terça-feira, 26 de junho de 2012

José Rivair Macedo - A Mulher na Idade Média

Imagem: Google Imagens/Reprodução
A Mulher na Idade Média: A Mulher e a família, Realidades sociais e atividades profissionais, Exclusão, preconceito e marginalidade
ISBN: 85-134-61-5
Autor: José Rivair Macedo
Editora: Editora Contexto
Páginas: 108
Gênero: História/História Medieval

Sobre: Este livro utiliza vasto material de consulta, enfoca várias facetas da mulher - esposa, mãe, artesã, comerciante, aristocrata, virgem, dama, bruxa, prostituta, herege, santa e guerreira - e mostra que nem os homens eram tão ativos, nem as mulheres eram tão passivas, como a imagem construída desse período nos faz pensar.

Opinião: O li no fim de Abril para uma atividade da disciplina de História Medieval e gostei apenas por causa do tema, pois Idade Média não é meu forte. Gosto um pouquinho de História Antiga, bastante de Moderna e Brasil, e adoro todo o conjunto de Contemporânea, mas Medieval, pessoalmente, acho um porre haha. Bom, foi minha primeira tentativa de resenha acadêmica e não me saí muito bem, mas valeu muito a experiência e com certeza me sairei melhor nas próximas.

Foto: Maiara Alves

Em A Mulher na Idade Média o historiador José Rivair Macedo desmitifica a noção comum que se tem das mulheres do Ocidente Europeu na Era Medieval. Utilizando vertentes da História Cultural, através das escassas fontes primárias disponíveis, assim como iconografias, o autor descreve os costumes e crenças não apenas das várias mulheres de diferentes grupos sociais da época, mas também dos homens, religiosos e da sociedade em si, baseando-se em aspectos culturais como o cotidiano, representações e imaginário no período da Idade Média (séc. V ao XV).

Com o objetivo de destacar pontos importantes e direcionar linhas de pesquisas atuais sobre as mulheres na Idade Média, esta obra do historiador das sociedades medievais descreve, entre outras coisas, o que a própria sociedade medieval pensava a respeito das mulheres, o quê elas próprias pensavam, como agiam e como foram representadas. Organizado em cinco capítulos divididos por elementos culturais, o livro é satisfatório quanto às argumentações, mostrando a importância da Nova História Cultural ao abordar temas até recentemente pouco explorados; é satisfatório também ao preocupar-se em estratificar a variada gama de mulheres, tentando assim não generalizá-las.

O primeiro capítulo, "Casamento e família", relata a discrepância das várias mulheres no casamento, a partir da posição social e região a qual pertenciam, bem como estruturava-se esse casamento, sua função e posição na família. Algumas mulheres podiam, entre outras coisas, obter o divórcio, porém outras ao mesmo tempo estavam sujeitas ao pai, marido ou "parente homem mais próximo" (p.17). Serviam como mercadorias nas relações familiares e foram usadas como meio de ascensão social dos homens. A Igreja sacramentou o casamento, beneficiando no contexto algumas mulheres para que se evitasse o repúdio dos homens para com elas, porém eram proibidas de sequer demonstrar prazer nas relações sexuais. O autor demonstra como os aspectos considerados negativos - na sociedade atual - sobressaíam-se dos positivos, porém ressaltando que a posição da mulher na família e sua função no casamento não se originaram no período, e que a "desigualdade entre os sexos" (p.14) não foram invenções da Idade Média.

Em "Realidades sociais e atividades profissionais", o segundo capítulo, o autor relata que as mulheres exerceram, hierarquicamente, poder sobre outras mulheres e suas funções laborais de acordo com os grupos sociais  e as localidades que pertenciam. A maioria das mulheres trabalhavam no campo, submissas e ao lado dos maridos. Porém outras, quando necessário, cumpriam decidida e autoritariamente atividades convenientemente reservadas aos homens, pois "precisavam demonstrar autoridade suficiente para evitar a rebeldia dos vassalos e impedir ataques de vizinhos ambiciosos" (p.37), desmitificando então que não foram tão passivas como veicula-se na História Tradicional e nas representações elaboradas pelos homens e pela Igreja. Camponesas, senhoras, domésticas, artesãs, e negociantes são apenas algumas das variadas mulheres que trabalhavam na sociedade medieval, o autor de forma exemplar salienta também que cada mulher tinha suas especificidades em si, e que esses grupos são apenas uma descrição ampla do campo laboral do período.

Além de trabalharem e servirem como mercadoria, houve na Europa Ocidental da Idade Média um grupo de mulheres que, por não seguirem os princípios cristãos, ficaram à margem da sociedade e foram relativamente excluídas, segundo Rivair Macedo, no terceiro capítulo do livro: "As mulheres marginais e excluídas". Neste capítulo, se destaca a coexistência dos princípios cristãos e a "tolerância" nas relações dos "homens de bem" com as mulheres que se prostituíam, o autor desmitifica também a "Caça às Bruxas" que não teria ocorrido na Idade Média, e sim na Idade Moderna, mas que tiveram origem nesse período. Além de atuarem como prostitutas, contraditoriamente existiam [as] mulheres hereges que, nas doutrinas heterodoxas, pregavam a abolição da sexualidade demonstrando o quão complexa, dentro do próprio grupo das mulheres, a sociedade medieval foi.

No quarto capítulo do livro, "Representações e modelos femininos", salienta-se que a forma como as mulheres eram representadas se tratava de idealizações, de como o grupo social masculino dominante desejavam que fossem incutidas a imagem da mulher na sociedade medieval. O autor percebeu quatro modelos: "Eva", "Maria", "A Dama" e a "Mulher ardilosa". Entende-se que para os medievos, "Eva" seria a prova da inferioridade feminina, "Maria" nos poemas, sermões e louvores influenciava ideologicamente no comportamento, na moral; a "Dama" seria a representação de um grupo muito específico de mulheres no imaginário masculino, onde eram usadas para o aperfeiçoamento da oratória dos homens em "disputas" de melhor erudição. Alguns séculos depois, especificamente XIV e XV, a sociedade passa por transformações e a aversão ao feminino torna-se explícita: as mulheres são representadas pejorativamente em resposta à renúncia masculina do casamento sacramental, sendo denominadas de "Mulher ardilosa". Essas representações surtiram efeito e foram perpassadas nos séculos posteriores.

No quinto e último capítulo: "A palavra e a voz das mulheres", mostra-se um lado tradicionalmente pouco conhecido, ou explorado, das mulheres na sociedade medieval: o autor afirma que algumas mulheres tiveram acesso às letras e contribuíram inclusive para os poemas - predominantemente masculinos - trovadorescos, conseguindo até sobreviver de literatura. As mulheres religiosas foram responsáveis pela cristianização dos povos bárbaros e muitas foram canonizadas. Algumas mulheres demonstraram que o sexo feminino podia escrever e "alcançar um lugar de destaque na literatura vernácula de seu tempo" (p.89). Não obstante, outras patrocinavam os escritores, "apadrinhava-os" contribuindo para a cultura cavalheiresca, além de conseguirem "dominar a escrita e penetrar no mundo da criação literária" (p.92) onde seus poemas diferenciavam-se dos poemas trovadores masculinos com maior altivez, por assim dizer, das protagonistas. Poucas mulheres tiveram acesso às letras, obviamente as aristocratas, porém foi importante o autor realçar o singular caso da poetisa italiana Cristina, que não apenas conseguiu sustentar a si e os filhos com a literatura, como também sobressair-se na sociedade denunciando homens e clérigos e de certa forma atuando no campo político. Outro caso singular é o de Joana d'Arc que não só participou de combates e conflitos, como os liderou e foi reconhecida na sociedade medieval em uma atividade, na época, reservada aos homens.

O livro de José Rivair Macedo mostra-se interessante ao utilizar uma abordagem influenciada pela Nova História Cultural na escolha do tema - uma vez que a mulher até então fez parte de um grupo que era minoria na História Tradicional, e a importância em buscar conhecer e explorar as sociabilidades, costumes, crenças e representações dos grupos minoritários. O autor cita outros historiadores com estudos na área como Georges Duby (p.29), Jacques Heers (p.38), Jacques Le Goff (p.47), Danielle Régnier-Bohler (p.89), entre outros, porém seu livro, "A Mulher na Idade Média", contribui apenas como um manual, pois trata-se de uma visão ampla da mulher na Idade Média. Seus argumentos, sustentados pelos documentos e iconografias, de que algumas poucas mulheres atuaram na política, em guerras, obtiveram divórcio, foram alfabetizadas e realizaram atividades consideradas exclusivas do sexo masculino servem como base para uma análise histórica contra teorias misóginas e machistas, assim como as agressões físicas sofrida pelas mulheres de famílias germânicas podem ser utilizadas também para uma análise histórica da violência contra a mulher.

A descrição no livro do cotidiano das mulheres no trabalho, no casamento, na família e na sociedade, pode ser utilizado também como uma análise histórica à outros crimes defendidos pelo Direito das Mulheres da cartilha da ONU, bem como análise histórica das suas representações.


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