segunda-feira, 30 de maio de 2016

Adriana Dantas Reis - Cora: lições de comportamento feminino na Bahia do século XIX

Imagem: Google Imagens/Reprodução

Cora: lições de comportamento feminino na Bahia do século XIX
Autor(a): Adriana Dantas Reis
Editora: FCJA; Centro de Estudos Baianos da UFBA
Páginas: 262
Gênero: Ciências Humanas/História/Gênero/Educação
Ano: 2000

Sinopse: Cora, filha de um professor da Faculdade de Medicina da Bahia, Dr. José Lino Coutinho (1784-1836), recebe as lições do seu tempo. Cora, belo nome, casa aos 15 anos com Francisco Pereira Sodré, futuro barão de Alagoinhas, e tem 11 filhos. As cartas do seu pai podem ser uma lição, até hoje, dependendo da ótica do leitor. A ampulheta é outra. A educação também. Dentro da bibliografia de estudos sobre gênero no âmbito da história social, este é um livro importante.    

Opinião: Em Cora: lições de comportamento feminino na Bahia do século XIX, a historiadora Adriana Dantas Reis procura vislumbrar aspectos da vida cotidiana privada e pública das mulheres da elite baiana durante o século XIX. Utilizando vertentes da História Cultural e Social, através de diversas e interessantes fontes primárias disponíveis, assim como periódicos, relatos de viajantes, teses de medicina, documentos da Câmara, testamentos, inventários, certidões de óbito, batismo, processos-crime, livro de tabeliães, a autora descreve os costumes, hábitos e práticas educacionais das mulheres das elites baianas, baseando-se em aspectos culturais como o cotidiano, representações e imaginário na Bahia oitocentista. 

Com o objetivo de destacar pontos importantes acerca das práticas culturais, analisar as condutas sociais e educacionais, bem como direcionar linhas de pesquisas atuais sobre as mulheres na Bahia do século XIX, esta obra da historiadora de gênero, escravidão, mestiçagem e mobilidade social descreve, entre outras coisas, o que a elite luso-brasílica (colônia) e imperial (pós-independência) pensava a respeito das condutas sociais das mulheres baianas do oitocentos, seus costumes e práticas educacionais, o que a elite patriarcal propunha para sua educação, como agiam e lidavam com esses modelos de educação. Organizado em quatro capítulos, o livro é satisfatório quanto às elucidações mostrando a importância dos estudos de Gênero e Educação, ao abordar temas até recentemente pouco explorados e a preocupação em estratificar a variada gama de mulheres tentando não generalizá-las.

O primeiro capítulo, “Cenários e costumes da elite feminina no século XIX”, relata os espaços de sociabilidade e costumes das mulheres da capital da Bahia, Recôncavo e Sertão. Utilizando os relatos dos viajantes estrangeiros, a autora descreve como essas mulheres eram vistas pelos europeus – até então, modelos exemplares de civilidade e higiene – no que concerne às condutas sociais, costumes e práticas culturais. Analisa também como a vinda da Família Real portuguesa e a Corte influenciaram no comportamento das mulheres das capitanias do Rio de Janeiro e Bahia, disseminando e influenciando quanto aos costumes europeus que, como foi ressaltado anteriormente, eram os modelos de civilidade e higiene. Além do início do século XIX, a autora apresenta os espaços das mulheres durante o Primeiro Reinado, Segundo Reinado e as mulheres da elite do Recôncavo e Sertão baiano, espaços de extrema importância para a compreensão da dinâmica social, política e econômica da Bahia, e onde as mulheres envolviam-se com mais altivez. 

Em “Padres, médicos e as novas formas de sociabilidades femininas”, o segundo capítulo, o autora relata as representações católicas e modelos de conduta feminina propostas pela Igreja acerca das mulheres que predominaram na cultura ocidental e, consequentemente, na América portuguesa e século XIX (é inequívoco afirmar que até os dias atuais também!). Além das representações e propostas sócio-educacionais, a autora descreve as permanentes intervenções da Igreja quanto às mulheres no que concerne ao combate dessas novas formas de sociabilidade feminina praticadas espontaneamente pelas mulheres e com influência das proposições realizadas pela elite patriarcal ilustrada. Uma dessas intervenções foi a inserção das Irmãs de Caridade na sociedade baiana, que tinham como objetivo difundir preceitos católicos a fim - de acordo com a Igreja e parte da elite - de melhorar a educação feminina. Não foi apenas a Igreja Católica que buscou disseminar hábitos entre as mulheres baianas, de acordo com a autora, mas também os médicos que, com os modelos higienistas europeus, tentaram interferir na conduta feminina com o intuito de construir uma mulher civilizada, mulher esta que deveria ser o modelo desse Estado brasileiro e Estado Imperial em voga no início e durante o século XIX.   

Além da intervenção de médicos e da Igreja Católica, a elite patriarcal (grupo social no qual os médicos também estavam, em parte, inclusos) também pensava e propunha modelos de educação para as mulheres, é o que a autora relata no terceiro capítulo do livro: “Como educar uma filha de acordo com o progresso do século?”. Neste capítulo, a autora aborda e analisa um modelo de educação ilustrada proposta pela elite ilustrada baiana, que visava uma educação livre do modelo opressor de então (a Igreja) e de acordo com o modelo civilizatório e higiênico europeu. Neste capítulo a autora apresenta “Cora”, mulher da elite baiana que dá título ao livro e que teve uma educação de acordo com esse modelo europeu visado pela elite baiana. Cora, filha do ilustrado, médico, deputado e maçom José Lino Coutinho, é educada por uma preceptora de acordo com o modelo europeu proposto em cartas que direcionavam-na em diversas fases de sua vida. Ainda de acordo com as análises da autora, essas cartas não deveriam ser apenas para sua filha, mas servir como modelo para as demais mulheres da elite baiana.

No quarto e último capítulo do livro, “O debate em torno das Cartas sobre a educação de Cora”, o modelo de educação baseado nos princípios europeus são analisadas mais aprofundadamente. De acordo com a autora, essas cartas foram influenciadas pelos ideais iluministas, que tinha como objetivo proferir, entre outros, uma educação que promovesse a erudição para que as mulheres pudessem educar os filhos e acompanhar o marido. A autora relata também a recepção positiva e negativa das Cartas por meio da imprensa, através de periódicos de cunho religioso, conservador, liberal e publicações escritas por outros médicos e estudantes de medicina. As Cartas causaram grande polêmica e discussões fervorosas não apenas por meio da imprensa, mas também nos ambientes (cafés, salões, redações dos periódicos, tipografias, teatros, etc) em que esses intelectuais socializavam.   

A excelente pesquisa da professora e historiadora Adriana Dantas Reis mostra-se interessante ao vislumbrar aspectos das práticas culturais das mulheres baianas do século XIX. Os estudos de gênero na Bahia, à época em que a pesquisa foi realizada e concluída, precisavam (e ainda precisam) de pesquisas aprofundadas e contundentes como a que foi realizada pela professora. Dos anos 2000 até hoje, as pesquisas e o interesse acerca do estudo das mulheres, e pelos estudos de gênero em si, aumentaram consideravelmente. O livro aborda o cotidiano, costumes, hábitos e a educação das mulheres ao longo do século XIX através de uma vasta documentação; documentação esta analisada e utilizada de forma bastante lúcida, principalmente as Cartas sobre a educação de Cora que representa bem o modelo de educação feminina promovido pelos ilustrados e o Estado Imperial. Porém, o grande recorte temporal feito pela autora deixa a desejar, uma vez que as práticas sociais, em qualquer tempo e espaço, são extremamente complexas e necessitam de uma análise aprofundada para que equívocos e generalizações não sejam cometidas.

Para exemplificar, no primeiro capítulo, a autora descreve os espaços e costumes da elite feminina em quatro tempos: no início do século XIX, após a transferência da Corte, no Primeiro e Segundo Reinado de forma relativamente breve e objetiva. Talvez a autora tenha alargado o recorte temporal devido a uma possível ausência de fontes específicas sobre o tema, mas esta abordagem às vezes torna a leitura (principalmente para o público leigo) e compreensão do período um pouco confusa; a autora também intercala esses quatro tempos nos outros três capítulos transmitindo, em determinados momentos, a mesma sensação. Talvez fosse mais escrupuloso delimitar um recorte temporal específico, reduzindo um século inteiro para uma determinada quantidade de décadas.

O livro pode ser utilizado para a compreensão da origem e história das práticas culturais e educacionais das mulheres na Bahia. Bem como da história e origem do machismo, misoginia, preconceito e desigualdade contra as mulheres. Pode ser utilizado para uma análise histórica e reflexão dos vários tipos de violência contra a mulher - lembrando que o período abordado é o século XIX, tempo não muito distante do atual e que, infelizmente, ainda existem muitas permanências. Faz-se refletir acerca dos direitos sociais, políticos e civis das mulheres de uma sociedade ainda patriarcal, elitista, segregadora e preconceituosa.     

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