domingo, 22 de julho de 2012

Nicolau Maquiavel - O Príncipe

Foto: Maiara Alves
De Principatibus
ISBN: 9788563560032
Autor: Nicolau Maquiavel (Niccolò Machiavelli)
Tradução: Maurício Santana Dias
Editora (Br): Companhia das Letras/Penguin
Páginas: 172
Gênero: Ciência Política/Política

Sobre: Ao longo de cinco séculos, o trabalho mais conhecido de Nicolau Maquiavel (1469-1527) deixou de ser apenas uma leitura de interesse político, para se transformar também em literatura obrigatória no currículo de historiadores, economistas, sociólogos, advogados e executivos. Na Florença do século XVI, Maquiavel escreveu, com texto límpido e elegante, não só um manual para a conduta de um mandatário, mas uma obra clássica da filosofia moderna, fundadora da ciência política, que é ainda uma esplêndida meditação sobre a conduta do governante e sobre o funcionamento do Estado. Mais do que um tratado sobre as condições concretas do jogo político, O príncipe é um estudo sobre as oportunidades oferecidas pela fortuna, sobre as virtudes e os vícios intrínsecos ao comportamento dos governantes. Suas observações sobre moralidade e ética permanecem espantosamente atuais.

Opinião: Ao contrário da descrição do livro, eu diria que a leitura de O Príncipe é obrigatória a todo e qualquer cidadão de qualquer Estado do mundo e não apenas à profissionais específicos, pois este manual descreve, talvez verità effettuale, o perfil político do homem - dominante e dominado - liberal capitalista. Machiavelli teve a oportunidade de acompanhar de perto alguns políticos e, a partir da observação de suas atitudes, descreveu como se dava efetivamente a ação política de seu tempo que se mantém "espantosamente atual" por dois motivos: porque ainda vivemos o modelo político que estava começando a se delinear na época e por ter descrito a postura que o governante deve ter nas relações políticas.

Acredito que o li no tempo certo: acabei de estudar História Medieval e, praticamente na semana que vem, começo a estudar História Moderna; muito superficialmente, é claro, não dá pra estudar tudo em um semestre (nem em quatro anos), mas dá pra ter uma noção mais ou menos ampla do que foram essas duas fases da história. Bom, o contexto do livro é a transição entre a Idade Média e a Idade Moderna na Itália - mais precisamente em Florença, cidade natal de Machiavelli, Dante, Michelangelo e outros grandes homens notáveis. Não temos como datar exatamente quando se deu a passagem da Idade Média para a Moderna,  isso varia de historiador para historiador e conseqüentemente de sua orientação. Braudel, em A Dinâmica do Capitalismo, já enxergava neste período (fim da Idade Média e início da Moderna) vestígios do sistema econômico capitalista, baseado nisso acredito que a principal obra de Machiavelli é "espantosamente atual" por descrever o perfil político do homem dominante e dominado dessa sociedade específica, fruto do modelo "liberal capitalista".

Na capa do livro desta versão temos o Retrato de Lourenço de Médici (a quem o livro foi dedicado), pintado por Rafael Sanzio em 1518 - e não o próprio Machiavelli como eu pensava. Machiavelli era ambicioso, segundo consta no prefácio de Fernando Henrique Cardoso, e pretendia seguir carreira política, mas por não possuir os recursos que eram necessários para tal, buscou o poder através da intelectualidade, e conseguiu. Grafton ressalta as considerações de Felix Gilbert, de que Machiavelli apenas pôs no papel a política que já era discutida na esfera privada, tornando-a então pública e descrevendo-a como realmente era, e não como deveria ser, sendo considerado por estes motivos um renovador e sua principal obra um clássico. O teórico italiano é popularmente mais conhecido pela expressão que leva seu nome, "maquiavélico" do que por sua obra em si, embora esta tenha surgido delas. Lendo O Príncipe podemos entender o significado da expressão, bem como se dá as complexas relações políticas que vigoram até os dias atuais.

O livro traz muitos pontos que merecem ser destacados: a conduta do governante para com o povo, com seu exército, com governantes de outros territórios; considerações sobre guerras, moral, a importância da história, etc. Como todos os homens de seu período, Machiavelli percebeu que as coisas dependiam mais do homem que do poder divino, que o objetivo da política é organizar cidades para que o instinto egoísta intrínseco ao ser humano não as destrua, que o objetivo da ação política é o poder e que a dominação é um bem "Porque em toda cidade se encontram essas duas tendências opostas: de uma parte, o povo não quer ser comandado nem oprimido pelos poderosos, de outra, os poderosos querem comandar e oprimir o povo; desses dois desejos antagônicos advém nas cidades uma das três consequências: principado, liberdade ou desordem. (p. 77) O livro é incrível, a tradução de Maurício Santana Dias é bem simples e totalmente acessível a qualquer tipo de leitor, o recomendo não apenas por ser um clássico ou por descrever e explicar as relações políticas, mas por mostrar de uma forma generalizada o comportamento do homem em sociedade e quando relacionado ao poder. Seu conteúdo é discutido há mais de meio século, escrever sobre todas as coisas importantes que Machiavelli traz com meu limitado conhecimento de dezenove anos de vida e quase um ano de história é impossível, mesmo porque é importantíssimo que cada um reflita por si, independente de ser ou não um historiador, sociólogo, filósofo, executivo, letrado, advogado ou o Presidente da República, esta ou qualquer outra obra.

Quotes
"(...) pois sabiam que guerra não se evita, mas se adia em favor de outrem." (p. 53)
"Tampouco jamais apreciaram o que hoje está na boca de todos os sábios, ou seja, que se desfrutem os benefícios do tempo, preferindo antes seguir seu valor e prudência: porque o tempo arrasta tudo consigo e pode trazer o bem como o mal, ou o mal como bem." (p.54)
"O desejo de conquista é algo realmente muito natural e comum, e aqueles que têm exito na empreitada serão sempre louvados, ou pelo menos não criticados; porém, quando não têm força para tanto e querem realizá-lo a qualquer custo, aí reside o erro, daí decorre a crítica." (p.55)
 "Pois, além do que já foi dito, a natureza dos povos é inconstante, sendo fácil persuadi-los de uma coisa, mas difícil mantê-los nessa persuasão; portanto convém estar preparado para convencê-los pela força, quando já não estiverem convencidos por si mesmos." (p. 64)
"A crueldade bem empregada - se é lícito falar bem do mal - é aquela que se faz de uma só vez, por necessidade de segurança; depois não se deve perseverar nela, mas convertê-la no máximo de benefício para os súditos. Mal usadas são aquelas maldades que, embora a principio sejam poucas, com o tempo aumentam em vez de se extinguirem." (p. 76)
"Por isso as injúrias devem ser cometidas de uma vez só, de modo que, por sua brevidade, ofendam menos ao paladar; ao passo que os benefícios devem ser feitos aos poucos, para que sejam mais bem saboreados." (p.77)

"(...) respondo que um príncipe prudente e corajoso sempre será capaz de superar todas essas dificuldades, ora dando aos súditos a esperança de que o mal não seja duradouro, ora incutindo-lhes o medo da crueldade do inimigo, ora precavendo-se com destreza contra aqueles que lhe parecem ousados demais." (p. 82)
"No que diz respeito ao exercício da mente, o príncipe deve ler obras de história e nelas atentar para as ações dos homens ilustres, ver como eles se conduziram nas guerras e examinar as causas de suas vitórias e derrotas, a fim de evitar estas e imitar aquelas." (p. 96)

"Um príncipe sábio deve observar tais exemplos e nunca manter-se ocioso nos tempos de paz, mas aproveitar-se deles com engenho para poder agir melhor na adversidade; de modo que, quando a fortuna mudar, ele esteja preparado para resistir a ela." (p. 97)
"Porque, de modo geral, pode-se dizer que os homens são ingratos, volúveis, fingidos e dissimulados, avessos ao perigo, ávidos de ganhos..." (p. 102)
"(...) os homens têm menos escrúpulos em ofender alguém que se faça amar a outro que se faça temer: porque o amor é mantido por um vínculo de reconhecimento, mas, como os homens são maus, se aproveitam da primeira ocasião para rompê-lo em benefício próprio, ao passo que o temor é mantido pelo medo da punição, o qual não esmorece nunca." (p. 102)
"Mas o mais importante é abster-se dos bens alheios, pois os homens se esquecem com maior rapidez da morte de um pai que da perda do patrimônio." (p. 103)
"Aquiles e tantos outros príncipes antigos foram deixados aos cuidados do centauro Quíron, que os manteve sob sua disciplina. Isso quer dizer que, tendo por preceptor um ser metade animal e metade homem, um príncipe deve saber usar de ambas as naturezas: e uma sem a outra não produz efeitos duradouros." (p. 105)
"Se todos os homens fossem bons, este preceito não seria bom; mas, como eles são maus e não mantêm a palavra dada ao príncipe, este também não deve mantê-la perante eles." (p. 105)
" Mas é necessário saber camuflar bem essa natureza, ser um grande fingidor e dissimulador; e os homens são tão simplórios e obedientes às necessidades imediatas que aquele que engana sempre encontrará quem se deixe enganar." (p. 105)
"Os homens em geral julgam mais com os olhos que com as mãos; porque todos são capazes de ver, mas poucos, de sentir; todos vêem aquilo que você parece, poucos tocam aquilo que você é." (p. 106)
"(...) pois nunca se deve cair acreditando que haverá quem o levante mais tarde." (p. 130)
"(...) apenas são boas e certas e duradouras as defesas que dependem exclusivamente de você e de sua virtude." (p. 131)
"As únicas guerras justas são as necessárias, e tais armas são piedosas onde não há nenhuma esperança além delas." (p. 135)
 

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Walter Salles - On The Road

Imagem: Google Imagens/Reprodução
On The Road
Direção: Walter Salles
Roteiro: Jose Rivera
Ano: 2012/França-Reino Unido-EUA-Brasil
Gênero: Aventura/Drama
Elenco: Garret Hedlund, Kristen Stewart, Sam Riley, Viggo Mortensen, Kirsten Dunst, Amy Adams, Steve Buscemi, Elizabeth Moss, Terrence Howard, Alice Braga, Tom Sturridge

Sinopse: Nova York, Estados Unidos. Sal Paradise é um aspirante a escritor que acaba de perder o pai. Ao conhecer Dean Moriarty ele é apresentado a um mundo até então desconhecido, onde há bastante liberdade no sexo e no uso de drogas. Logo Sal e Dean se tornam grandes amigos, dividindo a parceria com  a jovem Marylou, que é apaixonada por Dean. Os três viajam pelas estradas do interior do país, sempre dispostos a fugir de uma vida monótona e cheia de regras.

Foto: Maiara Alves
Opinião: Há dois anos, desde que vi o loiro avermelhado de Kristen Stewart na divulgação de Eclipse e soube que ela havia tingido por causa de Marylou, venho esperando ansiosamente por este filme. Comprei o livro em Fevereiro do ano passado e só comecei a lê-lo no início da semana passada quando ainda não sabia que a estréia aqui no Brasil seria na sexta da mesma semana, dia 13. O engraçado é que eu marquei quase as mesmas quotes que os roteiristas inseriram no filme, mas não gostei. Não, na verdade não atendeu as minhas expectativas.

A primeira vez que vi Orgulho e Preconceito (Joe Wright, 2005) detestei, hoje é um dos filmes que mais vi na vida. Geralmente costumo detestar coisas (e pessoas) "à primeira vista", mas com o tempo conhecendo-as e vendo-as passo a gostar e me apaixono pelo resto da vida e talvez seja esse o caso de On The Road de Walter Salles. O filme é incrível, talvez um pouco confuso pra quem não leu o livro (só li até a página 100 e alguma coisa), mas ainda ressalto que é incrível pelos atores do caramba, pelo diretor do caramba, pela trilha do caramba, por uma fotografia do caramba e por ser baseado num livro do caramba haha.
Imagem: Google Imagens/Reprodução
Imagem: Google Imagens/Reprodução
Imagem: Google Imagens/Reprodução
Imagem: Google Imagens/Reprodução
Se o livro fosse publicado hoje não causaria o mesmo efeito que em 1957: a excessiva "liberdade" para a época hoje são tão comuns que um comportamento mais austero é até mais apreciado. Kerouac e seus amigos influenciaram uma geração e, de certa forma, efetivamente revolucionaram (ou protagonizaram o que estava fadado a acontecer já que, provavelmente, eles não eram os únicos a vivenciarem essas experiências) o estilo de vida de muitos jovens estadunidenses e é nisso que considero o livro "do caramba". Uma obra literária, ou qualquer outra produção cultural, pra ser prestigiada por mim pelo menos tem que tocar o leitor. Walter Salles, segundo o que li na internet, trabalhou oito anos neste filme, Kristen Stewart disse que o filme e o livro mudaram sua vida, na sala de exibição em que o vi haviam vááários velhinhos que provavelmente foram jovens no fim da década de 50 e 60.

O filme é incrível porque, mesmo não tendo me apaixonado à primeira vista, dava pra sentir a reverência com a qual os profissionais envolvidos o fizeram. Gostei muito da trilha sonora e da fotografia, não muito de alguns atores, mas me apaixonei pelas vozes de Sam Riley e Garret Hedlund. Tom Sturridge um fofo, mais fofo ainda com Garret, adorei mesmo. Não aprecio o comportamento deles, mas acho importante enaltecermos a coragem e ousadia desses jovens por darem vazão aos seus instintos quebrando padrões de comportamento e, como já disse, deve ser enaltecido também o impacto que a obra causou. Indico a crítica da Natália Bridi sobre o filme, confesso que me emocionei ao ver sua devoção à obra e ela é um bom exemplo do que penso a respeito da arte (literária, cinematográfica, musical, etc.).

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terça-feira, 17 de julho de 2012

Marc Webb - The Amazing Spider-Man

Imagem: Google Imagens/Reprodução
The Amazing Spider-Man
Direção: Marc Webb
Roteiro: Alvin Sargent, James Vanderbilt, Steve Kloves
Ano: 2012/EUA
Gênero: Ação/Aventura/Fantasia
Elenco: Andrew Garfield, Emma Stone, Rhys Ifans, Denis Leary, Martin Sheen, Sally Field, Irrfan Khan, Campbell Scott, Embeth Davidtz, Chris Zylka, Max Charles 

Sinopse: Peter Parker é um rapaz tímido e estudioso, que iniciou há pouco tempo um namoro com a bela Gwen Stacy, sua colega de colégio. Ele vive com os tios, May e Ben, desde que foi deixado pelos pais, Richard e Mary. Certo dia, o jovem encontra uma misteriosa maleta que pertenceu a seu pai. O artefato faz com que visite o laboratório do dr. Curt Connors na Oscorp. Parker está em busca de respostas sobre o que aconteceu com os pais, só que acaba entrando em rota de colisão com o perigoso alter-ego de Connors, o vilão Lagarto.

Foto: Maiara Alves
Opinião: Uma sinopse seria quase dispensável se não descrevesse as poucas mudanças da nova versão cinematográfica do super herói nova-iorquino. Este é mais simples, ou sem o ar pomposo do primeiro filme da versão dos anos dois mil, talvez o diretor tenha algo a ver com isto. Meu comentário vai ser breve e "a migué" mesmo, pois não é o tipo de filme que gosto ou vejo - mas era a única coisa assistível no fds em que estreou =/.

No pós-crise (para alguns "ainda" em crise), os EUA recorrem mais do que nunca ao seu grande meio difusor de cultura: hollywood. E a conseqüência são "remakes" de filmes de super-heróis (ou qualquer outro tipo, desde que o processo ideológico possa ser inserido), com cidadãos de bem ganhando super poderes e livrando suas grandes cidades, o país, o planeta e até o universo do mal. Dezenas de milhares de pessoas no Brasil (oi? ô/) foram aos cinemas ver a mais nova versão do Homem-Aranha - mesmo o último filme tendo sido lançado há pouco tempo (2007) - percebi que está se delineando uma nova tendência no cinema na qual escolhemos os atores, e não o filme em si, já que as histórias são as mesmas. No início do ano, por exemplo, pudemos escolher entre a versão da Branca de Neve da Julia Roberts ou da Charlize Theron quase que simultaneamente. 

O novo filme do jovem órfão que é picado por uma aranha é mais simples e ilustra a sensação de que viemos ao mundo com nosso roteiro bem definido uando, nesta versão, Peter Parker inevitavelmente se torna órfão, logo depois vai morar com os tios, seu tio Ben é assassinado por um assaltante, se apaixona pela colega de turma, é picado por uma aranha na Oscorp e todas as outras coisas que, independentemente dele ter seguido "este" ou "aquele" caminho lhe teria ocorrido os mesmos eventos: algo como destino. Podemos ver essa nova provável série como um outro mundo de possibilidades em que Peter Parker está inserido onde suas escolhas sempre o levarão ao mesmo caminho. Confesso que não tenho muito o que falar sobre o filme, só que gostei mais por causa do fofo do Andrew Garfield (que havia me apaixonado em Never Let Me Go) e talvez pela direção do Webb, que deu uma leveza à história, um tom mais real na minha opinião. 

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domingo, 1 de julho de 2012

Woody Allen - To Rome With Love

Imagem: Google Imagens/Reprodução
To Rome With Love
Direção: Woody Allen
Roteiro: Woody Allen
Ano: 2012/EUA-Itália-Espanha
Gênero: Comédia
Elenco: Woody Allen, Alec Baldwin, Jesse Eisenberg, Greta Gerwing, Ellen Page, Alison Pill, Flavio Parenti, Fabio Armiliato, Roberto Benigni, Alessandro Tiberi, Alessanda Mastronardi, Penélope Cruz

Sinopse: O longa é dividido em quatro segmentos. Em um deles, um casal americano viajam para Roma para conhecer a família do noivo de sua filha. Outra história envolve Leopoldo, um homem comum que é confundido com uma estrela de cinema. Um terceiro episódio retrata um arquiteto da Califórnia que visita a Itália com um grupo de amigos. Por último, temos dois jovens recém-casados que se perdem pelas confusas ruas de Roma.

Foto: Maiara Alves
Opinião: Diferente de Midnight In Paris, e assim como Vicky Cristina Barcelona e Match Point, Woody Allen, em To Rome With Love, homenageia simples e naturalmente uma das principais cidades turísticas da Europa em situações comuns à todos os mortais (ou não). Roma, uma cidade importante para história, recebe turistas que fazem história (como o guarda de trânsito percebe) e a cidade participa de momentos memoráveis na história desses turistas. Gostei, acho que posso considerar um dos meus filmes preferidos atualmente.

Midnight in Paris é quase rude - comparada a delicadeza e beleza da capital francesa -, a homenagem é forçada e soa falsa pela irritante presença do diretor no protagonista com todas as suas egocêntricidades, na verdade minha aversão é pelo fato de detestar pessoas como ele. To Rome With Love, talvez por não ter apenas um protagonista (o próprio diretor) e sim muitos - adoráveis por sinal - é diferente e com certeza me faria comprar uma passagem pra capital italiana - como se uma estudante de História não tivesse motivos suficientes para visitá-la. Além de ser uma cidade histórica, a capital italiana ainda faz história ao receber turistas de todo o mundo que, com certeza lá, vivem situações inusitadas, além de terem a cidade como cenário para a "história que vou contar para os meus netos". A sensação que tive com o filme é que a cidade histórica ainda faz história e é cenário da própria história de seus visitantes e turistas em que lá se encontram. 

Imagem: Google Imagens/Reprodução
Imagem: Google Imagens/Reprodução
Imagem: Google Imagens/Reprodução
Imagem: Google Imagens/Reprodução
 As estórias escolhidas pelo diretor, que foi criticado neste filme por não interagir efetivamente com Roma, sua história e elementos da História da Cultura (como diria José D'Assunção Barros...), não foram as melhores (acho que a cidade sob a ótica de outro escritor/diretor renderia histórias mais interessantes), mas não podíamos esperar muito de um cineasta egocêntrico. Uma destas estórias é de um arquiteto bem sucedido que, ao voltar à Roma de férias, decide procurar a rua onde residiu e reviver as memórias do ano em que viveu por lá pois, na minha opinião, a personagem do Jesse Eisenberg é o próprio arquiteto, a personagem de Alec Baldwin. Nesta mesma história há talvez uma versão feminina também irritante de Allen, interpretada por Ellen Page que nada tem a ver com a personagem que interpreta - acho que a Greta Gerwig seria uma escolha melhor.

O adorável Guido de La Vita è Bella, Roberto Benigni, vive um homem comum que, literalmente da noite para o dia, se torna uma celebridade. O filme demonstra o quão comuns e "babacas" são essas pessoas, o circo e notícias estúpidas que a imprensa faz em torno delas e que, apesar disso tudo, é melhor ser rico e famoso do que simplesmente rico, segundo o motorista do próprio Leopoldo; "Por quê eu sou famoso?" pergunta, "E por quê essas pessoas são famosas?" pergunto eu. Percebi também um pouco do diretor em Leopoldo... e por falar nele, a outra estória, do núcleo de Jerry (personagem de Woody Allen) é a melhor homenagem do filme à Roma e à Itália ao demonstrar que qualquer pessoa é um grande cantor (a) de ópera no chuveiro. Música está muito presente no filme, e bem utilizada. Não sei se por estar mais familiarizada com a cultura italiana do que a francesa, gostei mais da trilha sonora de To Rome With Love do que de Midnight In Paris. Abaixo, "Amada mia, amore mio" constantemente presente no filme.



A melhor história mesmo é a do jovem casal, interpretados por Alessandra Mastronardi e Alessandro Tiberi, que tentam se estabelecer e estabelecer relações profissionais na cidade. Milly se perde em Roma ao tentar achar um cabeleireiro, demonstrando de uma forma muito cômica como é difícil (eu pelo menos tenho muita dificuldade em encontrar endereços quando as pessoas tentam me explicar) a locomoção em locais desconhecidos quando se é turista ou simplesmente quando nunca não entendemos as instruções que nos dão. Seu marido, Antonio, é um fofo e se encontra nas situações mais engraçadas ao ter que apresentar a prostituta Anna, personagem de Penélope Cruz, à família e aos seus futuros sócios porque por engano entrou no seu quarto e foi flagrada pela sua família, além de ter de levá-la ao Vaticano vestida com o micro vestido vermelho.

Não gosto dos filmes de Woody Allen em que o protagonista é ele mesmo, mas nas poucas vezes em que não são (ou são em pequenas doses que "dá pra engolir"), como este, Vicky Cristina Barcelona e Match Point, são maravilhosos. Apesar da universalidade das personagens e das situações que passam, percebi a sutil homenagem à cidade e uma exaltação da mesma com as personagens indiretamente prestigiando a arquitetura, gastronomia, música italiana e até costumes de romanos da classe média atual. O filme tem início, meio e fim contados por um guarda de trânsito sob o olhar de um cineasta egocêntrico, mas que merece congratulações por, apesar das qualidades que interferem no seu trabalho, se manter fiel à si mesmo ("é melhor que o mundo fique separado de ti, do que tu separado de ti mesmo") e por mostrar que bons filmes se fazem não com efeitos especiais e "estrelas", mas com idéias, bom roteiro, boa música com meu tom de cor preferido: amarelo.

Tinha esquecido... tio Woody, da próxima vez escolhe o leste europeu e mostra a desigualdade do continente que a maioria das pessoas não conhecem, por favor? Obrigada.

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sexta-feira, 29 de junho de 2012

Fiódor Dostoiévski - Noites Brancas

Foto: Maiara Alves
Belye Noci
ISBN: 9788525417480
Autor: Fiódor Dostoiévski
Tradução: Natália Nunes
Editora (Br): L&PM
Páginas: 94
Gênero: Literatura Estrangeira

Sobre: Numa iluminada noite de primavera, à beira do rio Fontanka, um jovem sonhador se depara com uma linda mulher, que chora. São Petersburgo está mergulhada em mais uma de suas noites brancas, fenômeno que as faz parecerem tão claras quanto os dias e que confere à cidade a atmosfesra onírica ideal para o encontro entre essas duas almas perdidas. Em apenas quatro noites, o tímido rapaz e a misteriosa Nástienhka passam a se conhecer como velhos amigos, mas algo vem atrapalhar o desenrolar romântico deste fugaz encontro...

Opinião: Li fragmentos de Anna Kariênina, as 132 primeiras páginas de Crime e Castigo, há pouco terminei o pequenininho Noites Brancas e fiquei ainda mais apaixonada pela literatura russa devido aos íntimos ataques verborrágicos característico das personagens. Noites Brancas fala sobre, entre outras coisas, sonhos, expectativas, ilusões, desilusões e me fez acreditar mais em mim mesma.

Em seis capítulos ("Primeira Noite", "Segunda Noite", "História de Nástienhka", "Terceira Noite", "Quarta Noite" e "Amanhã") Dostoiévski nos conta parte da história de um jovem sonhador, de uma jovem impulsiva para o comportamento atual e o encontro destes em quatro noites onde se conhecem, nos contam suas vidas, se apaixonam e desapaixonam: a história é tão breve quanto o encontro deles. As personagens são extremamente sensíveis a ponto de criarem expectativas que seriam consideradas, hoje, absurdas; essas expectativas resultam em emoções fortes com uma rapidez incrível. Como por exemplo a protagonista, Nástienhka que, em apenas dois encontros, constrói um sentimento fortemente fraternal pelo jovem protagonista e, talvez, à primeira vista, se apaixona pelo seu inquilino e guarda o sentimento por mais de um ano sem quase não o conhecer, quase não terem conversado sobre eles próprios, o que pensam, objetivos de vida, etc. Hoje, não sei nada sobre a Rússia da primeira metade do século XIX, mas não deve ser muito diferente dos outros países europeus do período, portanto o comportamento de Nastiénhka é compreensível se comparado ao de outras mulheres de seu grupo social do período - não que o autor tenha se limitado apenas à isto, a complexidade das personagens vão além do meu conhecimento, na verdade sempre digo que para entender de verdade um filme ou um livro é preciso ter uma base de filosofia e psicologia, no mínimo.

A sensibilidade maior está com o "jovem protagonista", sem nome (se foi citado não lembro), que às vezes parece apenas dramático - se o leitor não tiver paciência e ler rápido -, mas que na verdade é apenas sensível mesmo. Olha o mundo como criança, como se tivesse vendo tudo pela primeira vez, mas com intensidade de um adulto e às vezes nostálgico e melancólico como um idoso - ou, apenas, é excessivamente sensível mesmo. Me identifiquei com o "jovem protagonista" no que concerne ao seu jeito de olhar o mundo, por ele notar os detalhes que, hoje, passam desapercebidos pela maioria das pessoas; é conhecendo histórias como essa que, a cada dia, tenho certeza que estou no "tempo errado", ou muito presa à vidas passadas haha. Exemplo disso são as quotes das pág 33, 48 e 67 que dizem exatamente o mesmo que penso, na verdade acho que todos têm pelo menos alguma teoria sobre alguma coisa, eu tenho várias e por conta da minha insegurança só passo a acreditar em mim quando percebo que não sou a única que pensa tal coisa.

Gostei bastante do livro, mas ainda não tenho competência de analisá-lo como se deve, mas fica a dica para presentear aquele seu amigo lunático ou extremamente sensível.


Quotes

O meu coração teve um pressentimento. Por muito tímido que eu seja com as mulheres, naquele caso... é, as circunstâncias eram tão singulares! Em suma: tomei uma decisão, aproximei-me dela e... e teria sem dúvida começado por saudá-la... "Minha senhora!", se não me tivesse lembrado que essa expressão se encontra pelo menos mil vezes em todas essas novelas russas em que se descreve o ambiente da boa sociedade. (p.19)
 Um sonhador - para explicar-me mais concretamente - não é um homem, fique sabendo, mas uma criatura de sexo neutro. Geralmente o sonhador costuma viver fora do mundo, num refúgio, como se se escondesse da luz do dia, e, uma vez instalado no seu esconderijo, vive e cresce nele tal como um caracol na sua concha, ou pelo menos pode-se dizer que é parecido com esse animalzinho singular... (p.33)
Querida Nástienhka, agora que nós dois voltamos a nos encontrar depois de uma longa separação - porque eu já a conheço desde há muito tempo, querida Nástienhka, pois já há muito que ando à procura de alguém... o que é a prova de que eu a procurava e de que o destino tinha escrito que nos havíamos de encontrar precisamente neste loval -, agora abriram-se mil torneiras na minha cabeça e tenho que vazar o meu coração numa torrente de palavras, se não quiser que elas me afoguem. (p. 36)
E recordo que os meus pensamentos de então eram tão tristes como os de agora, e se bem que o passado não seja melhor, parece-nos sempre que foi, como se tivéssemos sentido por sobre a alma essa vaga melancolia que agora nos persegue; que não sentíamos esses remorsos de consciência que nos atormentam de um modo tão doloroso e persistente e não nos deixam um momento de repouso, nem de dia, nem de noite. (p. 48)
Porque quando somos infelizes ficamos mais aptos a compreender o sofrimento alheio; a nossa sensibilidade, assim, não se degrada, mas, pelo contrário, condensa-se e acumula-se... (p. 67)
Quando se ama, não dura muito o aborrecimento. (p. 91)

terça-feira, 26 de junho de 2012

José Rivair Macedo - A Mulher na Idade Média

Imagem: Google Imagens/Reprodução
A Mulher na Idade Média: A Mulher e a família, Realidades sociais e atividades profissionais, Exclusão, preconceito e marginalidade
ISBN: 85-134-61-5
Autor: José Rivair Macedo
Editora: Editora Contexto
Páginas: 108
Gênero: História/História Medieval

Sobre: Este livro utiliza vasto material de consulta, enfoca várias facetas da mulher - esposa, mãe, artesã, comerciante, aristocrata, virgem, dama, bruxa, prostituta, herege, santa e guerreira - e mostra que nem os homens eram tão ativos, nem as mulheres eram tão passivas, como a imagem construída desse período nos faz pensar.

Opinião: O li no fim de Abril para uma atividade da disciplina de História Medieval e gostei apenas por causa do tema, pois Idade Média não é meu forte. Gosto um pouquinho de História Antiga, bastante de Moderna e Brasil, e adoro todo o conjunto de Contemporânea, mas Medieval, pessoalmente, acho um porre haha. Bom, foi minha primeira tentativa de resenha acadêmica e não me saí muito bem, mas valeu muito a experiência e com certeza me sairei melhor nas próximas.

Foto: Maiara Alves

Em A Mulher na Idade Média o historiador José Rivair Macedo desmitifica a noção comum que se tem das mulheres do Ocidente Europeu na Era Medieval. Utilizando vertentes da História Cultural, através das escassas fontes primárias disponíveis, assim como iconografias, o autor descreve os costumes e crenças não apenas das várias mulheres de diferentes grupos sociais da época, mas também dos homens, religiosos e da sociedade em si, baseando-se em aspectos culturais como o cotidiano, representações e imaginário no período da Idade Média (séc. V ao XV).

Com o objetivo de destacar pontos importantes e direcionar linhas de pesquisas atuais sobre as mulheres na Idade Média, esta obra do historiador das sociedades medievais descreve, entre outras coisas, o que a própria sociedade medieval pensava a respeito das mulheres, o quê elas próprias pensavam, como agiam e como foram representadas. Organizado em cinco capítulos divididos por elementos culturais, o livro é satisfatório quanto às argumentações, mostrando a importância da Nova História Cultural ao abordar temas até recentemente pouco explorados; é satisfatório também ao preocupar-se em estratificar a variada gama de mulheres, tentando assim não generalizá-las.

O primeiro capítulo, "Casamento e família", relata a discrepância das várias mulheres no casamento, a partir da posição social e região a qual pertenciam, bem como estruturava-se esse casamento, sua função e posição na família. Algumas mulheres podiam, entre outras coisas, obter o divórcio, porém outras ao mesmo tempo estavam sujeitas ao pai, marido ou "parente homem mais próximo" (p.17). Serviam como mercadorias nas relações familiares e foram usadas como meio de ascensão social dos homens. A Igreja sacramentou o casamento, beneficiando no contexto algumas mulheres para que se evitasse o repúdio dos homens para com elas, porém eram proibidas de sequer demonstrar prazer nas relações sexuais. O autor demonstra como os aspectos considerados negativos - na sociedade atual - sobressaíam-se dos positivos, porém ressaltando que a posição da mulher na família e sua função no casamento não se originaram no período, e que a "desigualdade entre os sexos" (p.14) não foram invenções da Idade Média.

Em "Realidades sociais e atividades profissionais", o segundo capítulo, o autor relata que as mulheres exerceram, hierarquicamente, poder sobre outras mulheres e suas funções laborais de acordo com os grupos sociais  e as localidades que pertenciam. A maioria das mulheres trabalhavam no campo, submissas e ao lado dos maridos. Porém outras, quando necessário, cumpriam decidida e autoritariamente atividades convenientemente reservadas aos homens, pois "precisavam demonstrar autoridade suficiente para evitar a rebeldia dos vassalos e impedir ataques de vizinhos ambiciosos" (p.37), desmitificando então que não foram tão passivas como veicula-se na História Tradicional e nas representações elaboradas pelos homens e pela Igreja. Camponesas, senhoras, domésticas, artesãs, e negociantes são apenas algumas das variadas mulheres que trabalhavam na sociedade medieval, o autor de forma exemplar salienta também que cada mulher tinha suas especificidades em si, e que esses grupos são apenas uma descrição ampla do campo laboral do período.

Além de trabalharem e servirem como mercadoria, houve na Europa Ocidental da Idade Média um grupo de mulheres que, por não seguirem os princípios cristãos, ficaram à margem da sociedade e foram relativamente excluídas, segundo Rivair Macedo, no terceiro capítulo do livro: "As mulheres marginais e excluídas". Neste capítulo, se destaca a coexistência dos princípios cristãos e a "tolerância" nas relações dos "homens de bem" com as mulheres que se prostituíam, o autor desmitifica também a "Caça às Bruxas" que não teria ocorrido na Idade Média, e sim na Idade Moderna, mas que tiveram origem nesse período. Além de atuarem como prostitutas, contraditoriamente existiam [as] mulheres hereges que, nas doutrinas heterodoxas, pregavam a abolição da sexualidade demonstrando o quão complexa, dentro do próprio grupo das mulheres, a sociedade medieval foi.

No quarto capítulo do livro, "Representações e modelos femininos", salienta-se que a forma como as mulheres eram representadas se tratava de idealizações, de como o grupo social masculino dominante desejavam que fossem incutidas a imagem da mulher na sociedade medieval. O autor percebeu quatro modelos: "Eva", "Maria", "A Dama" e a "Mulher ardilosa". Entende-se que para os medievos, "Eva" seria a prova da inferioridade feminina, "Maria" nos poemas, sermões e louvores influenciava ideologicamente no comportamento, na moral; a "Dama" seria a representação de um grupo muito específico de mulheres no imaginário masculino, onde eram usadas para o aperfeiçoamento da oratória dos homens em "disputas" de melhor erudição. Alguns séculos depois, especificamente XIV e XV, a sociedade passa por transformações e a aversão ao feminino torna-se explícita: as mulheres são representadas pejorativamente em resposta à renúncia masculina do casamento sacramental, sendo denominadas de "Mulher ardilosa". Essas representações surtiram efeito e foram perpassadas nos séculos posteriores.

No quinto e último capítulo: "A palavra e a voz das mulheres", mostra-se um lado tradicionalmente pouco conhecido, ou explorado, das mulheres na sociedade medieval: o autor afirma que algumas mulheres tiveram acesso às letras e contribuíram inclusive para os poemas - predominantemente masculinos - trovadorescos, conseguindo até sobreviver de literatura. As mulheres religiosas foram responsáveis pela cristianização dos povos bárbaros e muitas foram canonizadas. Algumas mulheres demonstraram que o sexo feminino podia escrever e "alcançar um lugar de destaque na literatura vernácula de seu tempo" (p.89). Não obstante, outras patrocinavam os escritores, "apadrinhava-os" contribuindo para a cultura cavalheiresca, além de conseguirem "dominar a escrita e penetrar no mundo da criação literária" (p.92) onde seus poemas diferenciavam-se dos poemas trovadores masculinos com maior altivez, por assim dizer, das protagonistas. Poucas mulheres tiveram acesso às letras, obviamente as aristocratas, porém foi importante o autor realçar o singular caso da poetisa italiana Cristina, que não apenas conseguiu sustentar a si e os filhos com a literatura, como também sobressair-se na sociedade denunciando homens e clérigos e de certa forma atuando no campo político. Outro caso singular é o de Joana d'Arc que não só participou de combates e conflitos, como os liderou e foi reconhecida na sociedade medieval em uma atividade, na época, reservada aos homens.

O livro de José Rivair Macedo mostra-se interessante ao utilizar uma abordagem influenciada pela Nova História Cultural na escolha do tema - uma vez que a mulher até então fez parte de um grupo que era minoria na História Tradicional, e a importância em buscar conhecer e explorar as sociabilidades, costumes, crenças e representações dos grupos minoritários. O autor cita outros historiadores com estudos na área como Georges Duby (p.29), Jacques Heers (p.38), Jacques Le Goff (p.47), Danielle Régnier-Bohler (p.89), entre outros, porém seu livro, "A Mulher na Idade Média", contribui apenas como um manual, pois trata-se de uma visão ampla da mulher na Idade Média. Seus argumentos, sustentados pelos documentos e iconografias, de que algumas poucas mulheres atuaram na política, em guerras, obtiveram divórcio, foram alfabetizadas e realizaram atividades consideradas exclusivas do sexo masculino servem como base para uma análise histórica contra teorias misóginas e machistas, assim como as agressões físicas sofrida pelas mulheres de famílias germânicas podem ser utilizadas também para uma análise histórica da violência contra a mulher.

A descrição no livro do cotidiano das mulheres no trabalho, no casamento, na família e na sociedade, pode ser utilizado também como uma análise histórica à outros crimes defendidos pelo Direito das Mulheres da cartilha da ONU, bem como análise histórica das suas representações.


segunda-feira, 25 de junho de 2012

Tim Burton - Dark Shadows

Imagem: Google Imagens/Reprodução
Dark Shadows
Direção: Tim Burton
Roteiro: John August, Seth Grahame-Smith
Ano: 2012/EUA
Gênero: Comédia/Fantasia
Elenco: Johnny Depp, Eva Green, Michelle Pfeiffer, Helena Bonham Carter, Bella Heathcote, Chloë Grace Moretz, Gulliver McGrath, Jackie Earle Haley, Johnny Lee Miller, Christopher Lee, Alice Cooper

Sinopse: 1752. Joshua e Naomi Collins deixam a cidade inglesa de Liverpoll juntamente com o filho, Barnabás, rumo aos Estados Unidos. A intenção deles era escapar de uma terrível maldição que atingiu a família. Vinte anos depois, Barnabás é um playboy inveterado que tem a cidade de Collinsport aos seus pés. Após seduzir e partir o coração de Angelique Bouchard, sem saber que era uma bruxa, ele é transformado em vampiro e preso numa tumba por dois séculos. Quando enfim desperta, dois séculos depois, encontra sua propriedade em ruínas e os poucos familiares ainda vivos escondem segredos uns dos outros. Em meio a um mundo desconhecido, Barnabás se interessa por Victoria Winters, a tutora do jovem David.

Foto: Maiara Alves
Opinião: Burton, Depp e Carter juntos de novo em um filme que, embora a autoria do diretor seja perceptível, o roteiro também se faz notar, na mesma proporção, que não é do mesmo, mas desta vez do autor de Orgulho e Preconceito e Zumbis, Grahame-Smith. Personagens com histórias interessantíssimas (mas muito mal contadas), um cenário deslumbrante, a excêntricidade que Johnny Depp consegue dar ao protagonista e a trilha sonora são os pontos que devíamos passar um lumicolor. Lumicolor também na parte do contrato em que diz que Tim Burton deverá escrever os filmes que dirige, definitivamente.

Meu cineasta preferido na adolescência, ou até quatro anos atrás, era Burton - perdi a conta de quantas vezes vi Noiva Cadáver, A Fantástica Fábrica de Chocolate, Vincent, Sweeney Todd e até mesmo O Estranho Mundo de Jack e Edward Mãos-de-Tesoura na infância. Em algum momento a gente cresce um pouquinho e fica de saco cheio de cores frias, rostos cadavéricos e de todo o mundo fantástico fantasioso de Burton, porém da excêntricidade de suas personagens e de suas histórias em si não enjôo. Johnny Depp é um dos poucos atores que, propositadamente, conseguem me fazer rir de verdade, mas isso só acontece nos filmes de Burton e tenho a impressão que as outras personagens que ele interpreta são espelhos das criações do cineasta. A estrela desta vez é Barnabas Collins, o herdeiro de uma família de comerciantes que, por não corresponder ao amor de uma bruxa, é transformado em vampiro e trancafiado num caixão por quase dois séculos. Ao acordar na década de 70 do século XX estranha a cidade e seus moradores, o que o torna - para nossa alegria - insuportavelmente engraçado e, da melhor forma possível, estranho: estranho só do jeito que Burton e Depp conseguem construir uma personagem, personagens estranhos adoráveis ♥ haha. Além de Burton não ter escrito o roteiro, este filme tem outra coisa incomum dos outros: Johnny Depp com Eva Green.

Imagem: Google Imagens/Reprodução
Imagem: Google Imagens/Reprodução
Imagem: Google Imagens/Reprodução
Imagem: Google Imagens/Reprodução
 A última combinação de protagonistas que pensaria para qualquer filme, quem dirá de Burton - embora a Isabelle, de The Dreamers, pareça ser um bom par para o Depp fora das telas. Green tem simplesmente 31 anos /invejamodeon e protagonizou a cena de sexo mais engraçada que já vi no cinema: de um vampiro e uma bruxa que destruiu o cenário de uma forma que com certeza deixaram os produtores de Breaking Dawn com a cara no chão, se comparada com a noite de núpcias de Edward e Bella. Victoria/Josette perde lugar pra ela, que além de muito bonita interpreta uma das melhores personagens da história. Esperava mais de Michelle Pfeiffer e de sua Elizabeth Collins, ou talvez também não tenha conseguido chamar atenção por causa de Green e sua Angelique. Na verdade, as fantásticas histórias das personagens - mal contadas no filme - o deixam confuso e entrega o fato de que não foi escrito por Burton.

Sim, é uma adaptação de uma série de TV e talvez, se o tivesse escrito, Burton não teria liberdade de desenvolver melhor a história das personagens. Mas por ser uma série de TV, com fãs como Madonna e Tarantino, não proíbe os mais curiosos de visualizarem, ao menos em palavras por alguma fanfic, o que acontece com o fofo David, Carolyn, a Dra. Carter haha, o pai do David, ou a história daquela senhorinha, a trajetória da bruxa e até mesmo com mais detalhes a história de Barnabás. São personagens com histórias incríveis, já disse, que dariam no mínimo uma série de livros fantástica se escrita por alguém que perceba o potencial destas personagens e suas histórias.

Gostei no todo, principalmente de Depp que não me faz rir de verdade desde seu Willy Wonka, em 2005. Apesar do roteiro ser confuso, a história é divertida a ponto de se tornar um clássico favorito da sessão da tarde como, talvez, Esqueceram de Mim haha. Um bom filme para ver com a família, num dia de domingo talvez, mas nem de longe um dos melhores de Tim Burton.

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domingo, 17 de junho de 2012

Rupert Sanders - Snow White and the Huntsman

Imagem: Google Imagens/Reprodução
Snow White and the Huntsman
Direção: Rupert Sanders
Roteiro: Evan Daugherty, Jon Lee Hancock, Hossein Amini
Ano: 2012/EUA
Gênero: Fantasia
Elenco: Kristen Stewart, Chris Hemsworth, Charlize Theron, Sam Clafin

Sinopse: O caçador Eric foi contratado pela Rainha Má para encontrar a Branca de Neve, que escapou de seu castelo. Contudo, quando ele descobre que o objetivo de sua patroa não é só capturar, mas também assassinar a jovem, ele passa a ajudá-la em sua fuga, dando início a uma perigosa aventura. 

Foto: Maiara Alves
Opinião: Readaptação cinematográfica da clássica história de contos de fadas que permite um retorno à Idade Média e às representações das mulheres do período. Um elenco "lindo de morrer", uma floresta mal-assombrada e, entre outras coisas, cores frias e um exército "mágico", fazem desta nova proposta algo interessante de ver, pois nos traz respostas à questões pouco explicadas da versão popular da Disney, além de nos mostrar um outro lado que sempre esteve ali, porém exigia um pouco mais de imaginação de seus espectadores.

Não sei muito sobre a versão contada pelos Irmãos Grimm, li a crítica do Omelete e, segundo eles, o livro registra a história contada pela tradição oral européia do século XIX - me pergunto se há alguma relação com as histórias nacionais produzidas especialmente neste período -, e pelo que dizem, esta versão foi mais fiel à "original". Na historiografia, principalmente nas histórias européias, escrever sobre a Idade Média significou no século XIX uma tentativa (e êxito) de construir uma identidade, uma nacionalidade, porém a Idade Média foi muito mais que isso, mas não convém aprofundar agora esta questão. Confesso que não consegui identificar o motivo do resgate aos contos de fadas e histórias medievalistas (como, por exemplo, A Garota da Capa Vermelha - livro e filme), seria para reconstruir/resgatar uma identidade dos europeus nesse início de decênio em crise? Seja qual for o motivo, percebe-se uma tentativa de romper com a versão cinematográfica original de 1937 e a pretensão de conquistar os jovens adultos (e crianças...) de hoje.

Imagem: Google Imagens/Reprodução

Imagem: Google Imagens/Reprodução
Imagem: Google Imagens/Reprodução
Mas algo que não se rompeu nesta versão, e uma coisa que senti ainda na hora do filme e quando voltava para casa, foram as representações da mulher na Idade Média, criadas pelos nobres e pelo clero, que aprendi em A Mulher na Idade Média (em breve comentário aqui) do historiador medievalista José Rivair Macedo, no que diz respeito às duas principais personagens femininas: Ravena, a rainha e madrasta má, e à Branca de Neve, a princesa inocente, submissa, alienada. A primeira versão foi lançada, segundo o IMDB, em 1937, na primeira metade do século XX quando o movimento feminista ganhava força em várias partes do mundo e precisava ser combatido por aqueles que eram contra. Não posso falar com propriedade sobre este assunto, mas suponho que Walt Disney e/ou Hollywood na época o tenha sido, digo isso porque a Branca de Neve de 1937 lavou, passou, cozinhou e cuidou - com toda a típica felicidade das princesas-disney - da casa dos sete anões e só foi salva pelo beijo de um homem como se ela mesma não pudesse sozinha salvar-se. Talvez o foco hoje não seja este, já que a "a pele branca como a neve" do século XXI pertence à Kristen Stewart que interpreta uma Branca de Neve bélica, autonomamente corajosa e forte, porém os estereótipos medievos da mulher continuam lá: como a idéia da mulher ser uma bruxa, extremamente poderosa capaz de controlar homens, etc.

Apesar destes e outros pesares - além, com certeza, dos pesares técnicos que desconheço totalmente -, é interessante de se ver porque é mais coerente se for comparado a versão clássica. Desta vez, os motivos que levaram a Madrasta ser má ficam claros (na história, na intenção sem bem qual é...), bem como a morte do Rei, o Caçador ter aceito a missão da Madrasta, os Anões, e até a participação do Príncipe (que na verdade é filho de um duque, bem coerente com o período) foi relevante e fizeram muito mais sentido que Snow White and the Dwarfs. O que revolucionou essas readaptações/reinterpretações dos clássicos são as atitudes que as protagonistas Alice de Tim Burton, A Garota da Capa Vermelha de 2011 e esta Branca de Neve tomam: elas ousam, rompem a etiqueta do mundo dos contos de fadas, não querem mais finais felizes e isso, sem dúvida, numa tentativa de aproximar as personagens das atuais mulheres do mundo real.

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sábado, 16 de junho de 2012

Laurentino Gomes - 1822

Foto: Maiara Alves
1822
ISBN: 9788520924099
Autor: Laurentino Gomes
Editora: Nova Fronteira
Páginas: 351
Gênero: História do Brasil

Sobre: Nesta nova obra, o escritor Laurentino Gomes, autor do best-seller 1808, sobre a fuga da família real portuguesa para o Rio de Janeiro, mostra como o Brasil, um país que tinha tudo para dar errado, deu certo em 1822 por uma notável combinação de sorte, improvisação, acasos e também de sabedoria das lideranças responsáveis pela condução dos destinos do novo país, naquele momento de grandes sonhos e muitos perigos.

Opinião: Comprei o livro em Abril do ano passado, quando ainda não estudava História e só o li este ano - acredito que no momento certo -, quase no fim da disciplina que aborda a transição no Brasil de Colônia para Império. Não tiro seu valor: foram milhares de cópias vendidas entre o 1808 e este, 1822; é importante também que o livro tenha não apenas sido bastante vendido, como também lido, porém o jornalista deixa brechas para interpretações inocentemente tendenciosas de leigos. E isto é grave.

Divido em 22 capítulos, com um recorte de 45 anos (1789-1834: desde a decapitação dos monarcas franceses, à morte de D. Pedro I) e utilizando fontes impressas o autor relata os fatos que culminaram no cultuado 1822. Gomes neste livro foi orientado por Alberto da Costa e Silva, renomado historiador, e também diplomata, brasileiro. Mas, talvez por esta condição e com o objetivo de valorizar possíveis laços entre Brasil e Portugal (como foi o objetivo de 1808) relata que o Processo de Independência do Brasil "resultou menos da vontade de brasileiros do que das divergências entre os próprios portugueses" (p.21). Os portugueses contribuíram sim, mas a Independência política do Brasil de Portugal foi muito além disto, como disse na minha prova.

Sobre este assunto, uma das principais questões de debate para historiadores é: como a América portuguesa permanceu unida enquanto que a América espanhola se fragmentava em territórios independentes? Para Gomes, baseado em Sérgio Buarque de Holanda e Maria Odila Leite da Silva Dias, a elite colonial de todas as províncias temiam uma rebelião escrava (como a do Haiti, por exemplo), já que estes constituiam a maior parte da população. Outro ponto interessante é sobre o "mito" do grito da Independência e sobre o famoso quadro de Pedro Américo veiculados nos livros didáticos: para alguns não ouve o grito e o quadro de Américo teria sido inspirado em "Napoleão Friedland" do francês Jean-Louis Ernest.

Imagem: Google Imagens/Reprodução
Gomes ressalta que a obra de Américo tinha o objetivo de fortalecer o ocorrido bem como o imaginário às vésperas da proclamação oficial da República. Além desse mito, Gomes desconstrói (ou mostra apenas determinadas versões) outros como o grito no Rio Ipiranga ou D. Pedro ter composto o atual Hino da Independência. Além de enaltecer a relação histórica entre Portugal e Brasil, o autor elege José Bonifácio à patriarca da Independência e afirma que "sem ele, o Brasil de hoje provavelmente não existiria" (p.146). Um leitor leigo interpretaria isto de forma errônea, pois da mesma forma que os historiadores não sabem o que manteve o Brasil unido no século XIX não se pode creditar apenas uma pessoa à isto, Bonifácio contribuiu sim para o Processo de Independência, bem como nas medidas que mantiveram o território unido, mas creditá-lo somente surtiria o mesmo efeito que os positivistas objetivam com a história tradicional e todo o trabalho do autor (e de historiadores com outras obras) em desconstruir os mitos e interpretações tendenciosas a respeito do que ocorreu em 1822 seria em vão. 

Uma das brechas está na página 220, quando sobre o Poder Moderador o autor afirma:
"Lido ao pé da letra, poderia dar a entender que D. Pedro I mantinha a condição de monarca absoluto, tanto quanto haviam sido seu pai, D. João VI, sua avó, D. Maria I, e seu bisavô, D. José I. Mas era só aparência. O simples fato de haver uma constituição, ainda que outorgada, significava que o poder do imperador, doravante, tinha limites."
Na teoria o Poder Moderador tinha limites sim, mas assim como a nossa constituição atual, nem sempre as leis se fazem na prática e isso ocorreu com o Poder Moderador; da forma como o autor colocou subentende-se que não. Outra colocação "perigosa" é a de que o inglês Cochrane teria decidido a Independência aqui na Bahia, e, assim como não devemos creditar as medidas de Bonifácio, como conselheiro do Imperador, à respeito da união do território na época, responsabilizar Cochrane pela vitória dos brasileiros sob os portugueses pela Independência aqui na Bahia é um erro.

Estou no fim do segundo semestre e pude ver algumas colocações equivocadas no livro, provavelmente daqui a alguns anos verei mais e mais, e só as percebi porque tive acesso à outras fontes, outros pontos de vista e esta é a mesma postura que todos que lêem livros de História (e de qualquer outra área de conhecimento) devem ter. Utilizei o livro, bem como outras fontes, para a prova sobre o processo de independência e o considero uma análise quase ampla da discussão historiográfica sobre a Independência.

Foto: Maiara Alves
Foto: Maiara Alves
Foto: Maiara Alves
Quotes
"A Independência do Brasil ocorreu no meio de uma transformação importante na economia brasileira. A produção de açúcar e a mineração de ouro e diamantes estavam em decadência. Eram as duas grandes riquezas que haviam sustentado a prosperidade da colônia e sua metrópole nos séculos anteriores. Muito dependente da mão de obra escrava, a produção açucareira entrara em declínio devido ao crescente combate ao tráfico negreiro pela Iglaterra e à mudança de tecnologia nos mercados competidores." p.59
"Pouco mais adiante, ao passar pela cidade de Paranaguá e a vizinha vila de Guaratuba, Saint-Hilaire encontrou pessoas em estado de desnutrição tão profunda que adquiriram o hábito de comer terra na tentativa de repor vitaminas e sais minerais." p.71
"Um segundo enigma tem a ver com a sua vida privada. Bonito, famoso, solteiro e sem filhos, Neukomm tem seu nome numa lista de quatro homossexuais não assumidos da corte de D. João, elaborada pelo antropólogo Luiz Mott, presidente do Grupo Gay da Bahia. Os outros três seriam D. João de Almeida de Melo ne Castro, o conde de Galvêas; Francisco Rufino de Sousa Lobato, visconde de Vila Nova Rainha; e o próprio D. João.". P. 78
"A Bahia decidiu o futuro do Brasil na sua forma atual, mas a festa do Dois de Julho é hoje praticamente desconhecida pelos brasileiros das outras regiões. Ao contrário do Carnaval, e apesar de também reunir milhares de pessoas, raramente é notícia nos jornais e emissoras de rádio e televisão fora da própria Bahia. Porém, um visitante desavisado que chegar à capital baiana nessa data perceberá logo ao desembarcar uma nota dissonante: o aeroporto de Salvador, que até alguns anos atrás se chamava Dois de Julho, mudou de nome. Agora, chama-se Luís Eduardo Magalhães, em homenagem ao político baiano falecido em 1998. É uma prova de que o coronel da atualidade será sempre mais lembrado do que todas as lutas gloriosas do passado." p.206
 Laurentino Gomes esteve no Programa do Jô, em 2010, falando sobre o livro.






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