segunda-feira, 30 de maio de 2016

Adriana Dantas Reis - Cora: lições de comportamento feminino na Bahia do século XIX

Imagem: Google Imagens/Reprodução

Cora: lições de comportamento feminino na Bahia do século XIX
Autor(a): Adriana Dantas Reis
Editora: FCJA; Centro de Estudos Baianos da UFBA
Páginas: 262
Gênero: Ciências Humanas/História/Gênero/Educação
Ano: 2000

Sinopse: Cora, filha de um professor da Faculdade de Medicina da Bahia, Dr. José Lino Coutinho (1784-1836), recebe as lições do seu tempo. Cora, belo nome, casa aos 15 anos com Francisco Pereira Sodré, futuro barão de Alagoinhas, e tem 11 filhos. As cartas do seu pai podem ser uma lição, até hoje, dependendo da ótica do leitor. A ampulheta é outra. A educação também. Dentro da bibliografia de estudos sobre gênero no âmbito da história social, este é um livro importante.    

Opinião: Em Cora: lições de comportamento feminino na Bahia do século XIX, a historiadora Adriana Dantas Reis procura vislumbrar aspectos da vida cotidiana privada e pública das mulheres da elite baiana durante o século XIX. Utilizando vertentes da História Cultural e Social, através de diversas e interessantes fontes primárias disponíveis, assim como periódicos, relatos de viajantes, teses de medicina, documentos da Câmara, testamentos, inventários, certidões de óbito, batismo, processos-crime, livro de tabeliães, a autora descreve os costumes, hábitos e práticas educacionais das mulheres das elites baianas, baseando-se em aspectos culturais como o cotidiano, representações e imaginário na Bahia oitocentista. 

Com o objetivo de destacar pontos importantes acerca das práticas culturais, analisar as condutas sociais e educacionais, bem como direcionar linhas de pesquisas atuais sobre as mulheres na Bahia do século XIX, esta obra da historiadora de gênero, escravidão, mestiçagem e mobilidade social descreve, entre outras coisas, o que a elite luso-brasílica (colônia) e imperial (pós-independência) pensava a respeito das condutas sociais das mulheres baianas do oitocentos, seus costumes e práticas educacionais, o que a elite patriarcal propunha para sua educação, como agiam e lidavam com esses modelos de educação. Organizado em quatro capítulos, o livro é satisfatório quanto às elucidações mostrando a importância dos estudos de Gênero e Educação, ao abordar temas até recentemente pouco explorados e a preocupação em estratificar a variada gama de mulheres tentando não generalizá-las.

O primeiro capítulo, “Cenários e costumes da elite feminina no século XIX”, relata os espaços de sociabilidade e costumes das mulheres da capital da Bahia, Recôncavo e Sertão. Utilizando os relatos dos viajantes estrangeiros, a autora descreve como essas mulheres eram vistas pelos europeus – até então, modelos exemplares de civilidade e higiene – no que concerne às condutas sociais, costumes e práticas culturais. Analisa também como a vinda da Família Real portuguesa e a Corte influenciaram no comportamento das mulheres das capitanias do Rio de Janeiro e Bahia, disseminando e influenciando quanto aos costumes europeus que, como foi ressaltado anteriormente, eram os modelos de civilidade e higiene. Além do início do século XIX, a autora apresenta os espaços das mulheres durante o Primeiro Reinado, Segundo Reinado e as mulheres da elite do Recôncavo e Sertão baiano, espaços de extrema importância para a compreensão da dinâmica social, política e econômica da Bahia, e onde as mulheres envolviam-se com mais altivez. 

Em “Padres, médicos e as novas formas de sociabilidades femininas”, o segundo capítulo, o autora relata as representações católicas e modelos de conduta feminina propostas pela Igreja acerca das mulheres que predominaram na cultura ocidental e, consequentemente, na América portuguesa e século XIX (é inequívoco afirmar que até os dias atuais também!). Além das representações e propostas sócio-educacionais, a autora descreve as permanentes intervenções da Igreja quanto às mulheres no que concerne ao combate dessas novas formas de sociabilidade feminina praticadas espontaneamente pelas mulheres e com influência das proposições realizadas pela elite patriarcal ilustrada. Uma dessas intervenções foi a inserção das Irmãs de Caridade na sociedade baiana, que tinham como objetivo difundir preceitos católicos a fim - de acordo com a Igreja e parte da elite - de melhorar a educação feminina. Não foi apenas a Igreja Católica que buscou disseminar hábitos entre as mulheres baianas, de acordo com a autora, mas também os médicos que, com os modelos higienistas europeus, tentaram interferir na conduta feminina com o intuito de construir uma mulher civilizada, mulher esta que deveria ser o modelo desse Estado brasileiro e Estado Imperial em voga no início e durante o século XIX.   

Além da intervenção de médicos e da Igreja Católica, a elite patriarcal (grupo social no qual os médicos também estavam, em parte, inclusos) também pensava e propunha modelos de educação para as mulheres, é o que a autora relata no terceiro capítulo do livro: “Como educar uma filha de acordo com o progresso do século?”. Neste capítulo, a autora aborda e analisa um modelo de educação ilustrada proposta pela elite ilustrada baiana, que visava uma educação livre do modelo opressor de então (a Igreja) e de acordo com o modelo civilizatório e higiênico europeu. Neste capítulo a autora apresenta “Cora”, mulher da elite baiana que dá título ao livro e que teve uma educação de acordo com esse modelo europeu visado pela elite baiana. Cora, filha do ilustrado, médico, deputado e maçom José Lino Coutinho, é educada por uma preceptora de acordo com o modelo europeu proposto em cartas que direcionavam-na em diversas fases de sua vida. Ainda de acordo com as análises da autora, essas cartas não deveriam ser apenas para sua filha, mas servir como modelo para as demais mulheres da elite baiana.

No quarto e último capítulo do livro, “O debate em torno das Cartas sobre a educação de Cora”, o modelo de educação baseado nos princípios europeus são analisadas mais aprofundadamente. De acordo com a autora, essas cartas foram influenciadas pelos ideais iluministas, que tinha como objetivo proferir, entre outros, uma educação que promovesse a erudição para que as mulheres pudessem educar os filhos e acompanhar o marido. A autora relata também a recepção positiva e negativa das Cartas por meio da imprensa, através de periódicos de cunho religioso, conservador, liberal e publicações escritas por outros médicos e estudantes de medicina. As Cartas causaram grande polêmica e discussões fervorosas não apenas por meio da imprensa, mas também nos ambientes (cafés, salões, redações dos periódicos, tipografias, teatros, etc) em que esses intelectuais socializavam.   

A excelente pesquisa da professora e historiadora Adriana Dantas Reis mostra-se interessante ao vislumbrar aspectos das práticas culturais das mulheres baianas do século XIX. Os estudos de gênero na Bahia, à época em que a pesquisa foi realizada e concluída, precisavam (e ainda precisam) de pesquisas aprofundadas e contundentes como a que foi realizada pela professora. Dos anos 2000 até hoje, as pesquisas e o interesse acerca do estudo das mulheres, e pelos estudos de gênero em si, aumentaram consideravelmente. O livro aborda o cotidiano, costumes, hábitos e a educação das mulheres ao longo do século XIX através de uma vasta documentação; documentação esta analisada e utilizada de forma bastante lúcida, principalmente as Cartas sobre a educação de Cora que representa bem o modelo de educação feminina promovido pelos ilustrados e o Estado Imperial. Porém, o grande recorte temporal feito pela autora deixa a desejar, uma vez que as práticas sociais, em qualquer tempo e espaço, são extremamente complexas e necessitam de uma análise aprofundada para que equívocos e generalizações não sejam cometidas.

Para exemplificar, no primeiro capítulo, a autora descreve os espaços e costumes da elite feminina em quatro tempos: no início do século XIX, após a transferência da Corte, no Primeiro e Segundo Reinado de forma relativamente breve e objetiva. Talvez a autora tenha alargado o recorte temporal devido a uma possível ausência de fontes específicas sobre o tema, mas esta abordagem às vezes torna a leitura (principalmente para o público leigo) e compreensão do período um pouco confusa; a autora também intercala esses quatro tempos nos outros três capítulos transmitindo, em determinados momentos, a mesma sensação. Talvez fosse mais escrupuloso delimitar um recorte temporal específico, reduzindo um século inteiro para uma determinada quantidade de décadas.

O livro pode ser utilizado para a compreensão da origem e história das práticas culturais e educacionais das mulheres na Bahia. Bem como da história e origem do machismo, misoginia, preconceito e desigualdade contra as mulheres. Pode ser utilizado para uma análise histórica e reflexão dos vários tipos de violência contra a mulher - lembrando que o período abordado é o século XIX, tempo não muito distante do atual e que, infelizmente, ainda existem muitas permanências. Faz-se refletir acerca dos direitos sociais, políticos e civis das mulheres de uma sociedade ainda patriarcal, elitista, segregadora e preconceituosa.     

sábado, 28 de maio de 2016

Reativando o blog

Março de 2015
Nasci em 1992 e, portanto, faço parte de uma geração que cresceu com a cara no computador e redes sociais. Escrevo em blogs desde os 14 anos de idade e simplesmente adoro compartilhar minhas leituras e experiências; além disso, meus blogs ajudaram muito no desenvolvimento da minha escrita. Neste blog aqui, especificamente, escrevo desde 2008, quando estava ainda no primeiro ano do Ensino Médio e acabei dando uma pausa em 2013 devido a correria da faculdade.

De 2013 pra cá muuuita coisa aconteceu! Me formei, comecei a dar aulas em turno integral, entrei na especialização e, recentemente, fui aprovada na seleção de mestrado. A seleção foi em Janeiro e, desde março, estou apenas estudando e pesquisando, ou seja, estou com um tempinho livre, mas só hoje lembrei do blog e decidi reativá-lo para compartilhar minhas experiências que, desde 2013, têm sido feita apenas no Facebook e Instagram. Bom, estou menos expansiva do que antes, mas ainda sinto vontade de compartilhar coisas que considero interessantes como viagens, livros, filmes, museus, história, literatura, fotografia, animais, etc.

Um pequeno resuminho de coisas que me aconteceram desde que parei de postar aqui, em 2013. Acredito que eu e muitas outras pessoas se interessam por blogs também porque é um meio de guardar essas lembranças, um espaço que poderá ser (re)visitado futuramente para recordar momentos, idéias e determinados contextos. 

2013: desde 2011 minha vida gira em torno da graduação, então, todos os meus grandes momentos estão diretamente relacionado à faculdade. Em 2013 entrei para a Iniciação Científica, onde eu e mais estudantes de História pesquisamos sobre o bairro do Comércio, em Salvador, e a Associação Comercial da Bahia através da imprensa, entre 1840 e 1940. Participei também de diversos cursos e eventos. 

2014: assim como 2012, foi um dos melhores anos pra mim em todos os sentidos. Comecei o ano sem estágio, trabalhando como colaboradora na LDM e, em março, tive 3 bons estágios para escolher! Acabei escolhendo ser monitora no Memorial dos Governadores Republicanos da Bahia, um dos melhores lugares que trabalhei até hoje! Adoro de graça toda a equipe! Concluí as atividades da Iniciação Científica, defendi TCC, apresentei trabalhos e concluí todas as disciplinas da graduação, porém a faculdade só agendou a colação de grau da minha turma para março de 2015. Ainda em 2014 ganhei um sobrinho/afilhado inesperado que amo!

2015: se 2015 foi difícil pra todos e todas, pra mim não seria diferente. O ano mais difícil da minha vida até hoje, mas com ótimos momentos. Teve a colação de grau, minha primeira ida ao desfile do 2 de Julho, comecei a especialização em História da Bahia, voltei a fazer o Enem e tive o projeto de mestrado aprovado na UEFS e na UFBA.

2016: começou muuuito bem! Como todos os anos pares. Aprovação na UFBA, bolsa da Capes, achados para a pesquisa, muuito descanso, muita militância. Estou aguardando ansiosamente por Julho, quando as aulas no mestrado começarão! =)


Então, é isso, acho que tenho coisas mais interessantes para compartilhar desde 2013 =)
Fiquei feliz em ver que as visitas não pararam, mesmo estando ausente!

Salvador, 28 de maio de 2016

Tereza Cristina Kirschner - José da Silva Lisboa, Visconde de Cairu: Itinerários de um Ilustrado Luso-Brasileiro

Imagem: Alameda Editorial
José da Silva Lisboa, Visconde de Cairu: Itinerários de um Ilustrado Luso-Brasileiro
Autor(a): Tereza Cristina Kirschner
Editora: Alameda Casa Editorial
Páginas: 351
Gênero: História do Brasil/Ciências Humanas e Sociais/Política

Sobre: Quem foi Cairu? Quem foi esse homem que na juventude andava com roupas rasgadas pelas ruas de Salvador e conseguiu ascender na sociedade hierarquizada do Antigo Regime? São muitas as facetas do desse curioso personagem retratado em José da Silva Lisboa, Visconde de Cairu (1756-1835), estudo da historiadora Tereza Cristina Kirschner. 

Um Ps antes do texto: o "problema" de história é que, para explicarmos um determinado ponto de vista ou evento, temos que nos expandir e explicar o contexto, o processo, assim como vários pontos de vista sobre o ponto de vista/interpretação ou o tal evento. Bom, minha dificuldade no início da faculdade era justamente essa expansão e, para os leigos, falta de objetividade na explicação do assunto, falta de objetividade essa que é apenas, como disse, a explicação do contexto, de um ponto de vista específico e sobre as várias interpretações sobre esse ponto de vista uma vez que a História não é uma verdade absoluta, os historiadores apenas tentam fidedignamente reconstituir os homens numa sociedade historicamente localizada. Então, o texto pode parecer longo e sem objetivo para quem não está acostumado com a História, mas todo o "blá blá blá" (minha família diz que quando começo a falar de história não consigo parar mais haha, escrevo nas provas no mínimo quatro folhas para discorrer sobre um assunto) é para explicar o por quê das atitudes das figuras nos eventos.  


Opinião: Por mais ou menos seis meses trabalhando na Livraria LDM - esquina da Rua da Salete ("da", e não "do"), entre a Piedade e os Barris, onde está localizada a Faculdade Visconde de Cairu -, não tinha idéia de quem e o quê essa figura foi ou por que havia uma faculdade com seu nome. Estudando na Unijorge do Comércio também não fazia idéia, nem conseguia relacionar o bairro com quem foi Cairu e o quê este homem, que recebeu um título de nome Tupi, representa na História do Brasil até ser incubida, no seminário da disciplina Formação da Nacionalidade Brasileira (conhecida como Brasil 2), de falar sobre a influência do Liberalismo Econômico no Processo de Independência do Brasil. 

Li o livro em dois dias, há duas semanas. Antes, é claro, li os três primeiros capítulos do primeiro livro do compêndio A Riqueza das Nações do "pai do liberalismo econômico", Adam Smith, para entender as atitudes de Visconde de Cairu e, não sei se por estar fazendo o curso de Economia Política no Lemarx e assim ter uma base do assunto não senti dificuldade, como muitos apontam, em entender Smith - não sei se a edição que li contribuiu, mas Smith lança sua teoria com exemplos, o que facilita bastante para a compreensão da base teórica do Capitalismo. Aprendi, entre outras coisas, que Economia é muito mais que assistir Conta Corrente ou acompanhar a queda da bolsa ou a inflação no Jornal Nacional, aprendi que estudo no local onde tudo aconteceu nos primeiros 300 anos de Brasil, que Salvador já foi o centro do Império Português e, principalmente, que tenho que comer muita letra antes de lecionar.

Foto: Maiara Alves
O homem que conhecemos como Visconde de Cairu (ou Cayrú/Cayru/Cairú) se chama José da Silva Lisboa, nasceu em Salvador em Julho de 1756 e entrou para a história como, entre outras coisas, o economista do Primeiro Reinado. Estudou em Coimbra, onde foi moldado ideologicamente para servir ao Império Português, participando assim dos principais eventos régios que resultaram na Independência, Independência esta que foi resultado de um longo processo e não apenas de D. Pedro ou da mudança da Corte para o Brasil - aliás, ressalta Kirshcner, de acordo com o historiador Rogério Forastieri é à Silva Lisboa que se deve a comum interpretação de que a vinda da família real para o Brasil "conduziria à independência e à constituição da nação". É como conselheiro de D. João VI, nas medidas régias, que José da Silva Lisboa, influenciado pelo Liberalismo Econômico de Adam Smith, entra para a História da Bahia e do Brasil onde, através dessas medidas tenta civilizar a colônia e fortalecer o Império Português. Silva Lisboa não queria a Independência do Brasil. Sim, é meio contraditório um "ilustrado" e "liberal" ser na verdade um monarquista, e só é possível entender isto considerando o contexto, sua formação e alguns outros fatores.

Imagem: Google Imagens/Reprodução
Um personagem listado entre os malditos da historiografia acadêmica, de acordo com Kirschner. Sérgio Buarque de Holanda e Octávio Tarquínio de Souza o consideram um velho adulador e em matéria teórica um repetidor sem nenhuma originalidade de noções e conceitos sediços.

Quem foi esse homem que na juventude andava com roupas rasgadas pelas ruas de Salvador e conseguiu ascender na sociedade hierarquizada do Antigo Regime? Silva Lisboa nasceu em uma família humilde, numa Salvador onde para estudar, graças as reformas pombalinas onde não mais os jesuítas eram responsáveis pela educação e sim cada família, era necessário ter condições financeiras para pagar professores régios e ir para Universidade de Coimbra - pois, para manter um controle sobre a colônia, a metrópole proibia a criação de faculdades na América portuguesa. Seu pai consegue dinheiro para pagar professores que o preparam para os testes de admissão na Universidade de Coimbra, onde, "embora matriculado na faculdade de Cânones, recebeu, portanto, uma formação em direito natural e direito civil português". É em Coimbra, onde luso-brasileiros e portugueses são moldados ideologicamente a servirem ao Império Português: aprendem a respeitar o Trono e o Altar, a Monarquia e a Igreja em pleno século XVIII onde boa parte da Europa vive as conseqüências da Revolução Francesa.

Em Coimbra, Silva Lisboa foi contemporâneo, entre outros, de José Joaquim da Cunha Azeredo Coutinho, José Vieira Couto, Antônio de Moraes Silva, José Arouche Rendon e de seu irmão Balthazar. Embora a Universidade tenha sido "reformada" por Pombal a fim de acompanhar a modernidade das Luzes que se manifestava na Europa, o liberalismo em Portugal foi diferente do liberalismo francês e inglês, assim como em cada país o Iluminismo vai ter sua especificidade - alguns historiadores dizem até que o Iluminismo não é francês, pois, segundo eles, os filósofos parisienses não tinham tanta profundidade e originalidade quanto Goethe, Kant e até mesmo Smith. Em primeiro lugar, segundo meu professor da disciplina Pablo Magalhães (mesmo eu falando informalmente aqui tenho o dever de creditar), o Liberalismo não era ensinado em Coimbra, seus estudantes meio que se envolveram clandestinamente com o liberalismo e, no caso de Lisboa, vai ser estritamente aplicado aqui no Brasil, voltado, no primeiro momento, para o setor político-econômico, e não no liberalismo em si no que consiste as idéias de liberdade de pensamento, religião, imprensa, etc. Formado em Coimbra então, em Leis, Cânones e Filosofia, Silva Lisboa, e outros, estava apto a exercer funções político-administrativas no Império Português e em 1780 retorna à Bahia, ideologicamente formado, pensando como a monarquia portuguesa, para ocupar cargos administrativos na Colônia e posteriormente Império.

Seu primeiro cargo é de professor, logo após de Ouvidor na Comarca de Ilhéus onde ainda não conhecia os princípios da economia política de Adam Smith e onde, após um ano, deixa o cargo porque ao aplicar as leis régias que aprendeu em Coimbra era perseguido pelos senhores proprietários de terras, de escravos e negociantes que tinham seus interesses prejudicados, porém, a Coroa logo tratou de auxiliá-lo (assim como aos outros funcionários régios que também eram perseguidos) e o nomeou professor (o primeiro, aliás) de Língua Grega. Um ano depois, em 1798 é nomeado por D. Rodrigo de Souza Coutinho, o sábio conselheiro, Deputado e Secretário da Mesa da Inspeção da Agricultura e Comércio da Bahia a fim de promover o comércio e a agricultura. É na mesa de inspeção que Silva Lisboa aprende como se dá as relações comerciais na Bahia e esse cargo resulta no livro "Princípios da Economia Política" fortemente influenciado por Adam Smith.

São essas idéias que influenciam José da Silva Lisboa, que tinha o objetivo de com elas promover a civilização e fortalecer o Império Português dos princípios revolucionários franceses e contra Napoleão, principal opositor das monarquias inglesa e portuguesa. Mas vamos do começo, com "Princípios da Economia Política" publicado em 1804 (não sei ao certo se foi o primeiro, se não foi o primeiro foi um dos primeiros livros a serem publicados pela Imprensa Régia) disponível na Brasiliana.

No livro, ele defende abertamente a liberdade de comércio em oposição aos monopólios. Ele cumpria rigorosamente as ordens régias, mas tinha suas próprias idéias a respeito do comércio da colônia, escrevendo então sobre as vantagens da liberdade comercial. Como disse anteriormente, segundo Kirschner, Silva Lisboa criticava a política monopolista do governo, mas não se opôs à monarquia, pois tinha em mente o progresso da nação portuguesa. Para ele e Rodrigues de Brito, economista português e outro crítico, a "nascente economia política possibilitaria o desenvolvimento da colônia" e o livro, mesmo sendo subversivo nesse contexto foi censurado pelo governo.

Influenciado por Smith, Silva Lisboa acreditava que o comércio promove a civilização e a felicidade, a economia política então para ele é a "arte da civilização" - civilização nesse contexto significa suavização dos costumes, aprimoramento da educação, desenvolvimento da polidez, avanço das ciências e das artes... o estágio final de um processo de evolução.Com base nisso, Silva Lisboa apresenta no livro um projeto civilizador para a Colônia que consiste em instrução da população e transição gradual da escravidão para o trabalho livre. Alerta aos leitores sobre a prudência na implantação dessas reformas sócio-econômicas, cabendo a cada província decidir o momento de realização destas. Essas idéias são apenas idéias de como os princípios da economia política de Smith deviam ser implantadas, na prática as coisas eram diferentes pois ainda havia uma forte resistência dos senhores de engenho e escravos - fato é que a abolição da escravidão só aconteceu, oficialmente, em 1888, ou seja, 84 anos depois da publicação de Silva Lisboa.


Uma curiosidade: Em tempos de greve de professores da rede pública de ensino da Bahia, um pequeno histórico sobre a educação não só na Bahia, mas da antiga América portuguesa: Para Luiz dos Santos Vilhena, havia na Bahia no século XVIII (especificamente 1779) "uma verdadeira 'aversão' aos professores". "Os baixos salários, os atrasos constantes nos pagamentos dos ordenados e a falta de material eram fatores que não tornavam atraente a função de professor na Colônia". Braudel explica hahaha.


[texto escrito em abril de 2012]

Eduardo Galeano - As Veias Abertas da América Latina

Foto: Maiara Alves
As Veias Abertas da América Latina
ISBN: 9788525420817
Autor: Eduardo Galeano
Editora: L&PM
Páginas: 400
Gênero: História/Geografia

Sobre: No prefácio escrito em agosto de 2010, especialmente para esta edição de As veias abertas da América Latina, Eduardo Galeano lamenta "que o livro não tenha perdido a atualidade." Remontado a 1970 sua primeira edição, atualizada em 1977, quando a maioria dos países do continente padecia facinorosas  ditaduras, este livro tornou-se um autêntico "clássico literário", um inventário da dependência e da vassalagem de que a América Latina tem sido vítima, desde que aqui aportaram os europeus no final do século XV. No começo, espanhóis e portugueses. Depois vieram ingleses, holandeses, franceses, modernamente os norte-americanos, e o ancestral cenário permanece: a mesma submissão, a mesma miséria, a mesma espoliação.

Opinião: Todo cidadão latino-americano devia ter As Veias Abertas da América Latina como livro de cabeceira. Neste livro, o jornalista uruguaio Eduardo Galeano conta como a América Latina, desde a invasão européia até a presente data (uma vez que o livro, de acordo com o próprio autor, não perdeu a atualidade), foi e é impiedosamente explorada em prol do desenvolvimento dos colonizadores modernos e contemporâneos. Trata-se de uma reflexão a cerca do papel da nossa região político-econômica no mundo, e de como os interesses desses estados-nações interferiram na vida de milhões de seus nativos desde o século XVI.

O li nas férias de Julho, por recomendação do meu professor de América para a disciplina de Revoluções e Ditaduras na América Latina e Caribe, mas é um livro que tem que ser lido por todos nós, cidadãos latino-americanos e também pelos estadunidenses e europeus, pois são uma parte de nossos algozes. A partir da ótica marxista, tendo como base obviamente a perspectiva político-econômica, Galeano conta com,o desde a invasão européia, a América Latina é explorada em prol, inicialmente, da acumulação primitiva de capital, o mercantilismo, e posteriormente pelo imperialismo, a partir do séc. XIX. De acordo com historiadores, o termo "América Latina" foi utilizado primeiramente por Napoleão III, na segunda metade do século XIX, para designar os países da América que falavam línguas derivadas do latim, ou seja, os países que foram colônias de Portugal e Espanha. Mas, apesar de haver países que foram colônias francesas também ao norte, o termo, no séc. XX, passou a denominar a região que abarca desde o México ao Cabo Froward, extremo sul da América. A discussão do significado do termo América Latina é extensa e muito interessante, Galeano a utiliza no sentido econômico e sócio-histórico.

Textos históricos costumam seguir uma cronologia: Galeano não o faz, porém mesmo indo e vindo entre os séculos,

Quotes
Segundo a voz de quem manda, os países do sul devem acreditar na liberdade de comércio (embora não exista), em honrar a dívida (embora seja desonrosa), em atrair investimentos ( embora sejam indignos) e em entrar no mundo (embora pela porta de serviço). (p. 5)
Dar de comer aos carros é mais importante do que dar de comer às pessoas. (p. 6)
Nossa comarca no mundo, que hoje chamamos América Latina, foi precoce: especializou-se em perder desde os remotos tempos em que os europeus do Renascimento se aventuraram pelos mares e lhe cravaram os dentes na garganta. (p. 17)

Mas aqueles que ganharam  só puderam ganhar porque perdemos: a história do subdesenvolvimento da América Latina integra, como já foi dito, a história do desenvolvimento do capitalismo mundial. (p. 19)
O sistema é muito racional do ponto de vista de seus donos estrangeiros e de nossa burguesia comissionista, que vendeu a alma ao Diabo por um preço que deixaria Fausto envergonhado. (p. 21)
Os índios das Américas somavam não menos que 70 milhões, ou talvez mais, quando os conquistadores estrangeiros apareceram no horizonte; um século e meio depois estavam reduzidos tão só a 3,5 milhões. (p. 64)
Ocorre que, quanto mais ricas são essas terras virgens, mais grave se torna a ameaça que pende sobre suas vidas; a generosidade da natureza os condena à espoliação e ao crime. (p. 78)
Quanto mais cobiçado pelo mercado mundial, maior é a desgraça que o produto causa ao povo latino-american que com sacrifícios o cria. (p. 93)  
Havana resplandecia, zumbiam os cadilaques em suas suntuárias avenidas, e no maior cabaré do mundo, ao ritmo de Lecuona, ondulavam as mais formosas vedetes; Enquanto isso, nos campos cubanos apenas um em cada dez trabalhadores rurais tomavam leite, apenas 4 por cento comia carne, e sgundo o Conselho Nacional de Economia, três quintas parte dos trabalhadores rurais recebiam salários três ou quatro vezes inferiores ao custo de vida. (p. 116)
O banho de sangue coincidiu com um período de euforia econômica da classe dominante: é lícito confundir a prosperidade de uma classe com o bem-estar de um país? (p. 149) 
Em geral, e muito especificamente na Guatemala, essa estrutura de apropriação da força de trabalho mostra-se identificada com todo um sistema de preconceito racial: os índios são vítimas do colonialismo interno de brancos e mestiços, ideologicamente abençoado pela cultura dominante, do mesmo modo que os países centro-americanos padecem do colonialismo estrangeiro. (p. 154)
A América Latina teve em seguida suas constituições burguesas, muito envernizadas no liberalismo, mas não teve, em troca, uma burguesia criativa, no estilo europeu ou norte-americano, que assumisse como missão histórica o desenvolvimento de um capitalismo nacional pujante. As burguesias destas terras nasceram como simples instrumentos do capitalismo internacional, prósperas peças da engrenagem mundial que sangrava as colônias e as semicolônias. (p. 167)
Embora as estatíticas internacionais sorriam exibindo médias enganosas, a verdade é que o ensopado, guisado de macarrão e tripas de capão, constitui a dieta básica, carente de proteínas, dos camponeses do Uruguai.  (p. 173)

Porque o campo não é tão só uma sementaria de pobreza: é também uma sementaria de rebeliões, embora as agudas tensões sociais amiúde se ocultem, mascaradas pela aparente resignação das massas. (p. 183)
Os colonos da Nova Inglaterra, núcleo original da civilização norte-americana, não atuaram nunca como agentes coloniais da acumulação capitalista europeia; desde o princípio viveram a serviço de seu próprio desenvolvimento e do desenvolvimento de sua nova terra. (p. 189)
 Na América Latina é normal: sempre se entregam os recursos em nome da falta de recursos. (p. 197)
O desenvolvimento é uma viagem com mais náufragos que navegantes. (p. 243)
"No momento da emancipação, as colônias espanholas se tornaram uma espécie de colônias inglesas." (p. 278)
E comprovar que este novo modelo de imperialismo não torna suas colônias mais prósperas, conquanto enriqueça seus polos de desenvolvimento; não alivia as tensões sociais regionais, ante as agrava; dissemina ainda mais a pobreza e concentra ainda mais a riqueza: paga salários vinte vezes menores do que em Detroit e estipula preços três vezes maiores que em Nova York; torna-se dono do mercado interno e das etapas cruciais do aparelho produtivo; apropria-se do progresso, decide seus rumos e lhe fixa as fronteiras; dispõe do crédito nacional e orienta a seu talante o comércio exterior; não só desnacionaliza a indústria como também os lucros que a indústria produz,; estimula o desperdício de recursos ao desviar para o exterior parte substancial do excedente econômico; não emprega capitais no desenvolvimento, antes os subtrai. (p. 292)
(...) a cidade torna os pobres ainda mais pobres, pois cruelmente lhes oferece miragens de riquezas às quais jamais terão acesso, automóveis, mansões, máquinas poderosas como Deus e o Diabo, ao mesmo tempo em que lhes nega um emprego seguro, um teto decente para se recolher e pratos cheios na mesa de cada meio-dia. (p. 349)
Em seu estudo do desenvolvimento do subdesenvolvimento do Brasil, André Gunder Frank observou que, sendo o Brasil um país satélite dos Estados Unidos, dentro do Brasil o Nordeste cumpre uma função satélite da "metrópole interna" radicada na região Sudeste. A polarização se torna visível através de numerosos traços: não só porque a imensa maioria dos investimentos privados e públicos se concentram em São Paulo, mas igualmente porque esta cidade gigantesca se apossa também, como por meio de um enorme funil, dos capitais gerados por todo o país, através de um intercâmbio comercial desvantajoso, de uma política arbitrária de preços, de escalas privilegiadas de impostos internos e da apropriação em massa de cérebros e mão de obra capacitada. (p. 351 e 352)
Para que o imperialismo norte-americano possa, hoje em dia, integrar para reinar na América Latina, foi necessário que ontem o Império britânico contribuísse para nos dividir com os mesmos fins. (p. 363) 
A veneração do passado sempre me pareceu reacionária. A direita elege o passado porque prefere os mortos: mundo quieto, tempo quieto. Os poderosos, que legitimam seus privilégios pela herança, cultivam a nostalgia. Estuda-se história como se visita um museu; e essa coleção de múmias é uma fraude. Mentem-nos o passado como nos mentem o presente: mascaram a realidade. Obriga-se o oprimido a ter como sua uma memória fabricada pelo opressor, alienada, dissecada, estéril. Assim ele haverá de resignar-se a viver uma vida que não é a sua como se fosse a única possível. (p. 370 e 371)  
   

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Retrospectiva Literária 2012

Foto: Maiara Alves
Adoeci e quase não consegui fazer a Retrospectiva Literária de 2012; a foto ficou péssima, mas estou muito indisposta pra tirar uma melhor. Meu humilde acervo está com um desfalque de mais ou menos 20 livros que, confesso, acho que não verei mais, mas se é livro e conhecimento é bom que "se perca".  Costumo dizer que, se não tivesse estudando História e não tivesse uma enorme carga de leitura diária, meu acervo estaria bem maior. De qualquer forma, 2012 foi um ano bom - literariamente falando. Meus preferidos de 2012:

  1. Os Sertões - Euclides da Cunha
  2. As Veias Abertas da América Latina - Eduardo Galeano
  3. O Príncipe - Nicolau Maquiavel
  4. 1984 - George Orwell
  5. Henri Wallon: uma concepção dialética do desenvolvimento infantil - Izabel Galvão
Destaco também os textos das disciplinas de História Moderna e América II que li na faculdade: foram muito bons e uma leitura muito gostosa.

Bom, posso dizer que Os Sertões foi um marco na minha vida. O li em Janeiro, por engano para a disciplina de Formação da Nacionalidade Brasileira, mas mudou minha vida. Me apaixonei pela História do Sertão, pela história de Euclides da Cunha, pelo Sertão de Canudos, por Conselheiro e tive a sorte de conhecer o Parque pessoalmente, assim como Enoque Oliveira, uma das pessoas que lutam pra manter a memória e ajudar o povo da região de Canudos. Já As Veias Abertas da América Latina tornou-se um dos meus livros favoritos e tive a sorte de trabalhá-lo em América II com um professor que tinha o mesmo ponto de vista que o do Galeano. 


domingo, 18 de agosto de 2013

PALESTRA - Da Bahia ao Valongo: Salvador e Rio de Janeiro na formação da cultura escrava - séculos XVIII e XIX

Imagem: Unijorge
Tema: Da Bahia ao Valongo: Salvador e Rio de Janeiro na formação da cultura escrava - séculos XVIII e XIX
Palestrante: Profº Drº Carlos Eugênio Líbano Soares (UFBA)
Data: 27 de Agosto de 2013 às 17:30
Local: Auditório do prédio IV, Unijorge, Campus Comércio, 9º Andar
Inscrições: coord.historiaunijorge@gmail.com

Vagas Limitadas!
 

sexta-feira, 26 de julho de 2013

A Escravidão na África pré-Colonial

Jinga (1582-1663), a grande guerreira africana, segue com seu séquito de músicos, favoritas e oficiais, portando arco e a machadinha dos jagas. (ALENCASTRO, p. 233) 
A escravidão na África pré-Colonial, a comercialização de escravos, a influência muçulmana e as modificações quanto à escravidão no continente com o tráfico atlântico

A África estava, desde há muito tempo, ligada a escravidão tanto como fonte principal de escravos "quanto como uma das principais regiões onde a escravidão era comum", afirma Paul Lovejoy, que diz também que a escravidão no continente africano durou até o século XX.

A escravidão no continente africano antes da comercialização com os muçulmanos e a colonização europeia era marginalizada. A sociedade se estruturava de acordo com as relações de parentesco, através da gerontocracia (autoridade por membros mais velhos), mas a escravidão não alterava a formação social. A escravidão era apenas mais um dos meios dependência (haviam também o casamento e o concubinato), estava essencialmente ligada ao mundo do trabalho e também uma forma de exploração. Os escravos eram as pessoas que não tinham laço de parentesco, os estrangeiros, porém nem todo estrangeiro era escravo. Servia também, a escravidão, como uma forma de dominação nos lugares onde as relações de parentesco era dominante.

A existência de escravos na sociedade africana não fazia dela uma sociedade escravocrata, pois a sociedade não dependia diretamente deles, a escravidão no continente africano antes da comercialização com os muçulmanos e antes da chegada dos europeus, era, ressaltando mais uma vez, marginal. A comercialização de escravos com os muçulmanos se deu a partir do século VIII. No início, os escravos utilizados pelos muçulmanos eram os prisioneiros de guerra oriundos das expansões islâmicas. Eram utilizados no serviço militar, administrativo e doméstico. A escravidão muçulmana teve influência ideológica e tinha como base a religião, quem não se convertia ao islamismo tornava-se escravo como uma forma de aprendizagem. O escravo que se convertia não se emancipava de sua condição, mas a assimilação era considerada importante para uma possível emancipação.

Na escravidão islâmica as mulheres e crianças eram preferidas, as mulheres principalmente por causa da poligamia e serviços domésticos; eram tão importantes que custavam mais que os homens, nas relações comerciais com os muçulmanos. Os homens eram treinados para o serviço militar e doméstico, os mais promissores eram promovidos. O comércio de exportação na escravidão islâmica foi consideravelmente menor se comparada com a escravidão europeia. "As exportações chegavam a uns poucos milhares de escravos por ano na maioria das vezes, e como as áreas afetadas eram quase sempre muito extensas o impacto local era geralmente minimizado" (LOVEJOY, Paul). Em suma, a escravidão e influência islâmica se deu de uma forma ideológica, justificada pela religião e em números menores se comparada com a escravização pelos europeus.

O crescimento e a expansão do tráfico europeu de escravos mudou a história do continente africano e mudou também a escravidão no continente africano. A abertura do mercado atlântico foi um dos principais motivos que sistematizou a escravidão na África. Antes da abertura dos mercado atlântico, as costas atlânticas da África estavam isoladas do mundo exterior. A escravização pelos europeus no continente africano continuou a ser concebida em termos de parentesco. Os europeus queria trabalhadores para o campo e para as minas, preferindo assim escravos do sexo masculino. Com a intensa exploração dos europeus, a escravidão tornou-se uma sociedade agrícola baseada em grandes concentrações de escravos.

A exportação além do objetivo específico de mercado, de relações comerciais, foi também um elemento utilizado no controle de cativos. A exportação nesse caso funcionava como um processo ideológico que mantinha os escravos cumprindo com seus deveres e sem possíveis conflitos. Em suma, a principal influência da escravidão pelos europeus foi econômica, mudando radicalmente a escravidão no território africano deixando apenas de ser uma das relações de dependência, de estar à margem da sociedade e se transformar em uma instituição, em sistema, em sociedade escravocrata.


Referências Bibliográficas

ALENCASTRO, Luiz Felipe de. O Trato dos Viventes: Formação do Brasil no Atlântico Sul. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.

LOVEJOY, Paul. A Escravidão na África: uma história de suas transformações. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2002.

domingo, 14 de julho de 2013

A Expansão Banta no Continente Africano

Google Imagens/Reprodução

A Expansão Banta no Continente Africano: possíveis origens antes da expansão, o protobanto, as características econômicas, o processo de expansão (bantos ocidentais e orientais), o impacto de influências asiáticas como a banana e o ferro

Banto não é uma cultura, povo ou território e sim um tronco linguístico. A palavra banto quer dizer "povo" ou "homens" e foi utilizada para designar os povos que falavam línguas aparentadas no continente africano há milhares de anos.

As línguas bantas modernas teriam se originado do protobanto. O protobanto é uma criação dos linguistas que defendem duas teorias distintas de que o protobanto teria se originado no noroeste ou no sul do continente africano. O linguista Joseph Greenberg defende a teoria de que os protobantos teriam se originado no noroeste: no rio Benué, na fronteira da Nigérias com Camarões. Um outro linguista, Malcom Guthrie defende a teoria de que teriam surgido no sul, na floresta equatorial ao norte do Chaba. Mas Jan Vansina não destitui nenhuma das duas hipóteses, alegando que ambas se complementam. Alberto da Costal e Silva fala de um banto noroeste ou primitivo, e de um banto sul ou secundário.

Como a história da África foi construída a partir, principalmente, de fontes arqueológicas e história oral, o estudo dos vocábulos protobanto foi o que permitiu a reconstrução hipotética dos modos de vida desse povo. Os protobantos eram grandes produtores de alimentos, tecidos de ráfia, cestos, agricultura nas bordas da mata, pescadores e se organizavam em extensas famílias.

Esses povos moravam a distâncias umas das outras e seus números aumentavam constantemente em um espaço geográfico e propício e, embora conhecessem a agricultura e criassem animais, viviam em grande parte da pesca, da coleta e da caça; para isto, necessitavam de vasto espaço para exercer essas funções sem entrar em choque com os vizinhos. Então, o aumento da densidade demográfica e o ressecamento do Saara foram os fatores que motivaram esses povos a se deslocarem lentamente para o sul (a medida que aumentavam em números, os protobantos foram avançando para leste e para oeste). Esse deslocamento irá segmentar, dividir os protobantos: os grupos que se expandiram para o leste deram origem às línguas bantas orientais e os que se expandiram para o poente e sul, deram origem às línguas bantas ocidentais. Jan Vansina propõe uma outra teoria para a expansão dos bantos, eles diz que há milhares de anos nas pradarias do Camarões falava-se o idioma Bin e que o banto, então, deixou de ser um item à parte na chave das línguas africanas e os bantos oriental e ocidental faziam parte de algo muito mais aberto e antigo.

Os bantos ocidentais se desenvolveram entre o rio Cross, no Atlântico e nas montanhas no sul do camarões, chegaram ao rio Zaire e à Namíbia. Os bantos orientais se desenvolveram na região dos Grandes Lagos e foi entre eles que o ferro passou a ser difundido. A influência asiática se dá quando os indonésios fundam colônias e entrepostos na África Índica e os habitantes do continente se apropriam da bananeira, coqueiro, dos inhames asiáticos e de outras sementes e raízes que foram trazidas nos barcos indonésios. Jan Vansina sugere que o impacto da banana foi maior que o ferro, pois a banana é de fácil cultivo, requer pouco trabalho e dá frutos; o que tornou, então, a vida mais fácil e permitiu a migração para o interior.

A economia é sustentada com a mineração e a metalurgia, principalmente com esta última. Em alguns lugares, a presença de jazidas de ferro irá estimular a produção de artefatos que facilitará a caça e a pesca, além da troca desses produtos que tem como consequência o desenvolvimento dos primeiros vínculos de sujeição. A expansão dos povos bantos não se deu com exércitos (embora usassem a força quando necessário), mas pra suprir necessidades, por colonos que ocupavam territórios que pareciam estar vazios.


Referências Bibliográficas

ALTUNA, Raul Ruiz de Asúa. Cultura tradicional banto. Luanda: Secretariado Arquidiocesano de Pastoral, 1985.
SILVA, Alberto da Costa e. A Enxada e a Lança: a África antes dos portugueses. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, São Paulo, EDUSP, 1992.


domingo, 20 de janeiro de 2013

Eu Vou Ler...

Foto: Maiara Alves

  1. Jean-Claude Bernadet - Cinema Brasileiro
  2. Aida Marques - Idéias em Movimento
  3. Michel Marie - A Nouvelle Vague e Godard


Bom, penúltimo ano de graduação e a única coisa que você pensa é a monografia e o projeto de mestrado, então, está mais do que na hora de escrever, ler e pesquisar muito. 

Inicialmente, pensei em algo sobre o Cinema Novo, ou algo especificamente sobre Glauber Rocha, mas isso até ler Os Sertões, em janeiro do ano passado. Mudei de idéia e quis apenas sertão, depois pensei em juntar os dois e escrever sobre o sertão no Cinema Novo. Bom, muitas idéias se passam pela minha cabeça, muitas dúvidas também sobre a abordagem, pois as possibilidades de explorar esse tema são muitas. Enfim, Bernadet, assim como Marc Ferro, são referências em estudos sobre Cinema e História. A Nouvelle Vague é a base do Cinema Novo, portanto é indispensável estudá-la. Bom, é necessário também entender a linguagem do cinema, como funciona e etc, vou começar com o livro de Aida Marques. 

É, o jeito ler ler ler ler.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

João José Reis, Flávio dos Santos Gomes e Marcus J. M. de Carvalho - O Alufá Rufino: tráfico, escravidão e liberdade no Atlântico Negro (c. 1822 - c.1853)

Foto: Maiara Alves



O Alufá Rufino: Tráfico, Escravidão e Liberdade no Atlântico Negro (c. 1822 - c.1853)
ISBN: 9788535917369
Autor(es): João José Reis, Flávio dos Santos Gomes e Marcus J. M. de Carvalho
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 520
Gênero: História do Brasil/Escravidão e Liberdade


Sobre: Nascido no antigo reino africano de Oyó, escravizado na adolescência por um grupo étnico rival, adquirido por traficantes brasileiros e levado para Salvador da Bahia, o protagonista destas fascinantes páginas da história do Brasil teve sua biografia dividida pelo oceano. A vida de Rufino José Maria foi plena de aventuras e desventuras. Após conseguir sua alforria, foi cozinheiro assalariado de navios negreiros e, na maturidade, tornou-se alufá, espécie de guia espiritual da comunidade de negros muçulmanos no Recife. O livro demonstra como o tráfico e a escravidão moldaram de modo decisivo este personagem e o mundo em que ele viveu.

Opinião: Um dos livros de Escravidão e Liberdade e História do Brasil mais fascinantes da nossa historiografia e uma das poucas produções bibliográficas que conseguem enaltecer de uma forma brilhante seu conteúdo. Tráfico e escravidão não são meu forte, na verdade não tenho condições emocionais alguma de estudar qualquer tipo de escravidão, principalmente a moderna, mas devido ao nosso ilustre historiador baiano, João José Reis, ainda lerei muitos livros sobre o tema - mesmo porque é necessário compreender essa passagem da nossa história. A forma como os autores contam o tráfico e a escravidão na primeira metade do XIX é incrível: a partir de resquícios de documentos que mostram os itinerários de um ex-escravo nagô que integra o comércio transatlântico de escravos, os autores investigam como se dava o tráfico no XIX, quando o governo inglês reprimia de todas as formas o tráfico e, consequentemente, a escravidão. Vemos também o relato incrível de uma empresa de tráfico ilegal de escravos, que burlava a vigilância e leis dos governos do Brasil e Inglaterra. A micro-história é uma das abordagens mais fascinantes e bem elaborada para se escrever história: é uma linguagem cinematográfica da escrita.

Publicado em 2010 pela Companhia das Letras, a biografia de Rufino e os relatos do tráfico, escravidão e liberdade na primeira metade do séc. XIX, foi escrita por três pesquisadores especialistas no assunto: João José Reis, Flávio dos Santos Gomes e Marcus J. M. de Carvalho que pesquisam o tema, especificamente, na Bahia, Rio de Janeiro e Recife, respectivamente - locais no qual Rufino deixou sua marca. O livro foi escrito sob a perspectiva da micro-história, uma abordagem que, a partir de um personagem ou um objeto específico, relata-se além de sua particularidade, o contexto sócio-histórico em que está incluso. É como se, a partir de uma garrafa/lata de coca-cola, além de contar a história de sua criação e "evolução", pode-se relatar também o imperialismo estadunidense, a crise de 1929, primeira e segunda guerras mundiais, guerra fria e parte da história econômica e ideológica do séc. XX, na qual a marca de refrigerante está inserida. O livro é dividido em três partes, onde a partir da saída de Rufino do Benim, na África (entre 1822-23), até sua estadia no Recife (1853), ou seja, aproximadamente 31 (trinta e um) anos dos itinerários de Rufino e do comércio transatlântico de escravos. 

Na primeira parte do livro, os autores relatam a saída de Rufino do Benim, no continente africano, sua chegada à Bahia durante as lutas pela Independência em 1822-23, sua ida para Porto Alegre onde é alforriado, assim como sua tentativa falha de estabelecer-se no Rio de Janeiro, onde se vê obrigado a integrar o tráfico negreiro como alternativa de fugir da repressão na província do Rio de Janeiro à escravos e ex-escravos nagôs. A segunda parte é a mais interessante e fascinante do livro, pois a partir dos itinerários de Rufino, os autores encontram peças de um enorme quebra-cabeça onde está registrada a existência de verdadeiras empresas de tráfico de escravos em plena luta jurídica e "bélica" inglesa pelo fim da escravidão. Após chegar ao Brasil como escravo, ser alforriado, trabalhar no tráfico de escravos entre o Brasil e a costa leste da África como comerciante e cozinheiro nas embarcações, Rufino retorna ao Brasil passando a atuar como Alufá, um guia espiritual do "afro-islamismo-brasileiro" em Recife, na terceira parte do livro. Fiz um resumo bem medíocre, obviamente o livro é muito mais grandioso no qual, a partir da minuciosa investigação dos historiadores, descobrimos o subterrâneo das relações sócio-econômicas que envolvia o Brasil, os países da costa leste africana e o tráfico transatlântico de escravos e comércio de especiarias. 

A obra é a ilustração do quão importante e fascinante é o trabalho do historiador. A partir dos relatos do interrogatório do apresamento da embarcação Ermelinda e das duas prisões de Rufino, os autores têm suas primeiras peças da vida de Rufino após sua chegada no Brasil e o comércio de escravos e especiarias dentro destes trinta e um anos. É um trabalho de investigação, uma peça aqui e ali, na qual com muita dedicação tenta-se reconstruir o mais fidedignamente possível uma das mais importantes páginas da história do Brasil e da África. O quebra-cabeças ainda tem muitos vácuos, mais vácuos do que peças completas, porém este trabalho é uma forma de incitar novos pesquisadores de tráfico negreiro, assim como mais abordagens utilizando a micro-história. Gostei mais que tudo desta última parte, da estrutura que os autores utilizaram para relatar suas investigações, me inspirou, na verdade a buscar sempre mais e mais fontes, mais leituras, etc. Sublinhei poucas passagens, pois o li para apresentar um seminário e não como costumo ler. 

Quotes

A década de 1820, sobretudo sua segunda metade, foi o momento de mais alto pico do tráfico para a Bahia no século XIX. (p. 35)
Como podes negar um amor quando dão testemunho dele contra ti provas irrefutáveis de lágrimas e esgotamento? O amor apaixonado lavrou duas linhas com pranto e moléstia. Sim, visitou-me à noite o fantasma daquela que amo e me deixou insone. O amor mescla prazeres com dor. (p. 58-59)  
O cozinheiro de um navio negreiro, em suma, era um dos principais responsáveis - talvez mais do que o cirurgião, quando existia um abordo - pela manutenção da taxa de sobrevivência dos cativos dentro de margens aceitáveis de lucro. (p. 102) 
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