquer, isso em pleno regime escravocrata” (REZZUTTI: 2010). Em 1819 seu marido, Felício Mendonça, a esfaqueou por suspeita de infidelidade, o autor nos lembra que era comum na época “o homem lavar a honra com o sangue da mulher adúltera”. O divórcio foi emitido em 1824 com intervenções do Imperador, obviamente, e a futura Marquesa ficou com a guarda das crianças.

D. Pedro e Domitila de Castro se conheceram em 1822, às vésperas do grito da Independência (grito da Independência este que só foi reconhecido por Portugal em 1825 que, além de pagar uma quantia considerável que deu início a divida externa, teve a intervenção da Inglaterra que visava a prorrogação do tratado que lhe concedia benefícios comerciais desde 1810 – conseqüência do acordo da escolta da família real portuguesa que fugia para o Brasil das tropas de Napoleão, em 1808) e segundo Paulo Rezzutti teriam tido sua primeira relação em 29 de Agosto do mesmo ano. Administrar as províncias de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, tentar controlar as revoltas e conflitos no restante do Brasil, o Palácio de São Cristóvão, os filhos legítimos e bastardos – e todos os feitos durante seu reinado e ainda ter tempo para a(s) amante(s) justifica a autonomeação Demonão.

O romance durou sete anos (1822-1829), o casal, durante um período, não escondeu o caso. Viajaram juntos inclusive com a Imperatriz Leopoldina, que muitíssimo bem educada fingia que não sabia de nada, consciente das suas obrigações e ouso dizer talvez a personagem mais forte e interessante do Primeiro Reinado, realmente desconheço todo o encanto em torno da Marquesa... Então, o romance durou sete anos e gerou quatro filhos (Isabel Maria, Maria Isabel, Pedro e Maria Isabel), vingando apenas Isabel Maria e a segunda Maria Isabel (três filhas com o mesmo nome, céus!).

Em 1826 Domitila se muda para perto da Quinta da Boa Vista e “assim viveria a uma distância de pouco menos que um quilômetro do amante, que do palácio, não raro, a espionaria com uma luneta” (REZZUTTI: 2010) e no mesmo ano falece D. Leopoldina. De acordo com o autor o Imperador admirava D. Leopoldina, que teve um papel importante no processo de Independência do Brasil “e no liberalismo político, apesar de ter sido criada dentro dos rigores do absolutismo austríaco”. Em um dos muitos boatos e acusações que envolvem Domitila, a morte de D. Leopoldina supostamente seria de envenenamento pelo médico a mando da Marquesa. Não duvidaria que fosse de desgosto e infelicidade... 

Após a morte de D. Leopoldina, D. Pedro solicitou ao Marquês de Barbacena que buscasse, na Europa, uma noiva. As exigências eram: virtude, cultura e beleza. O contrato foi assinado com Amélia de Leuchtenberg, princesa bávara, neta da Imperatriz Josefina, primeira esposa de Napoleão. A quarta qualidade exigida pelo imperador era nascimento, mas após tantos escândalos na corte e na Europa por causa de Domitila, esta exigência se tornou secundária. A marquesa foi expulsa pelo próprio Imperador da corte, e após veemente resistência “foi oficialmente intimada pelo ajudante de ordens do imperador para que se retirasse da corte em uma semana” (REZZUTTI: 2010).

Após o casamento de Pedro I com Amélia de Leuchtenberg e conseqüentemente seu retorno à São Paulo, Domitila de Castro casou-se com o antimarquesista (antimarquesistas e marquesistas eram os nomes dados aos grupos de pessoas que, após a volta da marquesa à São Paulo, a sociedade paulista se dividiu), “o brigadeiro Rafael Tobias de Aguiar, rico tropeiro sorocabano e líder do Partido Liberal, duas vezes eleito presidente da província de São Paulo” com quem teve seis filhos, o casamento durou mais de vinte anos.

Minha posição é antimarquesista (haha), de forma alguma exaltarei o romance de D. Pedro e Domitila de Castro que só é “bonitinho” devido ao Romantismo do séc. XIX, fiquei muito curiosa pra saber se D. Leopoldina, como penso ser, foi vítima desde seu nascimento fadada a ser uma boa esposa, mãe e acima de tudo excelente consorte.  

Quotes
Junto com propriedades, jóias, títulos e ações, essa velha senhora deixava para a posteridade cartas recebidas de d. Pedro I ao longo dos sete anos em que foram íntimos, no sentido mais amplo do termo. Umas poucas poderia ter sido suficientes para relembrar o passado na corte, reafirmar a progenitura das filhas que teve com ele, reviver o amor e os ciúmes. Ninguém passa impunemente por uma grande paixão, e mesmo seus ecos vindos de um passado longíquo ainda podem servir para nos lembrar do quanto fomos amados, desejados e importantes para alguém. Se para isso algumas batalhas bastam, o que dizer de mais de duzentas cartas? Quis Domitila, talvez, que seu romance fosse eterno (...). Antes, porém, de deixarmos os sentimentos do imperador transbordarem novamente, fazendo os amantes reviverem uma vez mais, vamos abandonar o corpo que começa a esfriar em um palacete na antiga rua do Carmo, no centro de São Paulo, e vê-lo ressurgir jovem, saudável, repleto de vida, às vésperas da Independência Brasileira.
 (Pág. 24)

O vértice mais fraco do triângulo amoroso partia-se. Ainda no sul, ao saber da morte da esposa, D. Pedro escreveu um poema lamentando sua perda. Em um trecho, diz: “Ela me amava com o maior amor/Eu nela admirava a sua honestidade.” Ele tinha certeza que D. Leopoldina o amava, porém ele tinha por ela somente admiração. Admirava a mulher que, além de ser mãe de seus filhos, havia embarcado com ele na aventura da Independência do Brasil e no liberalismo político, apesar de ter sido criada dentro dos rigores do absolutismo austríaco. D. Leopoldina era muito mais culta, educada e preparada que D. Pedro. Além de trocar correspondência com naturalistas na Europa e receber visitantes estrangeiros que aportavam no Brasil, servira de intérprete ao marido diversas  vezes junto aos militares alemães que vieram ingressar nas tropas de mercenários estrangeiros. Seu importante papel na Independência junto às cortes européias no reconhecimento do novo estado americano é inegável.
 (Pág. 61)

Quotes Cartas
(...) ontem mesmo fiz amor de matrimônio para que hoje, se mecê estiver melhor e com disposição, fazer o nosso amor por devoção. Aceite, meu benzinho, meu amor, meu encanto e meu tudo, o coração constante/ Deste seu fiel amante/ O Demonão
 (Pág. 104)

(...) não lhe pareça, meu amor, que esta linguagem é da boca para fora ou filha da astúcia ou da velhacaria própria dos falsos amantes: mas não é. É filha do meu coração arrependido que todo se derrete em amor quando se lembra que de tão longe mecê veio, e que tanto tempo ausente se mostrou constante.
(Pág. 161)

(...) vou fazer a barba para mecê não ser arranhada à noite por / Este seu desvelado, agradecido, fiel, constante e verdadeiro amante/ O Imperador
(Pág. 178)

"Filha, pelo amor que tens a nossas filhas, não me faças por tuas inconsideradas expressões (e por mim não merecidas) atormentar-me eu. Filha, estou (pergunta a teu mano João) com a cara mais abatida, e muito mais ficará se em lugar de receber de ti agradáveis expressões eu na tua carta achar o contrário. Filha, eu te quero muito, tu bem o sabes, e se te não quisesse nada te diria, nem excogitaria todos os dias modos e entradas para te ir ver."
(Pág. 229)


Achei a grafia do Imperador e principalmente da Marquesa bem fácil, se comparadas à outras da época, de entender. Algumas palavras e até frases, sem espiar a transcrição, consegui ler. Bom, o autor esteve no Programa do Jô, assim como Laurentino Gomes e Mary Del Priore, escritores populares de obras sobre a História do Brasil.





Agora volto a ler Os Sertões...

domingo, 23 de outubro de 2011

Laurentino Gomes - 1808


1808
Autor(a): Laurentino Gomes
Editora: Planeta do Brasil
Páginas: 408
Gênero: Geografia e História / História do Brasil

Sobre: A fuga da família real portuguesa para o Rio de Janeiro ocorreu num dos momentos mais apaixonantes e revolucionários do Brasil, de Portugal e do mundo. Guerras napoleônicas, revoluções republicanas, escravidão formaram o caldo no qual se deu a mudança da corte portuguesa e sua instalação no Brasil. O propósito deste maravilhoso livro, resultado de dez anos de investigação jornalística, é resgatar e contar de forma acessível a história da corte lusitana no Brasil e tentar devolver seus protagonistas à dimensão mais correta possível dos papéis que desempenharam duzentos anos atrás. Escrita por um dos mais influentes jornalistas da atualidade, "1808" é o relato real e definitivo sobre um dos principais momentos da história brasileira.

Opinião: Bom, se você não tem paciência ou ainda não possui a competência de ler Varnhagen, Oliveira Lima, José Honório Rodrigues ou qualquer outro historiador, e só quer saber um pouco mais sobre o Brasil Colonial de 1808-1820 que é mostrado nos livros didáticos ou o pouco que é veiculado na mídia, seria muito interessante ler este livro.
Gravuras legais, linguagem simples e comentários interessantes do autor. O que mais gostei e ri foi a descrição da falta de higiene dos portugueses - principalmente do único banho de D. João e do próprio fazer suas necessidades fisiológicas ao ar livre e na frente de outras pessoas. Sem contar que foi muito estranho saber que os empregados o limpava após isso, enfim, tenho que parar de fazer anacronismos e julgar estranho o que era costume há dois séculos. Gostaria que o autor tivesse falado mais sobre os escravos e não tanto da família real e as conseqüências de sua fuga, mas foi válido saber o pouco que ele disse; fiquei muito sentida quando soube dos "Tigres", surpresa quando soube que já haviam "diaristas" há dois séculos. Conheci também alguns personagens importantes que os livros didáticos, pelo menos da minha época, não mostram como o Marrocos e a importância de suas cartas para investigações do período. 
Gostei bastante, serviu como uma introdução aos livros que terei que ler, antes ainda vou ler o 1822 e descobrir um pouco sobre a verdadeira independência. 

Quotes:


Nunca, em toda a história da humanidade, as monarquias européias tinham vivido tempos tão turbulentos e atormentados. Foi o período em que reis e rainhas eram perseguidos, destituídos, aprisionados, exilados, deportados ou mesmo executados em praça pública. Em resumo, era uma época em que os monarcas literalmente perdiam a cabeça. 
(pág 38 e 39)


A urina e as fezes dos moradores, recolhidas durante a noite, eram transportadas de manhã para serem despejadas no mar por escravos que carregavam grandes tonéis de esgoto nas costas. Durante o percurso, parte do conteúdo desses tonéis, repleto de amônia e uréia, caía sobre a pele e, com o passar do tempo, deixava listras brancas sobre suas costas negras. Por isso, esses escravos eram conhecidos como "tigres".
(pág 144)


Esses mergulhos improvisados na Praia do Caju, a conselho do médico, são a única notícia que se tem de um banho de D. João nos treze anos em que permaneceu no Brasil. Quase todos os historiadores o descrevem como um homem  desleixado com a higiene pessoal e avesso ao banho. "Era muito sujo, vício de resto comum a toda a família, a toda a nação", afirmou Oliveira Martins. "Nem ele, nem D. Carlota, apesar de se odiarem discrepavam na regra de não se lavarem". A relutância da corte portuguesa em tomar banho contrastava com os costumes da colônia brasileira, onde o cuidado com o asseio pessoal chamava a atenção de quase todos os viajantes que por aqui passaram nessa época.
(pág 152 e 153)


Era a malandragem brasileira fazendo mais uma de suas performances de gala nas páginas da história nacional.
(pág 190)


Uma curiosidade é que muitos alforriados chegavam a enriquecer e se tornavam proprietários de escravos, terras e outros bens.
(pág 227)


A proibição de acesso importa pelos portugueses tornava a colônia ainda mais misteriosa, devido aos rumores que circulavam na Europa sobre as imensas riquezas minerais escondidas no subsolo e as infindáveis florestas tropicais repletas de plantas e animais exóticos e índios que ainda viviam na Idade da Pedra.
(pág 231)


"Os habitantes estão mergulhados em grande ignorância e sua conseqüência natural: o orgulho."
(pág 238)


O clima de ressentimento dos portugueses em relação ao Brasil pode ser medido no panfleto assinado por Manuel Fernandes Thomaz, um dos chefes revolucionários de 1820, no qual atacava de forma preconceituosa os brasileiros. Thomaz definia o Brasil como "um gigante em verdade, mas sem braços nem pernas, não falando no seu clima ardente e pouco sadio, (...) reduzido a umas poucas hordas de negrinhos, pescados nas costas da África, os únicos e só capazes de suportarem os dardejantes raios de uma zona abrasada". O panfleto, que provocou indignação no Rio de Janeiro, perguntava que lugar D. João deveria escolher para morar - "a terra dos macacos, dos pretos e das serpentes, ou o país de gente branca, dos povos civilizados, e amantes do seu Soberano." E terminava dizendo: "Voltemos agora os olhos daquele país selvagem e inculto, cá para esta terra de gente, para Portugal!".
(pág 279)

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

A América Portuguesa observada pelo Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro




10,0 na minha primeira prova. Não acreditei e não tô acreditando até agora na verdade. Tá que eu estudei quatro dias seguidos o dia todo - dois desses dias passei na biblioteca APENAS lendo muito, só levantei pra fazer um lanchinho e beber água; me esforcei muito, fiz uns quatro resumos até finalizar e ainda assim achava que ia tomar no máximo 5,0. O meu desespero todo é porque me baseio nos artigos e dissertações que os professores nos dão, penso que o certo(e é) é escrever daquele jeito, e tô bem looooonge de escrever como eles, e é por isso que eu fico tão desesperada achando que minha redação (isso não foi uma dissertação, não mesmo) está péssima. Enfim, eu necessitava registrar (tô pegando mesmo o hábito dos historiadores) isso aqui pra caso, vai saber, eu perder a prova haha.

Questão Única:

ESCOLHA, um dos temas apresentados abaixo e desenvolva uma dissertação que relacione todo o conjunto dos textos contidos no tema selecionado. Todos os textos foram debatidos durante as aulas de História da América Portuguesa:

Tema 1 - Cronistas, corógrafos e viajantes: Uma história revisitada

SOUSA, Gabriel Soares e. Tratado Descritivo do Brasil em 1587. Rio de Janeiro: 1851
SALVADOR, Fr. Vicente. História do Brasil (c. 1630). Rio de Janeiro: 1888.
PITTA, Sebastião da Rocha. História da América Portuguesa. Lisboa: 1730

Tema 2 - A América Portuguesa observada pelo Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro

MARTIUS, Karl F. P. von. Como se deve escrever a História do Brasil. Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Rio de Janeiro: 1840
CEZAR, Temístocles. Varnhagen em movimento: breve antologia de uma existência. Topoi, 2010.


Ps: Meu seminário foi sobre o primeiro tema, mas escolhi o 2º - por ser o mais simples e "mais fácil de dominar". Na verdade, a maioria da sala escolheu o segundo tema, um ou dois fizeram sobre o primeiro. Enfim, eis o meu projeto de dissertação:



A mudança da família real portuguesa para o Brasil, em 1808, foi um momento de grande ruptura e proporcionou grandes mudanças no Brasil. Essa mudança foi o que trouxe o médico bávaro Karl Martius, em 1817, na comitiva que incluía botânicos e naturalistas a fim de estudar plantas, animais, minérios e indígenas brasileiros (GOMES, Laurentino: 1808). Um ano antes da chegada de Martius nascia Francisco Adolfo de Varnhagen, em Sorocaba na Província de São Paulo. Karl Martius conheceu o Brasil das grandes perspectivas de futuro, onde emigrantes tinham grandes oportunidades de enriquecer; onde o comércio de escravos e a exploração de minérios estava em evidência e o Brasil, no período explorado por Karl Martius (1817-1820), ainda era colônia de Portugal. Varnhagen, na segunda edição de História Geral do Brasil (1877) não vê alterações na situação do Brasil, de acordo com temístocles Cezar, desde as viagens e descrições de Karl Martius - e outros - que conheceram o Brasil nos anos 1810-1820; além é claro, da mudança de colônia para império.

Por falta de uma historiografia* completa do Brasil, o IHGB (Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro) pediu, em sua revista, para que os comunicassem idéias que pudessem contribuir para esse feito. Em Como se deve escrever a história do Brasil, publicado em 1843, Karl Martius orienta os pontos e aspectos que devem ser escritos e observados ao mesmo tempo em que faz uma colocação do perfil do historiador: pragmático, prático, que descreve os fenômenos históricos considerando seu contexto, o que antecede e o que sucede os fatos. Um ano antes da publicação da dissertação de Karl Martius, em 1842, Varnhagen após legitimar sua nacionalidade brasileira (por ordens do imperador) é nomeado historiador - também por decreto -, com "a missão de pesquisar os documentos relativos à história, à geografia e à legislação do Brasil" segundo Temístocles. Missão essa que ele cumpre com muita dedicação e pesquisa viajando por grande parte do Brasil a fim de averigüar fontes e descrições de outros historiadores/cronistas como Pero Lopes de Sousa e Gabriel Soares e Sousa. Varnhagen acreditava na verdade histórica tendo como fonte os arquivos e documentos oficiais, era monarquista e descrevia o Brasil português, com a mentalidade dos administradores portugueses. E é nesse ponto que as idéias de Karl Martius e Francisco Adolfo de Varnhagen divergem.

Karl Martius também era monarquista, mas ele acreditava ser essencial o estudo e análise dos índios e negros que "contribuíram para o desenvolvimento físico, moral e civil da população" como um todo; os portugueses, a raça branca ou caucasiana, segundo Karl Martius, era o "mais poderoso e essencial motor" do Brasil. Diferente de Varnhagen que, após um assalto na Estrada Real, "passou a criticar veemente o romantismo indigenista" (Temístocles) e não vê importância e pontos positivos em escrever sobre índios (embora tenha escrito, em francês, um livro onde, segundo Temístocles, "procura provar através da filologia comparada e da etnografia, que a origem dos índios brasileiros encontrava-se no mundo antigo"). No século XIX as teorias do Darwinismo social manifestou-se em toda a Europa, Karl Martius sendo bávaro e Varnhagen além de monarquista e fiel ao Imperador, morando, pesquisando, publicando e fazendo palestras na Europa, ambos, influenciados por essas teorias e pelos motivos anteriormente citados, excluíam os índios e negros como brasileiros da historiografia do Brasil.

Uma obra histórica deve despertar nos leitores brasileiros o patriotismo e "todas as virtudes cívicas" segundo Karl Martius. Varnhagen foi o historiador que melhor desempenhou o tão descrito historiador pragmático de Martius. Desconfiou-se de sua lealdade para com a nação devido às constantes viagens pelo exterior e poquíssima e rara permanência no Brasil, seu casamento com a chilena Carmen Vicuña, os filhos nascidos no exterior e seu sobrenome de origem germânica. para Temístocles Cezar escrever sobre o Brasil foi a forma que Varnhagen encontrou para estar entre os brasileiros e para se autoafirmar brasileiro. Sua imensa obra dedicada a historiografia brasileira se não despertou o patriotismo nos brasileiros ao menos provou sua lealdade ao Império brasileiro.

Conclue-se portanto que, para Karl Martius, o estudo das raças indígenas e etiópica contribuem consideravelmente para a análise da etnografia (descrição do povo) brasileiro; mas que, tanto para Martius quanto para Varnhagen, a raça branca predomina. O Brasil dos anos 1810-1820 de Martius era uma colônia que proporcionava oportunidades de enriquecimento para os emigrantes, com a vinda do rei D. João VI foram construídos bancos, estradas, praças, etc; foram distribuídos, entre 1808 e 1822 mais títulos do que em trezentos anos em Portugal, segundo Laurentino Gomes em 1808. O Brasil de Varnhagen era o império regido por D. Pedro II onde as "manifestações" contra o fim do império ocorriam com freqüência, fato que, pela condição de monarquista, era criticado por Varnhagen.




* História - correção do professor.
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