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sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

João José Reis, Flávio dos Santos Gomes e Marcus J. M. de Carvalho - O Alufá Rufino: tráfico, escravidão e liberdade no Atlântico Negro (c. 1822 - c.1853)

Foto: Maiara Alves



O Alufá Rufino: Tráfico, Escravidão e Liberdade no Atlântico Negro (c. 1822 - c.1853)
ISBN: 9788535917369
Autor(es): João José Reis, Flávio dos Santos Gomes e Marcus J. M. de Carvalho
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 520
Gênero: História do Brasil/Escravidão e Liberdade


Sobre: Nascido no antigo reino africano de Oyó, escravizado na adolescência por um grupo étnico rival, adquirido por traficantes brasileiros e levado para Salvador da Bahia, o protagonista destas fascinantes páginas da história do Brasil teve sua biografia dividida pelo oceano. A vida de Rufino José Maria foi plena de aventuras e desventuras. Após conseguir sua alforria, foi cozinheiro assalariado de navios negreiros e, na maturidade, tornou-se alufá, espécie de guia espiritual da comunidade de negros muçulmanos no Recife. O livro demonstra como o tráfico e a escravidão moldaram de modo decisivo este personagem e o mundo em que ele viveu.

Opinião: Um dos livros de Escravidão e Liberdade e História do Brasil mais fascinantes da nossa historiografia e uma das poucas produções bibliográficas que conseguem enaltecer de uma forma brilhante seu conteúdo. Tráfico e escravidão não são meu forte, na verdade não tenho condições emocionais alguma de estudar qualquer tipo de escravidão, principalmente a moderna, mas devido ao nosso ilustre historiador baiano, João José Reis, ainda lerei muitos livros sobre o tema - mesmo porque é necessário compreender essa passagem da nossa história. A forma como os autores contam o tráfico e a escravidão na primeira metade do XIX é incrível: a partir de resquícios de documentos que mostram os itinerários de um ex-escravo nagô que integra o comércio transatlântico de escravos, os autores investigam como se dava o tráfico no XIX, quando o governo inglês reprimia de todas as formas o tráfico e, consequentemente, a escravidão. Vemos também o relato incrível de uma empresa de tráfico ilegal de escravos, que burlava a vigilância e leis dos governos do Brasil e Inglaterra. A micro-história é uma das abordagens mais fascinantes e bem elaborada para se escrever história: é uma linguagem cinematográfica da escrita.

Publicado em 2010 pela Companhia das Letras, a biografia de Rufino e os relatos do tráfico, escravidão e liberdade na primeira metade do séc. XIX, foi escrita por três pesquisadores especialistas no assunto: João José Reis, Flávio dos Santos Gomes e Marcus J. M. de Carvalho que pesquisam o tema, especificamente, na Bahia, Rio de Janeiro e Recife, respectivamente - locais no qual Rufino deixou sua marca. O livro foi escrito sob a perspectiva da micro-história, uma abordagem que, a partir de um personagem ou um objeto específico, relata-se além de sua particularidade, o contexto sócio-histórico em que está incluso. É como se, a partir de uma garrafa/lata de coca-cola, além de contar a história de sua criação e "evolução", pode-se relatar também o imperialismo estadunidense, a crise de 1929, primeira e segunda guerras mundiais, guerra fria e parte da história econômica e ideológica do séc. XX, na qual a marca de refrigerante está inserida. O livro é dividido em três partes, onde a partir da saída de Rufino do Benim, na África (entre 1822-23), até sua estadia no Recife (1853), ou seja, aproximadamente 31 (trinta e um) anos dos itinerários de Rufino e do comércio transatlântico de escravos. 

Na primeira parte do livro, os autores relatam a saída de Rufino do Benim, no continente africano, sua chegada à Bahia durante as lutas pela Independência em 1822-23, sua ida para Porto Alegre onde é alforriado, assim como sua tentativa falha de estabelecer-se no Rio de Janeiro, onde se vê obrigado a integrar o tráfico negreiro como alternativa de fugir da repressão na província do Rio de Janeiro à escravos e ex-escravos nagôs. A segunda parte é a mais interessante e fascinante do livro, pois a partir dos itinerários de Rufino, os autores encontram peças de um enorme quebra-cabeça onde está registrada a existência de verdadeiras empresas de tráfico de escravos em plena luta jurídica e "bélica" inglesa pelo fim da escravidão. Após chegar ao Brasil como escravo, ser alforriado, trabalhar no tráfico de escravos entre o Brasil e a costa leste da África como comerciante e cozinheiro nas embarcações, Rufino retorna ao Brasil passando a atuar como Alufá, um guia espiritual do "afro-islamismo-brasileiro" em Recife, na terceira parte do livro. Fiz um resumo bem medíocre, obviamente o livro é muito mais grandioso no qual, a partir da minuciosa investigação dos historiadores, descobrimos o subterrâneo das relações sócio-econômicas que envolvia o Brasil, os países da costa leste africana e o tráfico transatlântico de escravos e comércio de especiarias. 

A obra é a ilustração do quão importante e fascinante é o trabalho do historiador. A partir dos relatos do interrogatório do apresamento da embarcação Ermelinda e das duas prisões de Rufino, os autores têm suas primeiras peças da vida de Rufino após sua chegada no Brasil e o comércio de escravos e especiarias dentro destes trinta e um anos. É um trabalho de investigação, uma peça aqui e ali, na qual com muita dedicação tenta-se reconstruir o mais fidedignamente possível uma das mais importantes páginas da história do Brasil e da África. O quebra-cabeças ainda tem muitos vácuos, mais vácuos do que peças completas, porém este trabalho é uma forma de incitar novos pesquisadores de tráfico negreiro, assim como mais abordagens utilizando a micro-história. Gostei mais que tudo desta última parte, da estrutura que os autores utilizaram para relatar suas investigações, me inspirou, na verdade a buscar sempre mais e mais fontes, mais leituras, etc. Sublinhei poucas passagens, pois o li para apresentar um seminário e não como costumo ler. 

Quotes

A década de 1820, sobretudo sua segunda metade, foi o momento de mais alto pico do tráfico para a Bahia no século XIX. (p. 35)
Como podes negar um amor quando dão testemunho dele contra ti provas irrefutáveis de lágrimas e esgotamento? O amor apaixonado lavrou duas linhas com pranto e moléstia. Sim, visitou-me à noite o fantasma daquela que amo e me deixou insone. O amor mescla prazeres com dor. (p. 58-59)  
O cozinheiro de um navio negreiro, em suma, era um dos principais responsáveis - talvez mais do que o cirurgião, quando existia um abordo - pela manutenção da taxa de sobrevivência dos cativos dentro de margens aceitáveis de lucro. (p. 102) 

domingo, 12 de agosto de 2012

Euclides da Cunha - Os Sertões

Foto: Maiara Alves
Os Sertões
ISBN: 9788520925966
Autor: Euclides da Cunha
Editora: Nova Fronteira/Saraiva de Bolso
Páginas: 598
Gênero: História/Geografia

Sobre: Em estilo épico, Euclides da Cunha criou uma das obras-primas da literatura brasileira, descrevendo as batalhas entre os homens liderados pelo beato Antônio Conselheiro e as tropas do governo. Euclides, testemunha ocular da chamada Campanha de Canudos, narra a luta, observa a terra e analisa o homem num belo relato que destaca a determinação do sertanejo e busca compreender o fenômeno da liderança exercida por Conselheiro sobre milhares de pessoas.

Opinião: O ano é 1987. O carioca Euclides da Cunha é enviado pelo jornal paulista, O Estado de São Paulo, para acompanhar o conflito de Canudos, aqui na Bahia. O engenheiro, jornalista, professor, ensaísta, historiador, sociólogo e poeta talvez não soubesse que esse trabalho resultaria em um dos melhores livros da literatura brasileira e que marcaria seu nome para sempre na História do Brasil. Este fato ilustra a noção que defendo com vigor: nada é por acaso. Mas acima de tudo, Os Sertões apresentou ao Brasil o sertanejo, o homem que foi guardado pela condição de seu meio, pela natureza, e que representa a verdadeira nacionalidade brasileira.

Dividido em oito capítulos ("A terra"; "O homem"; "A luta"; "Travessia do Cambaio"; "Expedição de Moreira César"; "Quarta expedição"; "Nova fase da luta"; "Últimos dias"), Cunha descreve não só a Campanha de Canudos, como também a terra e o homem que o centro político-econômico do Brasil recém inaugurada República ignorava até então. É um registro das consequências que o golpe republicano causou nos grupos sociais, onde a nova situação do país apenas agravaram-lhe o sofrimento causado pela situação climática. Entre outras coisas, é também uma aula de português: a escrita de Euclides da Cunha é impecável e, para o leitor atual, rende uma quantidade vergonhosa de consultas ao dicionário. Há inúmeras discussões e análises ao longo dos cento e doze anos em que o livro foi para as prateleiras de livrarias e bibliotecas (e para as nossas), cada qual de acordo com o assunto em pauta do momento, a política vigente e a orientação e interesse político-ideológico de quem o analisa. Destaco, obviamente, o segundo capítulo, "o Homem", no qual Cunha descreve as interferências do clima, da terra, da situação política, da colonização e povoamento e do sertão em si, no homem que habita esta terra inóspita.

O sertanejo é, antes de tudo, um forte (p. 118). É uma das citações mais famosas e tem sido muito utilizada este ano por conta do centenário de nascimento de Luiz Gonzaga. Mas há cento e dez anos, Euclides da Cunha, a partir da observação do genocídio ocorrido em Canudos, assim descreveu o homem que sobrevivia [nos] dias claros e quentes, dos firmamentos fulgurantes, do vivo ondular dos ares em fogo sobre a terra nua (p. 139) esquecido desde o início por seus governantes e pelo resto do mundo. Esquecido pois, desde seu povoamento ainda no século XVI, o local que atualmente denominamos de sertão, foi utilizado e "povoado" com o objetivo de expandir a criação de gado que alimentaria a população do litoral e que tinha grande serventia no cultivo da cana-de-açúcar. Sabemos que nosso país não foi descoberto e que haviam povos em todo o continente com cultura e modo de vida próprios, e para a criação de gado, assim como no litoral para o cultivo da cana-de-açúcar no século XVI e XVII, milhões desses povos foram cruelmente assassinados por causa da acumulação de capital que enriqueceu a metrópole e seus aliados e que nos empobreceu e resultou nessa vida miserável. Dois séculos depois, Euclides da Cunha documenta em Os Sertões o modo de vida do homem resultado da miscigenação entre os povos originários (os "índios), o africano que criou o gado e cultivou a cana e o colonizador: o sertanejo é consequência da mistura entre o algoz, a vítima e fruto da natureza cruel.

Assim como os povos originários (os "índios") foram assassinados nos séc. XVI e XVII no povoamento do interior do país, do sertão, os sertanejos que sofriam com a seca e com o esquecimento das instituições governamentais, e decidiram seguir aquele que lhes profetizava um país melhor, Antônio Conselheiro, também foram dizimados no fim do séc. XIX em prol dos interesses daqueles que deveriam lhe proteger, em prol do Estado. As coisas realmente não mudam, permanecem de fato com pouca diferença. Além de descrever a miscigenação do sertanejo, ainda nos moldes do darwinismo social, Cunha observou que esse povo é antes de tudo, forte, pois em meio ao abandono, a agressividade do meio ele resiste e luta bravamente até seu limite. A descrição do homem e da terra é apaixonante, não tem nada de pomposo - e se assim parece, considero que o esmero é por afeição específica à este trabalho.

É um clássico, nem se eu passasse o resto da vida lendo e escrevendo sobre essa obra de Cunha e sobre o próprio autor não conseguiria fazer uma análise satisfatória de ambos, mas o recomendaria sobretudo àqueles que tem curiosidade sobre a formação da nacionalidade brasileira e pra desconstruir a colonização cultural da qual somos vítimas. O sertão é apaixonante, os sertanejos são a essência do nosso povo e espero que um dia todos percebam a importância e dêem o merecido valor à eles.

Quotes
Delinearam-nos os que se afoitaram primeiro com as vicissitudes de uma entrada naquelas bandas. E persistem indestrutíveis, porque o sertanejo, por mais escoteiro que siga, jamais deixa de levar uma pedra que calce as suas junturas vacilantes. (p. 29)
Nem um verme - o mais vulgar dos trágicos analistas da matéria - lhe maculara os tecidos. (p. 43)
Ao passo que a caatinga o afoga; abrevia-lhe o olhar; agride-o e estoneia-o; enlaça-o na trama espinescente e não o trai; repulsa-o com as folhas urticantes, com o espinho, com os gravetos estalados em lanças; e desdobrase-lhe na frente léguas e léguas, imutável no aspecto isolado: árvores sem folhas, de galhos estorcidos e secos, revoltos, entrecruzados, apontando rijamente no espaço ou estirando-se flexuosos pelo solo, lembrando um bracejar imenso, de tortura, da flora agonizante... (p. 50)
É a árvore sagrada do sertão. Sócia fiel das rápidas horas felizes e longos dias amargos dos vaqueiros. Representa o mais frisante exemplo de adaptação da flora sertaneja. (p. 57-58)
E o sertão é um paraíso... (p. 59)
E o sertão é um vale fértil. É um pomar vastíssimo, sem dono. (p.62)
Vinham esparsas, parceladas em pequenas levas de degregados ou colonos contrafeitos, sem o desempenho viril dos conquistadores. (p. 95)
O meio atraía-os e guardava-os. (p. 105)
O sertanejo é, antes de tudo, um forte. Não tem o raquitismo exaustivo dos mestiços neurastênicos do litoral. (p. 118)
A luta pela vida não lhe assume o caráter selvagem da dos sertões do Norte. Não conhece os horrores da seca e os combates cruentos com a terra árida e exsicada. Não o entristecem as cenas periódicas da devastação e da miséria, o quadro assombrador da absoluta pobreza do solo calcinado, exaurido pela adustão dos sóis bravios do equador. Não tem, no meio das horas tranquilas da felicidade, a preocupação do futuro, que é sempre uma ameaça, tornando aquela instável e fugitiva. Desperta para a vida amando a natureza deslumbrante que o aviventa; e passa pela vida, aventureiro, jovial, diserto, valente e fanfarrão, despreocupado, tendo o trabalho como uma diversão que lhe permite as disparadas, domando distâncias, nas pastagens planas, tendo aos ombros, palpitando aos ventos, o pala inseparável, como uma flâmula festivamente desdobrada. (p. 121)
Atravessou a mocidade numa intercadência de catástrofes. Fez-se homem, quase sem ter sido criança. Salteou-o, logo, intercalando-lhe agruras nas horas festivas da infância, o espantalho das secas do sertão. Cedo encarou a existência pela sua face tormentosa. É um condenado à vida. Compreendeu-se envolvido em combate sem tréguas, exigindo-lhe imperiosamente a convergência de todas as energias. Fez-se forte, esperto, resignado e prático. Aprestou-se, cedo, para a luta.  (p. 122)
A terra é o exílio insuportável, o morto um bem-aventurado sempre. (p. 145)
Espécie de grande homem pelo avesso, Antônio Conselheiro reunia no misticismo doentio todos os erros e superstições que formam o coeficiente de redução da nossa nacionalidade. (p. 177-178)
Ao passo que as caatingas são um aliado incorruptível do sertanejo em revolta. Entram também de certo modo na luta. Armam-se para o combate; agridem. Trançam-se, impenetráveis, ante o forasteiro, mas abrem-se em trilhas multívias, para o matuto que ali nasceu e cresceu. E o jagunço faz-se o guerrilheiro-tugue, intangível... As caatingas não o escondem apenas, amparam-no. (p. 234)
O exército sente na própria força a própria fraqueza. (p. 238)
Cercam-lhe relações antigas. Todas aquelas árvores são para ele velhas companheiras. Conhece-as todas. Nasceram juntos; cresceram irmãmente; cresceram através das mesmas dificuldades, lutando com as mesmas agruras, sócios dos mesmos dias remansados. (p. 239)
Quase sempre, depois de expugnar a casa, o soldado faminto não se forrava à ânsia de almoçar, afinal, em Canudos. Esquadrinhava os jiraus suspensos. Ali estavam carnes secas ao Sol; cuias cheias de paçoca, a farinha de guerra do sertanejo; aiós repletos de ouricuris saborosos. (p. 322)
A correria do sertão entrava arrebatadamente pela civilização adentro. E a guerra de Canudos era, por bem dizer, sintomática apenas. O mal era maior. Não se confinara num recanto da Bahia. Alastrara-se. Rompia nas capitais do litoral. O homem do sertão, encourado e bruto, tinha parceiros por ventura mais perigosos. (p. 346)
E os infelizes baleados, mutilados, estropiados, abatidos de febres, começaram a viver da esmola incerta dos próprios companheiros...  (p. 417)
E sobre tudo aquilo uma monotonia acabrunhadora... A sucessão invariável das mesmas cenas no mesmo cenário pobre, despontando às mesmas horas com a mesma forma, davam aos lutadores exaustos a impressão indefinível de uma imobilidade no tempo. (p. 423)
Há nas sociedades retrocessos atávicos notáveis; e entre nós os dias revoltos da República tinham imprimido , sobretudo na mocidade militar, um lirismo patriótico que lhe desequilibrara todo o estado emocional, desvairando-a e arrebatando-a em idealizações de iluminados. A luta pela República, e contra seus imaginários inimigos, era uma cruzada. Os modernos templários se não envergavam a armadura debaixo do hábito e não levavam a cruz aberta nos copos da espada, combatiam com a mesma fé inamolgável. (p. 446)
Torturavam-nos alucinações cruéis. A deiscência das vagens das caatingueiras, abrindo-se com estalidos secos e fortes, soava-lhes feito percussão de gatilhos ou estalhos de espoleta, dando a ilusão de súbitas descargas de alguma algara noturna repentina (...). (p. 460)

sábado, 16 de junho de 2012

Laurentino Gomes - 1822

Foto: Maiara Alves
1822
ISBN: 9788520924099
Autor: Laurentino Gomes
Editora: Nova Fronteira
Páginas: 351
Gênero: História do Brasil

Sobre: Nesta nova obra, o escritor Laurentino Gomes, autor do best-seller 1808, sobre a fuga da família real portuguesa para o Rio de Janeiro, mostra como o Brasil, um país que tinha tudo para dar errado, deu certo em 1822 por uma notável combinação de sorte, improvisação, acasos e também de sabedoria das lideranças responsáveis pela condução dos destinos do novo país, naquele momento de grandes sonhos e muitos perigos.

Opinião: Comprei o livro em Abril do ano passado, quando ainda não estudava História e só o li este ano - acredito que no momento certo -, quase no fim da disciplina que aborda a transição no Brasil de Colônia para Império. Não tiro seu valor: foram milhares de cópias vendidas entre o 1808 e este, 1822; é importante também que o livro tenha não apenas sido bastante vendido, como também lido, porém o jornalista deixa brechas para interpretações inocentemente tendenciosas de leigos. E isto é grave.

Divido em 22 capítulos, com um recorte de 45 anos (1789-1834: desde a decapitação dos monarcas franceses, à morte de D. Pedro I) e utilizando fontes impressas o autor relata os fatos que culminaram no cultuado 1822. Gomes neste livro foi orientado por Alberto da Costa e Silva, renomado historiador, e também diplomata, brasileiro. Mas, talvez por esta condição e com o objetivo de valorizar possíveis laços entre Brasil e Portugal (como foi o objetivo de 1808) relata que o Processo de Independência do Brasil "resultou menos da vontade de brasileiros do que das divergências entre os próprios portugueses" (p.21). Os portugueses contribuíram sim, mas a Independência política do Brasil de Portugal foi muito além disto, como disse na minha prova.

Sobre este assunto, uma das principais questões de debate para historiadores é: como a América portuguesa permanceu unida enquanto que a América espanhola se fragmentava em territórios independentes? Para Gomes, baseado em Sérgio Buarque de Holanda e Maria Odila Leite da Silva Dias, a elite colonial de todas as províncias temiam uma rebelião escrava (como a do Haiti, por exemplo), já que estes constituiam a maior parte da população. Outro ponto interessante é sobre o "mito" do grito da Independência e sobre o famoso quadro de Pedro Américo veiculados nos livros didáticos: para alguns não ouve o grito e o quadro de Américo teria sido inspirado em "Napoleão Friedland" do francês Jean-Louis Ernest.

Imagem: Google Imagens/Reprodução
Gomes ressalta que a obra de Américo tinha o objetivo de fortalecer o ocorrido bem como o imaginário às vésperas da proclamação oficial da República. Além desse mito, Gomes desconstrói (ou mostra apenas determinadas versões) outros como o grito no Rio Ipiranga ou D. Pedro ter composto o atual Hino da Independência. Além de enaltecer a relação histórica entre Portugal e Brasil, o autor elege José Bonifácio à patriarca da Independência e afirma que "sem ele, o Brasil de hoje provavelmente não existiria" (p.146). Um leitor leigo interpretaria isto de forma errônea, pois da mesma forma que os historiadores não sabem o que manteve o Brasil unido no século XIX não se pode creditar apenas uma pessoa à isto, Bonifácio contribuiu sim para o Processo de Independência, bem como nas medidas que mantiveram o território unido, mas creditá-lo somente surtiria o mesmo efeito que os positivistas objetivam com a história tradicional e todo o trabalho do autor (e de historiadores com outras obras) em desconstruir os mitos e interpretações tendenciosas a respeito do que ocorreu em 1822 seria em vão. 

Uma das brechas está na página 220, quando sobre o Poder Moderador o autor afirma:
"Lido ao pé da letra, poderia dar a entender que D. Pedro I mantinha a condição de monarca absoluto, tanto quanto haviam sido seu pai, D. João VI, sua avó, D. Maria I, e seu bisavô, D. José I. Mas era só aparência. O simples fato de haver uma constituição, ainda que outorgada, significava que o poder do imperador, doravante, tinha limites."
Na teoria o Poder Moderador tinha limites sim, mas assim como a nossa constituição atual, nem sempre as leis se fazem na prática e isso ocorreu com o Poder Moderador; da forma como o autor colocou subentende-se que não. Outra colocação "perigosa" é a de que o inglês Cochrane teria decidido a Independência aqui na Bahia, e, assim como não devemos creditar as medidas de Bonifácio, como conselheiro do Imperador, à respeito da união do território na época, responsabilizar Cochrane pela vitória dos brasileiros sob os portugueses pela Independência aqui na Bahia é um erro.

Estou no fim do segundo semestre e pude ver algumas colocações equivocadas no livro, provavelmente daqui a alguns anos verei mais e mais, e só as percebi porque tive acesso à outras fontes, outros pontos de vista e esta é a mesma postura que todos que lêem livros de História (e de qualquer outra área de conhecimento) devem ter. Utilizei o livro, bem como outras fontes, para a prova sobre o processo de independência e o considero uma análise quase ampla da discussão historiográfica sobre a Independência.

Foto: Maiara Alves
Foto: Maiara Alves
Foto: Maiara Alves
Quotes
"A Independência do Brasil ocorreu no meio de uma transformação importante na economia brasileira. A produção de açúcar e a mineração de ouro e diamantes estavam em decadência. Eram as duas grandes riquezas que haviam sustentado a prosperidade da colônia e sua metrópole nos séculos anteriores. Muito dependente da mão de obra escrava, a produção açucareira entrara em declínio devido ao crescente combate ao tráfico negreiro pela Iglaterra e à mudança de tecnologia nos mercados competidores." p.59
"Pouco mais adiante, ao passar pela cidade de Paranaguá e a vizinha vila de Guaratuba, Saint-Hilaire encontrou pessoas em estado de desnutrição tão profunda que adquiriram o hábito de comer terra na tentativa de repor vitaminas e sais minerais." p.71
"Um segundo enigma tem a ver com a sua vida privada. Bonito, famoso, solteiro e sem filhos, Neukomm tem seu nome numa lista de quatro homossexuais não assumidos da corte de D. João, elaborada pelo antropólogo Luiz Mott, presidente do Grupo Gay da Bahia. Os outros três seriam D. João de Almeida de Melo ne Castro, o conde de Galvêas; Francisco Rufino de Sousa Lobato, visconde de Vila Nova Rainha; e o próprio D. João.". P. 78
"A Bahia decidiu o futuro do Brasil na sua forma atual, mas a festa do Dois de Julho é hoje praticamente desconhecida pelos brasileiros das outras regiões. Ao contrário do Carnaval, e apesar de também reunir milhares de pessoas, raramente é notícia nos jornais e emissoras de rádio e televisão fora da própria Bahia. Porém, um visitante desavisado que chegar à capital baiana nessa data perceberá logo ao desembarcar uma nota dissonante: o aeroporto de Salvador, que até alguns anos atrás se chamava Dois de Julho, mudou de nome. Agora, chama-se Luís Eduardo Magalhães, em homenagem ao político baiano falecido em 1998. É uma prova de que o coronel da atualidade será sempre mais lembrado do que todas as lutas gloriosas do passado." p.206
 Laurentino Gomes esteve no Programa do Jô, em 2010, falando sobre o livro.






A Transferência da Corte para o Brasil e o Processo de Independência (1808-1822)

Foto: Maiara Alves
 


 A Transferência da Corte para o Brasil e o Processo de Independência (1808-1822)

A Independência do Brasil é resultado de um processo intimamente relacionado aos ideais da Revolução Francesa no que concerne, entre outros fatores, à mudança da Família real portuguesa, às medidas de livre comércio e às manifestações nas províncias da América portuguesa e em Lisboa. Alguns historiadores atribuem à transferência da Família Real portuguesa para o Brasil como propulsora da Independência, onde a colônia foi consideravelmente transformada. O contexto em que seu deu o processo foi influenciado pelas idéias liberais oriundas da Revolução Francesa, contribuindo assim no processo de independência no que diz respeito às medidas da Coroa a partir do liberalismo no seu viés político-econômico.

Em 1807, após o imperador francês Napoleão Bonaparte decretar o bloqueio continental, que previa o fechamento dos portos europeus ao comércio de produtos britânicos, Portugal teve que escolher entre aderir o bloqueio continental ou aceitar a sugestão da Inglaterra, sua antiga aliada, de embarcar para o Brasil. O início do século XIX foram tempos difíceis na Europa para as monarquias, onde as guerras napoleônicas representavam o fim do Antigo regime, das monarquias absolutistas, que contribuiu para D. João VI decidir aceitar a oferta da Inglaterra. Há alguns anos, os conselheiros de D. João já cogitavam a mudança da Corte para o Brasil. D. Rodrigo de Souza Coutinho, em 1803, já aconselhava que em hipótese de invasão francesa, existiria "a certeza de ir em qualquer caso V.A.R. criar no Brasil um grande império, e segurar para o futuro a reintegração completa da monarquia em todas as suas partes" (CARVALHO, Marieta: Uma idéia de cidade ilustrada: as transformações urbanas da nova corte portuguesa (1808-1822). Porém, foi o acordo de 1807 com a Inglaterra - que consistia na troca de proteção naval durante a viagem para o Rio de Janeiro, pela abertura dos portos do Brasil ao comércio com as nações estrangeiras - que trouxe a Corte para o Brasil em 1808. Esta mudança da Corte para a Colônia resultou em medidas que aceleraram o processo de Independência.

Na primeira escala no Brasil, em Salvador, o príncipe regente põe em prática o acordo assinado com a Inglaterra, abrindo os principais Portos ao comércio com as nações amigas. José da Silva Lisboa, economista e jurista baiano, influenciado pelo liberalismo econômico de Adam Smith, aconselhou D. João abrir os principais Portos do Brasil - e não apenas o de Santa Catarina, como consistia no Tratado de 1807 -, apresentando-lhe a conveniência em liberar o comércio do Brasil como forma de estimular o desenvolvimento econômico da Colônia (GOMES, Laurentino: 1808), fortalecendo assim o Império contra os princípios revolucionários franceses e contra Napoleão (KIRSCHNER, Tereza Cristina: Visconde de Cairu, Itinerários de um Ilustrado Luso-Brasileiro). Essa medida régia consistia quase que no fim do pacto colonial, onde a América portuguesa praticamente deixava de ser colônia - no que concerne ao monopólio exercido pela metrópole -, influenciando consideravelmente o processo de emancipação política do Brasil de Portugal. 

Após 35 dias em Salvador, no dia 26 de Fevereiro, D. João VI embarca para o Rio de Janeiro onde toma a medida de concessão de liberdade de comércio e indústria manufatureira, permitindo assim a instalação de indústrias no Brasil. Ainda em Salvador, o príncipe regente autorizou a abertura de novas estradas e rompeu o isolamento que até então vigorava entre as províncias (DIAS, Maria Odila: A Interiorização da Metrópole). D. João tomou várias outras medidas com o objetivo de transformar a colônia para reconstruir nos trópicos o império americano de Portugal, porém sua atenção estava voltada para o Rio de Janeiro, onde foram implantadas diretamente as principais mudanças - e, obviamente, ao alcance apenas da elite. Essas transformações voltadas principalmente para o Rio de Janeiro e outras províncias da atual região Sudeste, não agradaram às outras províncias que não foram tão beneficiadas quanto estas, gerando assim revolta da população de outras províncias.

A abertura dos portos e outras medidas, em 1808, resultaram na oposição dos negociantes da Bahia à Coroa, segundo a historiadora Tereza Cristina Kirschner, pois beneficiavam muito mais os estrangeiros do que portugueses e brasileiros. O tratado de 1810, onde nem os portugueses conseguiam competir com os produtos oriundos da Inglaterra - visto que as taxas alfandegárias eram vantajosas aos ingleses -, e também contribuiu para fomentar idéias, não só na província da Bahia como nas demais da atual região Nordeste, contra o governo do Rio de Janeiro onde a Corte havia se instalado e, a partir de 1815, se tornado capital do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves. Em 1817, na província de Pernambuco, essas idéias resultam em um movimento que refletia o descontentamento das províncias quanto ao pagamento de impostos pesados, impostos esses que financiavam as despesas da corte portuguesa no Rio de Janeiro.

O movimento em Pernambuco é consequência da disseminação das i´deias liberais francesa e americana no sentido político-econômico, em que os revolucionários, a fim de combater a opressão colonial que sentiam ainda haver sobre eles, pretendiam criar uma república independente na atual região Nordeste. Pelo breve período em que obteve êxito o novo governo não conseguiu apoio das outras províncias e, dois meses depois, tropas portuguesas invadiram recife e derrotaram a revolta. Mesmo tendo sido derrotada, a revolta causou apreensão no governo e abalou a confiança da Coroa, pois, segundo o historiador estadunidense Roderick Barman, em Brazil: the forging of a nation, "a estrutura da autoridade entrou em colapso porque os elementos da sociedade mais identificados com a Coroa tinham colaborado ativamente com o movimento rebelde." O movimento em Pernambuco foi um dos fatores que contribuíram para acelerar o processo de Independência, uma vez que foi articulado por membros da elite que pretendiam a emancipação do governo português para negociar diretamente com as nações amigas sem ter que pagar os altos impostos ao governo português, e por de certa forma, indiretamente influenciar a população de outras províncias.

Porém alguns historiadores, como Sérgio Buarque de Holanda, acreditam que a Independência é resultado das divergências entre portugueses, desencadeada na Revolução do Porto em 1820, e não no processo de mobilização da colônia na defesa de interesses comuns contra a dominação da metrópole. Infestados pelas idéias liberais, os portugueses exigiam, entre outras coisas, uma nova constituição, a volta de D. João VI para Portugal e do Pacto Colonia. D. João então volta para Portugal após transformar o Brasil e dar-lhe subsídios para se tornar um país independente.

A vinda da Família Real portuguesa para o Brasil, em 1808, contribuiu para acelerar o processo de independência uma vez que, talvez, tenha sido inevitável devido aos movimentos emancipacionistas que já existiam antes mesmo da vinda da Corte. As medidas régias aconselhadas pelos vários funcionários luso-brasileiros da Coroa portuguesa e conselhos da Coroa britânica - influenciado pelas idéias liberais político-econômicas -, de certa forma prepararam o Brasil para a emancipação, pois, segundo o historiador Alan Manchester em sua obra Presença Inglesa no Brasil, "o contato com o mundo exterior despertou a colônia entorpecida: introduziram-se nova gente, novo capital e novas idéias. Como consequência, os brasileiros acharam que seu destino era maior e mais importante". O historiador Oliveira Lima acredita que D. João assegurou a integridade nacional e deu início à classe dirigente que se responsabilizaria pela construção do novo país. Conclue-se então que, as medidas civilizatórias tomadas por D. João VI ao transferir a Corte portuguesa para o Brasil deram subsídios  e geraram conflitos que resultaram na emancipação política do Brasil de Portugal. O monarca português não deixou o país pronto, obviamente, mas contribuiu efetivamente para torná-lo independente.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Paulo Rezzutti - Titília e o Demonão

Foto: Maiara Alves
Títilia e o Demonão - Cartas Inéditas de D. Pedro I à Marquesa de Santos
Autor: Paulo Rezzutti
Editora: Geração Editorial
Páginas: 352
Gênero: História do Brasil

Sobre: Cartas do Imperador Dom Pedro I para a Marquesa de Santos que se imaginavam desaparecidas foram encontradas, quase dois séculos depois, pelo autor, num arquivo dos Estados Unidos, e revelam aspectos insuspeitados da vida sexual e política na corte imperial. Este livro vai ser um acontecimento na pesquisa histórica nacional. Transcritos e comentados com erudição ímpar, esses documentos profundamente humanos e de alto valor histórico nos mostram um jovem monarca impetuoso e apaixonado, bem humorado, que escreve coisas libidinosas à amante, tenta acalmar as crises de ciúme dela e tem também seus acessos emocionais. O livro revela um rico painel da vida cotidiana e política e dos costumes do Brasil durante o Primeiro Reinado.

Opinião: Em meio a instabilidade política que assolava o Brasil do início do séc. XIX, as negociações para validar o grito da Independência, a guerra da Cisplatina e as inúmeras revoltas que ameaçavam dividir o Brasil, D. Pedro vivia um dos seus romances extraconjugais mais conhecidos e comentados até hoje com Domitila de Castro Canto e Melo, a quem por capricho, amor e devoção, a nomeou camarista da Imperatriz (abril de 1825 após um vexame em público), Viscondessa de Santos (outubro de 1825) e finalmente - e como é mais conhecida - Marquesa de Santos (1826).

Domitila de Castro Canto e Melo nasceu em São Paulo, em 1797; aos quinze anos casou-se com o alferes Felício Pinto Coelho de Mendonça, então com vinte e quatro anos. O casal teve três filhos e um casamento tumultuado com diversos términos, conciliações e maus tratos. Domitila de Castro queixava-se à família que o marido a maltratava constantemente, seu bisneto José Tobias de Aguiar conta que “no afã de tirar seu ar aristocrático, obrigava-a a servir à mesa como uma serviçal qualquer, isso em pleno regime escravocrata” (REZZUTTI: 2010). Em 1819 seu marido, Felício Mendonça, a esfaqueou por suspeita de infidelidade, o autor nos lembra que era comum na época “o homem lavar a honra com o sangue da mulher adúltera”. O divórcio foi emitido em 1824 com intervenções do Imperador, obviamente, e a futura Marquesa ficou com a guarda das crianças.

D. Pedro e Domitila de Castro se conheceram em 1822, às vésperas do grito da Independência (grito da Independência este que só foi reconhecido por Portugal em 1825 que, além de pagar uma quantia considerável que deu início a divida externa, teve a intervenção da Inglaterra que visava a prorrogação do tratado que lhe concedia benefícios comerciais desde 1810 – conseqüência do acordo da escolta da família real portuguesa que fugia para o Brasil das tropas de Napoleão, em 1808) e segundo Paulo Rezzutti teriam tido sua primeira relação em 29 de Agosto do mesmo ano. Administrar as províncias de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, tentar controlar as revoltas e conflitos no restante do Brasil, o Palácio de São Cristóvão, os filhos legítimos e bastardos – e todos os feitos durante seu reinado e ainda ter tempo para a(s) amante(s) justifica a autonomeação Demonão.

O romance durou sete anos (1822-1829), o casal, durante um período, não escondeu o caso. Viajaram juntos inclusive com a Imperatriz Leopoldina, que muitíssimo bem educada fingia que não sabia de nada, consciente das suas obrigações e ouso dizer talvez a personagem mais forte e interessante do Primeiro Reinado, realmente desconheço todo o encanto em torno da Marquesa... Então, o romance durou sete anos e gerou quatro filhos (Isabel Maria, Maria Isabel, Pedro e Maria Isabel), vingando apenas Isabel Maria e a segunda Maria Isabel (três filhas com o mesmo nome, céus!).

Em 1826 Domitila se muda para perto da Quinta da Boa Vista e “assim viveria a uma distância de pouco menos que um quilômetro do amante, que do palácio, não raro, a espionaria com uma luneta” (REZZUTTI: 2010) e no mesmo ano falece D. Leopoldina. De acordo com o autor o Imperador admirava D. Leopoldina, que teve um papel importante no processo de Independência do Brasil “e no liberalismo político, apesar de ter sido criada dentro dos rigores do absolutismo austríaco”. Em um dos muitos boatos e acusações que envolvem Domitila, a morte de D. Leopoldina supostamente seria de envenenamento pelo médico a mando da Marquesa. Não duvidaria que fosse de desgosto e infelicidade... 

Após a morte de D. Leopoldina, D. Pedro solicitou ao Marquês de Barbacena que buscasse, na Europa, uma noiva. As exigências eram: virtude, cultura e beleza. O contrato foi assinado com Amélia de Leuchtenberg, princesa bávara, neta da Imperatriz Josefina, primeira esposa de Napoleão. A quarta qualidade exigida pelo imperador era nascimento, mas após tantos escândalos na corte e na Europa por causa de Domitila, esta exigência se tornou secundária. A marquesa foi expulsa pelo próprio Imperador da corte, e após veemente resistência “foi oficialmente intimada pelo ajudante de ordens do imperador para que se retirasse da corte em uma semana” (REZZUTTI: 2010).

Após o casamento de Pedro I com Amélia de Leuchtenberg e conseqüentemente seu retorno à São Paulo, Domitila de Castro casou-se com o antimarquesista (antimarquesistas e marquesistas eram os nomes dados aos grupos de pessoas que, após a volta da marquesa à São Paulo, a sociedade paulista se dividiu), “o brigadeiro Rafael Tobias de Aguiar, rico tropeiro sorocabano e líder do Partido Liberal, duas vezes eleito presidente da província de São Paulo” com quem teve seis filhos, o casamento durou mais de vinte anos.

Minha posição é antimarquesista (haha), de forma alguma exaltarei o romance de D. Pedro e Domitila de Castro que só é “bonitinho” devido ao Romantismo do séc. XIX, fiquei muito curiosa pra saber se D. Leopoldina, como penso ser, foi vítima desde seu nascimento fadada a ser uma boa esposa, mãe e acima de tudo excelente consorte.  

Quotes
Junto com propriedades, jóias, títulos e ações, essa velha senhora deixava para a posteridade cartas recebidas de d. Pedro I ao longo dos sete anos em que foram íntimos, no sentido mais amplo do termo. Umas poucas poderia ter sido suficientes para relembrar o passado na corte, reafirmar a progenitura das filhas que teve com ele, reviver o amor e os ciúmes. Ninguém passa impunemente por uma grande paixão, e mesmo seus ecos vindos de um passado longíquo ainda podem servir para nos lembrar do quanto fomos amados, desejados e importantes para alguém. Se para isso algumas batalhas bastam, o que dizer de mais de duzentas cartas? Quis Domitila, talvez, que seu romance fosse eterno (...). Antes, porém, de deixarmos os sentimentos do imperador transbordarem novamente, fazendo os amantes reviverem uma vez mais, vamos abandonar o corpo que começa a esfriar em um palacete na antiga rua do Carmo, no centro de São Paulo, e vê-lo ressurgir jovem, saudável, repleto de vida, às vésperas da Independência Brasileira.
 (Pág. 24)

O vértice mais fraco do triângulo amoroso partia-se. Ainda no sul, ao saber da morte da esposa, D. Pedro escreveu um poema lamentando sua perda. Em um trecho, diz: “Ela me amava com o maior amor/Eu nela admirava a sua honestidade.” Ele tinha certeza que D. Leopoldina o amava, porém ele tinha por ela somente admiração. Admirava a mulher que, além de ser mãe de seus filhos, havia embarcado com ele na aventura da Independência do Brasil e no liberalismo político, apesar de ter sido criada dentro dos rigores do absolutismo austríaco. D. Leopoldina era muito mais culta, educada e preparada que D. Pedro. Além de trocar correspondência com naturalistas na Europa e receber visitantes estrangeiros que aportavam no Brasil, servira de intérprete ao marido diversas  vezes junto aos militares alemães que vieram ingressar nas tropas de mercenários estrangeiros. Seu importante papel na Independência junto às cortes européias no reconhecimento do novo estado americano é inegável.
 (Pág. 61)

Quotes Cartas
(...) ontem mesmo fiz amor de matrimônio para que hoje, se mecê estiver melhor e com disposição, fazer o nosso amor por devoção. Aceite, meu benzinho, meu amor, meu encanto e meu tudo, o coração constante/ Deste seu fiel amante/ O Demonão
 (Pág. 104)

(...) não lhe pareça, meu amor, que esta linguagem é da boca para fora ou filha da astúcia ou da velhacaria própria dos falsos amantes: mas não é. É filha do meu coração arrependido que todo se derrete em amor quando se lembra que de tão longe mecê veio, e que tanto tempo ausente se mostrou constante.
(Pág. 161)

(...) vou fazer a barba para mecê não ser arranhada à noite por / Este seu desvelado, agradecido, fiel, constante e verdadeiro amante/ O Imperador
(Pág. 178)

"Filha, pelo amor que tens a nossas filhas, não me faças por tuas inconsideradas expressões (e por mim não merecidas) atormentar-me eu. Filha, estou (pergunta a teu mano João) com a cara mais abatida, e muito mais ficará se em lugar de receber de ti agradáveis expressões eu na tua carta achar o contrário. Filha, eu te quero muito, tu bem o sabes, e se te não quisesse nada te diria, nem excogitaria todos os dias modos e entradas para te ir ver."
(Pág. 229)


Achei a grafia do Imperador e principalmente da Marquesa bem fácil, se comparadas à outras da época, de entender. Algumas palavras e até frases, sem espiar a transcrição, consegui ler. Bom, o autor esteve no Programa do Jô, assim como Laurentino Gomes e Mary Del Priore, escritores populares de obras sobre a História do Brasil.





Agora volto a ler Os Sertões...

domingo, 23 de outubro de 2011

Laurentino Gomes - 1808


1808
Autor(a): Laurentino Gomes
Editora: Planeta do Brasil
Páginas: 408
Gênero: Geografia e História / História do Brasil

Sobre: A fuga da família real portuguesa para o Rio de Janeiro ocorreu num dos momentos mais apaixonantes e revolucionários do Brasil, de Portugal e do mundo. Guerras napoleônicas, revoluções republicanas, escravidão formaram o caldo no qual se deu a mudança da corte portuguesa e sua instalação no Brasil. O propósito deste maravilhoso livro, resultado de dez anos de investigação jornalística, é resgatar e contar de forma acessível a história da corte lusitana no Brasil e tentar devolver seus protagonistas à dimensão mais correta possível dos papéis que desempenharam duzentos anos atrás. Escrita por um dos mais influentes jornalistas da atualidade, "1808" é o relato real e definitivo sobre um dos principais momentos da história brasileira.

Opinião: Bom, se você não tem paciência ou ainda não possui a competência de ler Varnhagen, Oliveira Lima, José Honório Rodrigues ou qualquer outro historiador, e só quer saber um pouco mais sobre o Brasil Colonial de 1808-1820 que é mostrado nos livros didáticos ou o pouco que é veiculado na mídia, seria muito interessante ler este livro.
Gravuras legais, linguagem simples e comentários interessantes do autor. O que mais gostei e ri foi a descrição da falta de higiene dos portugueses - principalmente do único banho de D. João e do próprio fazer suas necessidades fisiológicas ao ar livre e na frente de outras pessoas. Sem contar que foi muito estranho saber que os empregados o limpava após isso, enfim, tenho que parar de fazer anacronismos e julgar estranho o que era costume há dois séculos. Gostaria que o autor tivesse falado mais sobre os escravos e não tanto da família real e as conseqüências de sua fuga, mas foi válido saber o pouco que ele disse; fiquei muito sentida quando soube dos "Tigres", surpresa quando soube que já haviam "diaristas" há dois séculos. Conheci também alguns personagens importantes que os livros didáticos, pelo menos da minha época, não mostram como o Marrocos e a importância de suas cartas para investigações do período. 
Gostei bastante, serviu como uma introdução aos livros que terei que ler, antes ainda vou ler o 1822 e descobrir um pouco sobre a verdadeira independência. 

Quotes:


Nunca, em toda a história da humanidade, as monarquias européias tinham vivido tempos tão turbulentos e atormentados. Foi o período em que reis e rainhas eram perseguidos, destituídos, aprisionados, exilados, deportados ou mesmo executados em praça pública. Em resumo, era uma época em que os monarcas literalmente perdiam a cabeça. 
(pág 38 e 39)


A urina e as fezes dos moradores, recolhidas durante a noite, eram transportadas de manhã para serem despejadas no mar por escravos que carregavam grandes tonéis de esgoto nas costas. Durante o percurso, parte do conteúdo desses tonéis, repleto de amônia e uréia, caía sobre a pele e, com o passar do tempo, deixava listras brancas sobre suas costas negras. Por isso, esses escravos eram conhecidos como "tigres".
(pág 144)


Esses mergulhos improvisados na Praia do Caju, a conselho do médico, são a única notícia que se tem de um banho de D. João nos treze anos em que permaneceu no Brasil. Quase todos os historiadores o descrevem como um homem  desleixado com a higiene pessoal e avesso ao banho. "Era muito sujo, vício de resto comum a toda a família, a toda a nação", afirmou Oliveira Martins. "Nem ele, nem D. Carlota, apesar de se odiarem discrepavam na regra de não se lavarem". A relutância da corte portuguesa em tomar banho contrastava com os costumes da colônia brasileira, onde o cuidado com o asseio pessoal chamava a atenção de quase todos os viajantes que por aqui passaram nessa época.
(pág 152 e 153)


Era a malandragem brasileira fazendo mais uma de suas performances de gala nas páginas da história nacional.
(pág 190)


Uma curiosidade é que muitos alforriados chegavam a enriquecer e se tornavam proprietários de escravos, terras e outros bens.
(pág 227)


A proibição de acesso importa pelos portugueses tornava a colônia ainda mais misteriosa, devido aos rumores que circulavam na Europa sobre as imensas riquezas minerais escondidas no subsolo e as infindáveis florestas tropicais repletas de plantas e animais exóticos e índios que ainda viviam na Idade da Pedra.
(pág 231)


"Os habitantes estão mergulhados em grande ignorância e sua conseqüência natural: o orgulho."
(pág 238)


O clima de ressentimento dos portugueses em relação ao Brasil pode ser medido no panfleto assinado por Manuel Fernandes Thomaz, um dos chefes revolucionários de 1820, no qual atacava de forma preconceituosa os brasileiros. Thomaz definia o Brasil como "um gigante em verdade, mas sem braços nem pernas, não falando no seu clima ardente e pouco sadio, (...) reduzido a umas poucas hordas de negrinhos, pescados nas costas da África, os únicos e só capazes de suportarem os dardejantes raios de uma zona abrasada". O panfleto, que provocou indignação no Rio de Janeiro, perguntava que lugar D. João deveria escolher para morar - "a terra dos macacos, dos pretos e das serpentes, ou o país de gente branca, dos povos civilizados, e amantes do seu Soberano." E terminava dizendo: "Voltemos agora os olhos daquele país selvagem e inculto, cá para esta terra de gente, para Portugal!".
(pág 279)

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

A América Portuguesa observada pelo Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro




10,0 na minha primeira prova. Não acreditei e não tô acreditando até agora na verdade. Tá que eu estudei quatro dias seguidos o dia todo - dois desses dias passei na biblioteca APENAS lendo muito, só levantei pra fazer um lanchinho e beber água; me esforcei muito, fiz uns quatro resumos até finalizar e ainda assim achava que ia tomar no máximo 5,0. O meu desespero todo é porque me baseio nos artigos e dissertações que os professores nos dão, penso que o certo(e é) é escrever daquele jeito, e tô bem looooonge de escrever como eles, e é por isso que eu fico tão desesperada achando que minha redação (isso não foi uma dissertação, não mesmo) está péssima. Enfim, eu necessitava registrar (tô pegando mesmo o hábito dos historiadores) isso aqui pra caso, vai saber, eu perder a prova haha.

Questão Única:

ESCOLHA, um dos temas apresentados abaixo e desenvolva uma dissertação que relacione todo o conjunto dos textos contidos no tema selecionado. Todos os textos foram debatidos durante as aulas de História da América Portuguesa:

Tema 1 - Cronistas, corógrafos e viajantes: Uma história revisitada

SOUSA, Gabriel Soares e. Tratado Descritivo do Brasil em 1587. Rio de Janeiro: 1851
SALVADOR, Fr. Vicente. História do Brasil (c. 1630). Rio de Janeiro: 1888.
PITTA, Sebastião da Rocha. História da América Portuguesa. Lisboa: 1730

Tema 2 - A América Portuguesa observada pelo Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro

MARTIUS, Karl F. P. von. Como se deve escrever a História do Brasil. Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Rio de Janeiro: 1840
CEZAR, Temístocles. Varnhagen em movimento: breve antologia de uma existência. Topoi, 2010.


Ps: Meu seminário foi sobre o primeiro tema, mas escolhi o 2º - por ser o mais simples e "mais fácil de dominar". Na verdade, a maioria da sala escolheu o segundo tema, um ou dois fizeram sobre o primeiro. Enfim, eis o meu projeto de dissertação:



A mudança da família real portuguesa para o Brasil, em 1808, foi um momento de grande ruptura e proporcionou grandes mudanças no Brasil. Essa mudança foi o que trouxe o médico bávaro Karl Martius, em 1817, na comitiva que incluía botânicos e naturalistas a fim de estudar plantas, animais, minérios e indígenas brasileiros (GOMES, Laurentino: 1808). Um ano antes da chegada de Martius nascia Francisco Adolfo de Varnhagen, em Sorocaba na Província de São Paulo. Karl Martius conheceu o Brasil das grandes perspectivas de futuro, onde emigrantes tinham grandes oportunidades de enriquecer; onde o comércio de escravos e a exploração de minérios estava em evidência e o Brasil, no período explorado por Karl Martius (1817-1820), ainda era colônia de Portugal. Varnhagen, na segunda edição de História Geral do Brasil (1877) não vê alterações na situação do Brasil, de acordo com temístocles Cezar, desde as viagens e descrições de Karl Martius - e outros - que conheceram o Brasil nos anos 1810-1820; além é claro, da mudança de colônia para império.

Por falta de uma historiografia* completa do Brasil, o IHGB (Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro) pediu, em sua revista, para que os comunicassem idéias que pudessem contribuir para esse feito. Em Como se deve escrever a história do Brasil, publicado em 1843, Karl Martius orienta os pontos e aspectos que devem ser escritos e observados ao mesmo tempo em que faz uma colocação do perfil do historiador: pragmático, prático, que descreve os fenômenos históricos considerando seu contexto, o que antecede e o que sucede os fatos. Um ano antes da publicação da dissertação de Karl Martius, em 1842, Varnhagen após legitimar sua nacionalidade brasileira (por ordens do imperador) é nomeado historiador - também por decreto -, com "a missão de pesquisar os documentos relativos à história, à geografia e à legislação do Brasil" segundo Temístocles. Missão essa que ele cumpre com muita dedicação e pesquisa viajando por grande parte do Brasil a fim de averigüar fontes e descrições de outros historiadores/cronistas como Pero Lopes de Sousa e Gabriel Soares e Sousa. Varnhagen acreditava na verdade histórica tendo como fonte os arquivos e documentos oficiais, era monarquista e descrevia o Brasil português, com a mentalidade dos administradores portugueses. E é nesse ponto que as idéias de Karl Martius e Francisco Adolfo de Varnhagen divergem.

Karl Martius também era monarquista, mas ele acreditava ser essencial o estudo e análise dos índios e negros que "contribuíram para o desenvolvimento físico, moral e civil da população" como um todo; os portugueses, a raça branca ou caucasiana, segundo Karl Martius, era o "mais poderoso e essencial motor" do Brasil. Diferente de Varnhagen que, após um assalto na Estrada Real, "passou a criticar veemente o romantismo indigenista" (Temístocles) e não vê importância e pontos positivos em escrever sobre índios (embora tenha escrito, em francês, um livro onde, segundo Temístocles, "procura provar através da filologia comparada e da etnografia, que a origem dos índios brasileiros encontrava-se no mundo antigo"). No século XIX as teorias do Darwinismo social manifestou-se em toda a Europa, Karl Martius sendo bávaro e Varnhagen além de monarquista e fiel ao Imperador, morando, pesquisando, publicando e fazendo palestras na Europa, ambos, influenciados por essas teorias e pelos motivos anteriormente citados, excluíam os índios e negros como brasileiros da historiografia do Brasil.

Uma obra histórica deve despertar nos leitores brasileiros o patriotismo e "todas as virtudes cívicas" segundo Karl Martius. Varnhagen foi o historiador que melhor desempenhou o tão descrito historiador pragmático de Martius. Desconfiou-se de sua lealdade para com a nação devido às constantes viagens pelo exterior e poquíssima e rara permanência no Brasil, seu casamento com a chilena Carmen Vicuña, os filhos nascidos no exterior e seu sobrenome de origem germânica. para Temístocles Cezar escrever sobre o Brasil foi a forma que Varnhagen encontrou para estar entre os brasileiros e para se autoafirmar brasileiro. Sua imensa obra dedicada a historiografia brasileira se não despertou o patriotismo nos brasileiros ao menos provou sua lealdade ao Império brasileiro.

Conclue-se portanto que, para Karl Martius, o estudo das raças indígenas e etiópica contribuem consideravelmente para a análise da etnografia (descrição do povo) brasileiro; mas que, tanto para Martius quanto para Varnhagen, a raça branca predomina. O Brasil dos anos 1810-1820 de Martius era uma colônia que proporcionava oportunidades de enriquecimento para os emigrantes, com a vinda do rei D. João VI foram construídos bancos, estradas, praças, etc; foram distribuídos, entre 1808 e 1822 mais títulos do que em trezentos anos em Portugal, segundo Laurentino Gomes em 1808. O Brasil de Varnhagen era o império regido por D. Pedro II onde as "manifestações" contra o fim do império ocorriam com freqüência, fato que, pela condição de monarquista, era criticado por Varnhagen.




* História - correção do professor.

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

07 de Setembro de 2011


A idéia era assistir o desfile na Praça da Piedade, mas eu não era uma simples cidadã no meio da ansiosa multidão, uma estudante de História aspirante a fotógrafa não pode perder um detalhe; fato que seria impossível com o excesso de pessoas na praça e com a pouca luminosidade do ambiente. Duas casas depois da praça, no único espaço ainda vazio atrás da corda fui ficar e a maior e melhor das surpresas: esse lugarzinho era em frente ao Instituto Geográfico e Histórico *-*, foi o destino, acredito, porque até então não sabia o endereço do dito cujo. 
 
Nunca, nos meus 19 anos de vida, fui ao 2 de Julho nem ao 7 de Setembro (em festa popular nenhuma pelo que lembro), achei surpreendente a quantidade de pessoas que assistem ao desfile, isso desmitifica o fato dos brasileiros (baianos principalmente) serem patriotas apenas na Copa. Vi muitas pessoas superempolgadas: desde crianças à idosos. Muitos pais levam seus filhos pequenos e a grande parte (os que estavam próximos à mim) se descuidam deles: perigo! Há muitos vendedores criativos que vendem de tudo: bolinha de sabão do Bob Esponja e Patrick Estrela, cachorro de garrafa pet, churrasquinho, salgadinho, pipoca, bandeira do Brasil, artigos do BaVi, catavento, brinquedos, brigadeiro, queijo... isso foi apenas o que vi, no 07 de Setembro de Salvador você encontra de tudo!

Acredito que o centro não comporta a quantidade de pessoas que vão ao desfile, talvez o CAB, com arquibancadas arrumadinhas e lugar marcado, fosse um lugar a considerar nos próximos anos - é claro que o centro tem todo aquele charme, mesmo porque a história também foi feita ali, só que também é preciso pensar no conforto da população. Penso também que só um pouquinho de eurocivilização nos baianos não caíria mal, pois é irritante chegar cedo pra guardar um lugar legal e na hora do desfile abaixarem a corda, tomarem a sua frente e invadir quase metade da avenida. Sem contar nas brigas e conflitos por causa de lugar... enfim, as fotos ficaram péssimas por esse motivo, e por esse motivo também fui embora na metade do desfile.



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